quarta-feira, 22 de março de 2006

Liderança de Humala no Peru assusta mercado

O candidato ultranacionalista Ollanta Humala assumiu a liderança nas pesquisas para as eleições presidenciais de 9 de abril no Peru. Na sondagem da Companhia Peruana de Pesquisas de Mercado, Humala teve 31,6% das preferências, superando a candidata da direita, Lourdes Flores, com 29,1%. Ele ameaça taxar agressivamente as mineradoras e reestatizar a economia.

Na pesquisa sobre o segundo turno, no entanto, Flores aparece com 41,5% contra 36,6% de Humala. Nenhum partido teria maioria no Congresso, o que obrigaria o futuro presidente a fazer alianças.

Mesmo assim, a Bolsa de Lima caiu 4%, o dólar subiu e o risco-país do Peru aumentou 22%. O atual presidente, Alejando Toledo, pediu calma ao mercado.

Humala liderou uma tentativa de golpe em 2000 contra o então presidente Alberto Fujimori. Seguindo o exemplo do presidente venezuelano Hugo Chávez, outro golpista que chegou ao poder, o coronel Humala lançou na política com um forte discurso antiliberal, anticapitalista e contra o atual sistema político-partidário.

Como Chávez e o novo presidente da Bolívia, Evo Morales, Humala acredita no poder do Estado como motor do desenvolvimento e promoter de menor desigualdade social. A diferença é que o Peru não tem o petróleo da Venezuela para financiar programas sociais de inspiração populista.

Anteontem, o candidato a vice-presidente na chapa de Humala, Gonzalo García, defendeu a estatização de setores estratégicos, especialmente de energia.

terça-feira, 21 de março de 2006

Novo presidente da Bolívia “daria a vida pela nacionalização dos recursos naturais”

Até 12 de julho, o novo governo da Bolívia deve definir os termos da “nacionalização dos recursos naturais”, uma das promessas de campanha do presidente Evo Morales. A Petrobrás, maior investidor e maior empresa em atividade no pais, aguarda a definição da nova política energética boliviana para negociar.

Ontem, em Camiri, antiga capital do petróleo boliviana, que fica no Departamento de Santa Cruz, Morales, líder do Movimento ao Socialismo e do sindicato dos produtores de folha de coca, declarou que “daria minha vida pela nacionalização dos recursos naturais do pais”.

A questão foi debatida nesta terça-feira, 21 de março, no Centro Brasileiro de Relações Internacionais, no Rio. O Novo Governo Boliviano: implicações para as relações bilaterais na área energética fez parte de um ciclo de palestras sobre as eleições na América Latina.

Para o diplomata Pedro Miguel da Costa e Silva, especialista em bolívia e assessor de política externa da Presidência da República, “a eleição de Evo Morales é produto de uma crise econômica e social” que atinge o país pobre da América do Sul desde a década de 90.

Depois do ciclo de golpes e ditaduras militares, mais de 190 em 160 anos de história independente, a Bolívia elegeu em 1982 Hernán Siles Suazo. Seu governo foi marcado por uma hiperinflação que chegou a 25.000% ao ano. Em 1985, começou uma abertura econômica com adoção de políticas neoliberais. Nos anos 90, esse processo levou a uma crise, com déficit fiscal.

SENTIMENTO DE ESPOLIAÇÃO HISTÓRICA
Um dos maiores problemas é que a economia boliviana sempre esteve baseada num produto só, primeiro a prata, depois o estanho e mais recentemente o gás natural, com mercado interno pequeno, contrabando e economia informal. Há um forte sentimento de que o pais foi historicamente espoliado, de que a maioria nunca se beneficiou das riquezas nacionais, o que aumenta as reivindicações de estatização dos setores de petróleo e gás.

Com a crise fiscal, “desde 2003, o governo não consegue pagar suas contas”, disse Costa e Silva. Tudo isto agrava os grandes problemas sociais do pais, a desigualdade e a pobreza, que atingem sobretudo a maioria indígena.

“Desde os anos 80, entraram US$ 7 bilhões em investimentos externos”, constata o assessor presidencial. Mas a percepção generalizada do povo boliviano é que a abertura econômica não deu certo, o que aumenta a demanda por um modelo nacionalista estatizante. Isto e a desmoralização dos partidos tradicionais, que se alternavam no poder para defender seus próprios interesses, contribuíram para a vitória de Morales, presidente do Movimento ao Socialismo e do sindicato dos produtores de folha de coca, o que o coloca em conflito com os Estados Unidos.

QUEDA DE PRESIDENTES
A crise gerou um questionamento do Estado e uma onda de manifestações populares com bloqueio de ruas e estradas que só ajudaram a desnudar a impotência das autoridades constituídas, agravando a crise institucional. Estes protestos derrubaram o presidente Gonzalo Sánchez de Lozada, em 17 de outubro de 2003, na chamada Guerra do Gás.

A Bolívia perdeu sua saída para o mar para o Chile na Guerra do Pacífico (1879-83). Quando o governo Sánchez de Lozada fez um acordo para vender gás para os EUA através de um porto chileno, a hipersensibilidade e o senso de injustiça histórica dos bolivianos chegou ao limite.

Costa e Silva lembrou que o nacionalismo econômico boliviano nasceu no setor de petróleo, com a nacionalização da Standard Oil durante a Guerra do Chaco (1932-35), contra o Paraguai, quando a Bolívia perdeu mais uma pedaço de seu território. Alem da saída para o Pacífico, perdera o Acre para o Brasil nas guerras do Acre (1899-1902).

Com a queda de Sánchez de Lozada, o jornalista, historiador e empresário de comunicação Carlos Mesa assumiu a presidência para completar o mandato. Mas o déficit fiscal de 8,5% do produto interno bruto de US$ 8 bilhões não lhe deu margem de manobra.

O diplomata observou ainda que a energia mudou as relações bilaterais Brasil-Bolívia. Hoje o Brasil é o maior exportador, maior importador e maior investidor na economia boliviana. A Petrobrás é a empresa mais importante do pais.

Desde a queda de Sánchez de Lozada, há uma instabilidade política permanente. O Brasil apóia Morales e espera a organização do governo e a definição de políticas. Este processo pode ser lento porque um dos compromissos de Morales foi convocar uma Assembléia Constituinte para refundar a Bolívia.

Para aprovar a Constituinte, o novo presidente cedeu na questão da autonomia regional. Há uma perigosa polarização no pais. Os departamentos do Leste e do Sul, mais ricos, defendem o modelo neoliberal, em contraposição aos grupos indígenas do Altiplano, que exigem maior presença do Estado.

Para não concentrar toda a agenda bilateral no gás, o Brasil colabora no setor agrícola, especialmente na sojicultura, em obras de infra-estrutura e no desenvolvimento da tecnologia para aproveitar o gás. Mas prioridade é energia e aí entra a Petrobrás.

PETROBRAS É MAIOR EMPRESA DO PAÍS
Quando Brasil e Bolívia fizeram um acordo para construir um gasoduto, o objetivo era mais político, visando à integração latino-americana. Na época, nenhum sócio privado se interessou pela obra, iniciada em 1997. Agora as reservas comprovadas de gás boliviano cresceram muito, para cerca de 50 trilhões de metros cúbicos.

Hoje a Petrobrás explora 56% do gás boliviano e 40% do petróleo, disse o ex-presidente da empresa na Bolívia Décio Fabrício Oddone da Costa, gerando 18% do PIB da Bolívia. “A Petrobrás investiu US$ 1 bilhão e, com seus sócios, US$ 1,5 bilhão. Produz 70% do gás importado pelo Brasil. Gera 24% da arrecadação fiscal boliviana, US$ 535 milhões. Tem 46% das reservas de gás. É responsável por 95% do refino e por 23% da distribuição de derivados do petróleo, por 100% da gasolina e do óleo diesel, e por 20% do investimento externo direto de 1994 a 2004.”

Por tudo isto, o presidente Hugo Banzer, em seu segundo mandato (1997-2001), considerava o papel da Petrobrás dominante e convidou a empresa americana Enron. Com a privatização da companhia Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB), seu controle passou para a Shell e a Enron.

A Petrobrás tinha um contrato com a YPFB em que assumia todo o risco da prospecção de gás e petróleo, afirmou Oddone da Costa: “Se achasse algo, a YPFB poderia ficar com 50%”.

Em 1997, a Petrobrás perdeu o monopólio estatal sobre o petróleo brasileiro. Nesta época, o Brasil ainda tinha um papel econômico secundário na Bolívia. Precisava construir o gasoduto e achar gás para torna-lo viável economicamente. Em dois a três anos, as reservas bolivianas comprovadas se multiplicaram, chegando a quase 50 trilhões de metros cúbicos de gás.

Mas o negócio que tinha começado com governos e baixo investimento, visando sobretudo à integração regional, passava para empresas privadas ou de economia mista, com novos investimentos e integração muito maior. A Shell chegou a comprar gás argentino para vender ao Brasil via gasoduto. De repente, sobrava gás na Bolívia.

Segundo Oddone da Costa, as concorrentes da Petrobrás iniciaram então uma campanha contra a estatal brasileira, alegando que tinha privilégios e pagava poucos impostos. Num pais com hipersensibilidade histórica e miséria crônica, foi um sinal para que o nacionalismo econômico reivindicasse a reestatização dos recursos naturais.

Em 1990, havia apenas um gasoduto Bolívia-Argentina. Hoje há seis conexões para o Brasil, Argentina, Chile e Uruguai, alem do projeto conjunto Brasil-Argentina-Venezuela de um megagasoduto atravessando a Amazônia.

Os críticos deste projeto de iniciativa do presidente venezuelano, Hugo Chávez, alegam que o custo, US$ 30 bilhões, é muito elevado e há riscos ambientais graves. Seria apenas um projeto político. Oddone da costa lembra que quando Brasil e Bolívia decidiram fazer seu gasoduto, não havia gás nem demanda suficiente.

Com a crise energética, a expectativa de que a demanda por petróleo cresça mais rapidamente do que a oferta por causa do extraordinário crescimento da Ásia abre a possibilidade de que o megagasoduto tenha viabilidade econômica, disse Oddone.

Já Costa e Silva concluiu observando que “nada vai funcionar sem estabilidade politica na Bolívia”, o que depende do sucesso do governo Morales. Eleito no primeiro turno com maioria no Congresso, ele tem melhores condições, segundo o diplomata, para fazer um governo estável. Vai depender de seu relacionamento com os movimentos sociais que o levaram ao poder: “Houve uma opção clara pela volta do Estado na economia. Temos de esperar agora pelo início das negociações”.

Mais de 60% dos assalariados na América Latina não têm proteção social

A América Latina e o Caribe formam uma das regiões com maior desigualdade social do mundo: 61% dos assalariados trabalham informalmente, sem garantias sociais, o que afeta 213 milhões de pessoas; e em 40,6% dos lares 88 milhões de pessoas vivem abaixo da linha de pobreza absoluta.

Os dados são da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe das Nações Unidas (Cepal).

Governo do Hamas reúne radicais e tecnocratas

O presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, deve aprovar a formação do novo governo articulado pelo Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), grande vencedor das eleições palestinas. No domingo, 19 de março, o primeiro-ministro designado Ismail Haniya apresentou sua lista de ministros.

Sem o apoio da Fatah, de Abbas, e dos demais partidos da Organização para a Libertação da Palestina, sob pressão dos Estados Unidos e de Israel, o Hamas conta com sua maioria de 74 dos 132 deputados do parlamento palestino para dar sustentação ao governo. Também espera ajuda árabe caso os EUA e a União Européia cortem a ajuda e Israel não transfira o dinheiro dos impostos que arrecada em territórios palestinos, alegando que o Hamas é uma “entidade terrorista”.

No programa do Hamas, “a resistência em todas as suas formas é um direito legítimo”. O movimento nega-se a abandonar a luta armada e reconhecer Israel. Não fez acordo com os partidos da OLP porque não aceita os acordos assinados por Israel. Para os lideres do Hamas, isto equivaleria a reconhecer Israel e a ocupação dos territórios palestinos.

Entre os ministros descritos como mais moderados, está Nasser Edin Chaer, professor de estudos islâmicos educado em Londres. Será vice-primeiro-ministro para a Cisjordânia e ministro da Educação. Acaba de passar cinco meses numa prisão israelense. Cerca de mil ativistas foram detidos antes das eleições palestinas.

O ministro do Interior, encarregado de comandar uma força policial de 70 mil homens, vários deles do Fatah e de outras facções palestinas, será Said Siam, um dos lideres fundamentalistas mais moderados de Gaza.

Omar Abdel Razek, professor da Universidade de An Najah, na Cisjordânia, ocupará o cargo vital de ministro da Fazenda. Ele saiu de uma prisão israelense há seis dias.

Para ministro do Exterior, Haniya indicou Mahmoud Zahar, dirigente mais radical e agressivo. Mas Abbas pode entender que a política externa é uma prerrogativa do presidente. Como principal responsável pelas negociações com Israel, pode negociar um nome mais moderado.

Dos 24 ministros, 10 moram na Faixa de Gaza, entre eles uma mulher, a ministra dos Assuntos da Mulher, e um cristão. Os outros 14 vivem na Cisjordânia, o que vai exigir que o governo se reúna por teleconferência.

Guerra do Iraque completa três sem expectativa de paz

Três anos depois da invasão americana, o Iraque está à beira da guerra civil. Mais de 2.315 mil soldados dos Estados Unidos, 102 britânicos e 38 mil civis iraquianos foram mortos. A cada dia, há cerca de 30 ataques rebeldes e 50 a 60 mortes violentas. O Iraque tornou-se o principal centro do terrorismo suicida no mundo inteiro. A rede terrorista Al Caeda, ausente durante a ditadura de Saddam Hussein (1979-2003), infiltrou-se no país para travar sua guerra contra os EUA. O custo da guerra passa de US$ 250 bilhões e pode chegar a US$ 2 trilhões, dependendo do número de anos.

Neste “infeliz aniversário”, como disse The Wall Street Journal, cerca de 60% dos americanos acham que a guerra não faz sentido. A popularidade do presidente George Walker Bush cai a seus níveis mais baixos.

Saddam Hussein caiu. Os iraquianos elegeram uma Assembléia Constituinte. Têm uma nova Constituição. Em 15 de dezembro, escolheram os deputados do primeiro parlamento democrático do país. Mas até hoje xiitas, sunitas e curdos não chegaram a um consenso para formar um governo de união nacional, visto como melhor alternativa para buscar a paz e especialmente evitar uma guerra civil. A tensão aumentou muito desde o ataque contra a Mesquita Dourada de Samarra, um santuário xiita, em 22 de fevereiro.

Leia mais na minha coluna de política internacional em www.baguete.com.br

segunda-feira, 20 de março de 2006

Último ditador da Europa vence eleição na Bielorrússia mas oposição protesta

Mais de 10 mil pessoas saíram ontem às ruas de Minsk, capital da Bielorrússia, para denunciar fraude na eleição presidencial e pedir a realização de nova eleição. O presidente Alexander Lukachenko foi declarado vencedor com 82,3% contra 6% do candidato da oposição, Alexander Milinkevitch, um resultado que lembra as eleições da era soviética.

Será o terceiro mandato consecutivo de Lukachenko, que chegou ao poder em 1994 nesta país de 10 milhões de habitantes. Desde então, governa com mão de ferro, no estilo stalinista, reprimindo a imprensa e a oposição, espionando a vida dos cidadãos com uma polícia política que ainda tem o nome do velho KGB (Comitê de Defesa do Estado) da extinta União Soviética.

Por ironia do destino, a URSS acabou em Minsk em 8 de dezembro de 1991, quando as três repúblicas que formavam o núcleo eslavo da superpotência comunista Rússia, Ucrânia e Bielorrússia, decidiram se separar. O stalinismo renasceu lá e sobrevive lá até hoje, mesmo depois da morte do ex-ditador iugoslavo Slobodan Milosevic, que já foi apontado como o último stalinista da Europa.

Antes mesmo do anúncio oficial, os oposicionistas se reuniram na Praça Outubro, enfrentando temperaturas abaixo de zero, para denunciar fraude e os métodos autoritários dos 12 anos de governo Lukachenko.

"Conquistaremos a liberdade", bragou Milikevitch. "Nossa luta é sagrada. A liberdade vai vencer. A Bielorrússia vai vencer."

A Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) disse que as eleições não foram limpas. Os EUA declaram o resultado inválido e pediram a realização de novo pleito mas a União Européia limitou-se a protestar diplomaticamente.

sábado, 18 de março de 2006

Manifestações de mais de 500 mil aumentam pressão sobre governo conservador francês

Mais de 500 mil pessoas, 1,5 milhão segundo a Confederação Geral do Trabalho (CGT), protestaram neste sábado nas ruas de pelo menos 160 cidades francesas, na terceira jornada de manifestações contra a lei do primeiro emprego. Cresce a pressão contra o primeiro-ministro conservador Dominique de Villepin, autor da proposta que admite a demissão sem justa causa de jovens no primeiro contrato de trabalho numa tentativa de combater o desemprego.

“Se o governo não ceder diante desta manifestação, convocaremos uma greve geral e manifestações todas as terças e quintas”, desafiou o líder estudantil Philippe Jamin. Os lideres sindicais e estudantis exigem a revogação da lei. Como ela já foi aprovada pelo parlamento, seria um recuo humilhante para o governo, capaz de derrubar o primeiro-ministro, que pretende concorrer à Presidência em 2007.

Em Paris e várias outras cidades, houve violentos choques entre manifestantes e a policia, com fogo, garrafas paus e pedras, lembrando a Revolução dos Estudantes, em maio de 1968, quando foram erguidas barricadas no centro da capital francesa. Pelo menos quatro policiais e 12 manifestantes saíram feridos. Cerca de 60 pessoas foram presas.

“Joguem fora o primeiro emprego! Não joguem fora os jovens!”, gritavam os manifestantes. Os estudantes reclamam da precariedade do contrato do primeiro emprego e os sindicalistas temem que as empresas demitam trabalhadores experientes para contratar jovens sem maiores garantias trabalhistas. Na opinião da professora universitária Nabila Ramdani, “a lei prejudica direitos e a segurança no trabalho, colocando em questão a tradição francesa do emprego seguro”.

A lei foi proposta depois da onda de protestos de jovens de origem estrangeira, sobretudo magrebinos do Norte da África, em outubro e novembro do ano passado. O desemprego entre os jovens franceses é de 23%, chegando a 40% na periferia das grandes cidades.

Uma pesquisa do Journal de Dimanche indica que 61% dos franceses estão descontentes com Villepin, contra 54% em fevereiro. Os muito insatisfeitos passaram de 15% para 25%. Só 37% apóiam o primeiro-ministro e 60% estão descontentes também com o presidente Jacques Chirac.

Os analistas econômicos sabem que o problema está na dificuldade de adaptação da economia francesa diante dos desafios da globalização. “As pessoas querem mudanças mas têm medo”, comentou a pesquisadora Carine Marce.

Teocracia Americana, a ameaça do fundamentalismo cristão nos EUA

O domínio conservador sobre a Casa Branca, o Congresso e a Suprema Corte, a infiltração cada vez maior do fundamentalismo cristão na ideologia do Partido Republicano, constitutem uma grande ameaça à democracia nos Estados Unidos. Quem adverte é Kevin Phillips.

Há 37 anos, ele escreveu A Emergente Maioria Republicana, livro onde afirmava que as mudanças demográficas e econômicas no pais, com migração de pessoas e recursos do Nordeste, a velha região industrial, para o Sul e o Oeste produziria uma maioria republicana mais conservadora que dominaria a política americana durante décadas. Phillips acredita que um Partido Republicano mais forte restabeleceria a ordem numa sociedade afetada por profundas mudanças, sendo algumas violentas.

Agora, no seu 13º livro, Teocracia Americana, resenhado pelo jornal The New York Times, adverte para os riscos criados pela coalizão conservadora que ajudou a articular. Descreve um cenário de extremismo ideológico, ganância sem limites, irresponsabilidade fiscal catastrófica e uma perigosa miopia política.

Phillips aponta três fatores que alimentam sua visão apocalíptica. Nenhum começou no governo George Walker Bush. Mas as políticas do atual presidente dos EUA os exacerbaram.

O primeiro é a influência do petróleo sobre as políticas interna e externa dos EUA. Em segundo, cita a presença cada vez maior de uma ideologia cristã fundamentalista na política e no governo do pais. Em terceiro, os megadéficits que a economia americana acumula há décadas.

Ele faz parte do grupo que está convencido que a verdadeira razão da invasão do Iraque foi o petróleo. “Pense no Iraque como uma base militar com uma vasta reserva de petróleo no subsolo”, disse um analista anos atrás. O terrorismo, as armas de destruição de massa, tirania e democracia seriam apenas desculpas.

É um raciocínio simplista mas nos últimos 30 anos o petróleo foi um elemento central na definição das políticas americanas. O próprio Bush reconheceu que o pais é “viciado em petróleo”.

Este “petroimperialismo”, denuncia Phillips, “transforma as Forças Armadas dos EUA numa força global de proteção do petróleo”.

Mas é o avanço do fundamentalismo cristão que está na idéia básica do titulo: a ameaça de um governo de inspiração teocrática na primeira democracia do mundo, construída sobre o princípio da tolerância religiosa. Ele compara os cristãos radicais aos talebã do Afeganistão por quererem reverter as conquistas do movimento feminista, acabar com a separação entre a Igreja e o Estado e criar um governo baseado na doutrina cristã.

Um grande grupo de protestantes, talvez cerca de um terço da população americana, pondera Phillips, acredita na suposta profecia bíblica da volta de Jesus Cristo à Terra para levar os fiéis para o paraíso. Estes fundamentalistas vêem sinais precursores do apocalipse nas guerras do Oriente Médio, na ocupação israelense de toda a Palestina e até no terrorismo, sinal da degradação da humanidade.

O autor entende que o governo Bush decidiu se aproximar destes fundamentalistas, encorajando-os a ver as políticas do presidente como respostas aos desafios desta era. Questiona se o presidente e seus assessores realmente acreditam na ideologia cristã fundamentalista ou se apenas manipulam a religião por oportunismo político.

Por fim, há a ameaça das dívidas. A dívida pública interna passa de US$ 8 trilhões. Mas a maior preocupação de Phillips é com os US$ 30 trilhões a US$ 40 trilhões que estima serão necessários para cobrir os gastos da Previdência Social e da saúde, por causa do envelhecimento da população. Fala ainda da dívida das empresas, da emissão de bônus por governos estaduais e muncipais, do déficit comercial que exigiria que as exportações fossem 70% do PIB e da dívida doméstica dos lares americanos, onde o consumo supera a poupança.

Phillips denuncia a “financeirização” dos EUA, que teriam passado de uma sociedade industrial para uma economia baseada na movimentação e administração de dinheiro. Ele acusa o ex-presidente do Federal Reserve Board (Fed), o banco central americano, Alan Greenspan de ignorar os riscos causados pela dívida para não furar a bolha especulativa que ajudou a criar.

A rigor, não há novidade em Teocracia na América. Mas Phillips junta elementos que foram um quadro aterrador. O fundamentalismo religioso nasceu nos EUA, na década dos 70 do século 19, como reação à Teoria da Evolução das Espécies de Charles Darwin. Ao refazer a viagem de Aléxis de Tocqueville, autor de Democracia na América em 1835, o filósofo francês Bernard-Henri Lêvy ficou impressionado com a quantidade de intelectuais que defende a teoria do “design inteligente”, pela qual a vida é algo tão maravilhoso que não poderia ter surgido espontaneamente, sem a interferência de um ser superior.

O fundamentalismo cristão é o novo pesadelo americano e as mesmas igrejas evangélicas pentecostalistas que surgiram no Texas, o estado de Bush, em 1901, expandem-se rapidamente pelo mundo, inclusive no Brasil.

sexta-feira, 17 de março de 2006

Flores e Humala empatam nas pesquisas sobre eleição para Presidencia do Peru

O candidato ultranacionalista Ollanta Humala, que tentou um golpe de Estado em 2000 contra o então presidente Alberto Fujimori, está tecnicamente empatado com Lourdes Flores, do Partido Social-Cristão, de centro-direita nas pesquisas sobre a eleição para presidente do Peru, a ser realizada em 9 de abril.

Na última pesquisa, divulgada ontem, Flores caiu dois pontos percentuais, e está com 27% das intenções de voto, contra 26% de Humala, que subiu dois pontos. Outra pesquisa revelou no domingo passado que Flores tinha a preferência de 31% dos eleitores peruanos e Humala de 30%.

Em terceiro na última pesquisa, aparece o ex-presidente Alan García, da Aliança Popular Revolucionária Americana, de centro-esquerda, com 19%, quatro pontos acima do mês passado. Há 22% de indecisos.

Flores, apoiada pelo escritor e ex-candidato a presidente Mario Vargas Llosa, e Humala, apoiado pelos presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, e da Bolívia, Evo Morales, devem disputar a presidência numa votação em segundo turno.

Fatah não participa de governo do Hamas

A Fatah (Luta), partido do presidente palestino, Mahmoud Abbas, e outros grupos ligados à Organização para a Libertação da Palestina (OLP), não formarão governo com o Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), vencedor das eleições parlamentes de 25 de janeiro. Os fundamentalistas não aceitam a exigência de que o novo governo reconheça todos os acordos firmados entre a Autoridade Nacional Palestina e Israel. Alegam que isto equivaleria a reconhecer o Estado de Israel e aceitar a ocupação dos territórios palestinos.

O primeiro-ministro designado pelo Hamas, Ismail Haniya, lamentou a decisão do segundo maior partido palestino.

Sob intensa pressão internacional para se tornar um partido político normal, sem uma facção armada, o Hamas nega-se a abandonar a luta armada e a reconhecer Israel, exigindo em troca a retirada total israelense dos territórios ocupados na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Esta postura radical não abre espaço para o diálogo.

GM omite US$ 2 bilhões de prejuízo

Quando escreveu O Desafio Americano na década de 60, o francês Jean-Jacques Servan Schreiber afirmou que as três maiores potências mundiais eram os Estados Unidos, a União Soviética e a General Motors. A maior fábrica de automóveis do mundo seria mais poderosa do que todos os outros países. Agora a empresa é símbolo do declínio relativo dos EUA no setor industrial.

Hoje a GM admitiu que, “por erro contábil”, escondeu um prejuízo de US$ 2 bilhões no balanço do ano passado. A companhia perdeu US$ 10,6 bilhões em 2005 e não US$ 8,6 bilhões, como anunciara antes. Prometeu ainda revisar seus números desde 2000, quando assumiu o atual presidente da empresa, Richard Wagoner, cuja cabeça está a prêmio. Desde então, as ações da companhia caíram 60%; só hoje, caíram 5%.

Megaempresa, a GM enfrenta problemas com seu gigantismo, seus enormes custos e sua participação em queda no mercado americano, enquanto a arquirrival Toyota, do Japão, prepara-se para ser a maior fabricante de carros do mundo. Suas ações são considerados “papéis podres” pelas agências de classificação de risco mas o interesse do megainvestidor Kirk Kerkorian elevou a expectativa de que a GM ainda tenha algo a oferecer.

Kerkorian já perdeu uma fortuna com a GM. Suas ações estão em torno de US$ 21,00 mas Ronald Tadross, analista do Bank of América acredita que elas devem cair para US$ 10 porque “os gestores da empresa continuam açucarando o problema”.

A empresa está negociando com os sindicatos da Delphi, um fabricante de autopeças ligada à GM que está à beira da falência, com prejuízos estimados entre US$ 5,5 bilhões e US$ 12 bilhões, e cujos funcionários ameaçam entrar em greve. Isto poderia abalar todo o setor automotivo nos EUA, onde as duas gigantes, a GM e a Ford, lutam com dificuldade, enquanto outras empresas como a Toyota continuam operando com sucesso.

Depois do fechamento da Bolsa de Valores de Nova Iorque, a GM reuniu a diretoria e comentou-se que a empresa estaria perto de um acordo com os sindicatos e a Delphi para que dezenas de milhares de trabalhadores se aposentem ou peçam demissão voluntariamente. Esta é considerada a melhor saída para evitar um pedido de concordata.

Para quem ainda acredita em hegemonia americana, é mais um sinal de que a hegemonia econômica está em evidente declínio.

quinta-feira, 16 de março de 2006

Bush reafirma doutrina de ataques preventivos

Apesar dos problemas no Iraque, na primeira revisão de sua Estratégia de Segurança Nacional desde o início da guerra, o governo dos Estados Unidos reiterou nesta quinta-feira sua determinação de lançar ataques preventivos contra países ou grupos que considere ameaçadores. É a refirmação da chamada Doutrina Bush, lançada um ano depois dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001.

O documento de 49 páginas inova ao colocar a promoção da democracia como um elemento central da política externa dos EUA, criticando vários países, inclusive a China e a Rússia, e especialmente o Irã.

“Não enfrentamos nenhum desafio maior vindo de um pais do que do Irã”, adverte o texto, acusando-o de desenvolver armas atômicas. “O regime iraniano patrocina o terrorismo, ameaça Israel, tenta frustrar a paz no Oriente Médio e boicotar a democracia no Iraque.”

Bush insiste em que a doutrina de ataques preventivos “continua a mesma”, declarando-a necessária para um país em guerra nos “primeiros anos de uma longa luta” que comparou à Guerra Fria, a confrontação estratégica entre os EUA e a União Soviética que marcou a segunda metade do século 20. Numa mudança em relação ao unilateralismo da ESN anunciada em setembro de 2002, agora a diplomacia conta com “nossa forte preferência” para combater a ameaça representada pelas armas de destruição em massa.

O documento enfatiza que os esforços diplomáticos para impedir o Irã de fabricar armas nucleares “precisam ter sucesso para evitar uma confrontação”. Não usa a mesma linguagem em relação à Coréia do Norte, que anunciou já ter a bomba mas deixa uma advertência geral: “O mundo será melhor se os tiranos souberem que estarão em risco se quiserem armas de destruição em massa”, admitindo, em relação ao fracasso em encontrar tais armas no Iraque, que regimes brutais fazem grandes esforços para esconder suas atividades.

“Se necessário, no entanto, com base nos antigos princípios de autodefesa, não descartamos o uso da força antes que ocorram ataques, mesmo se houver incerteza quanto à hora e lugar do ataque inimigo”, ameaça Bush.

Ao divulgar o documento, o assessor de Segurança Nacional dos EUA, Stephen Hadley, reiterou que o alerta vale tanto para a Coréia do Norte quanto para o Irã.

Esta linguagem não ajuda a diplomacia no momento em que os EUA e seus aliados europeus levaram a questão do programa nuclear iraquiano ao Conselho de Segurança das Nações Unidas. Em janeiro, Bush considerou um Irã com armas nucleares “uma grave ameaça à segurança mundial”.

A doutrina de ataques preventidos provocou um grande debate. Desde seu lançamento, é vista pelos defensores do Direito Internacional como incompatível com uma ordem internacional baseada na lei. Serviria como pretexto para qualquer agressão internacional. Como não foram encontradas armas de destruição em massa no Iraque, a alegação usada para justificar a guerra, o jornal The Washington Post observou que fica abalada a premissa básica da estratégia de que informações de serviços secretos sobre a capacidade e as intenções do inimigos bastem para iniciar uma guerra preventiva.

“A prevenção é e será sempre um instrumento potencialmente útil mas não é algo que se deva exibir e jogar na cara dos outros”, disse ao Post Harlan Ullman, assessor do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, de Washington. Mas criar uma estratégia baseada na guerra preventiva é “um enorme erro”. Na sua opinião, é possível deter agressões da maioria dos paises.

DEMOCRACIA
Além do uso da força e da diplomacia, a ESN destaca a necessidade de travar uma guerra ideológica contra o fundamentalismo muçulmano.

O documento torna explícita a decisão de promover a democracia como um pilar da política externa americana, como anunciou Bush no discurso de posse de seu segundo governo, em janeiro de 2005: “É política dos EUA promover e apoiar movimentos e instituições democráticas em toda nação e cultura, com o objetivo final de acabar com a tirania em nosso mundo”, diz o preâmbulo da ESN, repetindo o discurso de posse

Pela estratégia revisada, o governo dos EUA se compromete a denunciar abusos contra os direitos humanos, realizar reuniões de alto nível na Casa Branca com reformistas de nações repressivas, usar a ajuda externa para apoiar eleições e a sociedade civil, e aplicar sanções contra governos opressores. Há menções especiais à intolerância religiosa, à submissão da mulher e o tráfico de seres humanos. Mas é claro que esta política é limitada, na medida em que ditadores aliados dos EUA recebem tratamento diferenciado

Em outro trecho, citando a vitória do Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) nas eleições palestinas de 25 de janeiro, acrescenta que “eleições não bastam”, sendo importante respeitar os direitos fundamentais, construir instituições democráticas e espalhar seus benefícios à toda a população.

Sete países são apontados como exemplos de “sistemas despóticos”: Coréia do Norte, Irã, Síria, Cuba, Bielorrússia, Mianmar e Zimbábue.

A Coréia do Norte é acusada de “duplicidade e má fé nas negociações sobre seu programa nuclear”, de falsificar dólares, traficar drogas e causar a fome de seu próprio povo.

Numa visão mais cética em relação à Rússia, critica o governo Vladimir Putin de “reduzir o compromisso com as liberdades e instituições democráticas”, prometendo “trabalhar para tentar persuadir o governo russo e ir para a frente e não para trás no caminho da liberdade”.

Também adverte a China de que “deve agir como um participante responsável” da comunidade internacional, evitando “velhos métodos de pensar e agir” na competição por recursos energéticos.

Em outro sinal de recuo do unilateralismo, o documento constata que “os novos fluxos de comércio, investimento, informação e tecnologia” estão transformando os desafios para a segurança nacional em todas as áreas, da epidemia de aids à ameaça da gripe das aves à destruição do meio. Mas não menciona o aquecimento global.

Para mostrar que a conversão de Bush ao multilateralismo é apenas parcial, assinala que às vezes “coalizões de voluntários” são mais eficazes para resolver problemas do que instituições internacionais como a ONU e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

Mais de 250 mil protestam contra lei do primeiro emprego na França

Cresce a onda de manifestações convocadas por sindicatos e pelo movimento estudantil contra a nova lei do primeiro emprego aprovada na França, que permite demissão sem justa causa nos dois primeiros anos de contrato de trabalho. Mais de 250 mil pessoas, 500 mil segundo os organizadores, em sua maioria estudantes, marcharam hoje nas ruas de 80 cidades francesas e entraram em choque com a polícia em várias. Segundo a União Nacional dos Estudantes da França, 64 das 84 universidades do país estão em greve. A mobilização deve ser ainda maior no sábado, quando trabalhadores que não puderam participar hoje estarão de folga.

O objetivo do governo conservador é diminuir o desemprego entre jovens, que é de 23%, chegando a 40% entre minorias étnicas, bem acima da média nacional, de 9,7%. Mas estudantes e sindicalistas alegam que ela será usada para substituir assalariados com maior estabilidade por jovens com contratos precários. De acordo com pesquisa divulgada pelo jornal Le Parisien, 68% dos franceses são favoráveis à revogação da lei

O primeiro-ministro Dominique de Villepin apresentou o projeto como resposta aos distúrbios de outubro e novembro, quando jovens de origem estrangeira da periferia incendiaram milhares de automóveis em protesto contra a violência e a arbitrariedade da polícia. Villepin disse estar “aberto ao diálogo, no marco da lei, para melhor o contrato do primeiro emprego”.

Em Paris, houve um confronto violento com a polícia que lembrou a Revolução dos Estudantes de maio de 1968. Cerca de 100 jovens de bicicleta tentaram bloquear ruas ao redor do Museu do Louvre para reclamar contra a redução do número de professores de educação física.

Também houve manifestações importantes em Marselha, Grenoble, Rennes, Toulouse e Bordeaux. A Universidade de Toulouse foi fechada depois de conflito entre estudantes que queriam fechá-la e os que pretendiam mantê-la aberta. Em Rennes, cerca de 100 estudantes ocuparam a Prefeitura Municipal. A Universidade de Rennes está fechada há seis semanas por causa dos protestos.

O presidente Jacques Chirac fez um apelo ao diálogo entre ministros, sindicalistas e estudantes. A oposição socialista prometeu apresentar um projeto alternativo.

Como a lei do primeiro emprego já foi aprovada pela Assembléia Nacional, revogá-la agora seria uma tremenda derrota política para o governo e para as ambições presidenciais do primeiro-ministro nas eleições de 2007. “Villepin, você está queimado. Os estudantes estão nas ruas”, gritavam os manifestantes.

Apesar do baixo crescimento econômico, 39 empresas francesas que compõem o índice CAC40, da Bolsa de Paris, apresentaram lucros recordes de 84 bilhões de euros em 2005, um aumento de 30% em relação a 2004.

BBVA prevê crédito mais barato na América Latina

Depois de um longo período de desaceleração e até de estancamento, a oferta de crédito na América registra forte aceleração desde 2004, aproximando-se dos níveis do final dos anos 90, afirma um relatório do banco espanhol BBVA. Em termos reais, cresceu 27% até março de 2005 em relação ao ano anterior. Com maior estabilidade macroeconômica, inflação em queda e mais concorrência, a tendência é de redução do custo do crédito. Mas o alto grau de informalidade e a falta de garantias para os credores agem em sentido contrário.

À exceção do Chile, o mercado ainda é considerado em relação aos produtos internos brutos. Para José Luis Escrivá, chefe de pesquisas econômicas do BBVA, as sucessivas crises financeiras na região impediram a consolidação do mercado. Como ocorreu no Brasil, no Chile e no México, Escrivá acredita que sejam necessários 10 anos para recuperar os níveis de crédito anteriores à crise.

No Brasil e na Venezuela, a canalização de crédito mais barato para setores estratégicos acaba encarecendo o custo do dinheiro para outros setores, comentou Ignácio Sánchez-Asiaín, diretor do BBVA para a América do Sul.

Inflação para consumidor americano sobe apenas 0,1% em fevereiro

O índice de preços para o consumidor nos Estados Unidos registrou alta de apenas 0,1% no mês passado, depois de subir 0,7% em janeiro, num sinal de que a alta nos preços do petróleo não atingiu outros preços. A Bolsa de Valores de Nova Iorque reagiu positivamente porque isto reduz a necessidade de um aumento da taxa básica de juros, o que costuma atrair mais investimentos para a economia americana, geralmente às custas dos mercados emergentes. A inflação nos últimos 12 meses nos EUA está em 3,6%.

A construção de novas casas caiu 7,9% em fevereiro, depois de crescer 15,8% num mês de janeiro excepcionalmente quente. Mas a expectiva é que o mercado imobiliário retome sua força no primeiro semestre, em parte devido à reconstrução pós-furacões. Há uma preocupação das autoridades econômicas com a possível explosão de uma bolha especulativa no setor. Mas a inflação no preço da casa própria limita-se às grandes cidades dos EUA. Não teria maior impacto no resto do pais.

Os salários reais caíram 0,1% nos últimos 12 meses, revelou o Departamento do Trabalho. Os novos pedidos de seguro desemprego subiram em 5 mil, chegando a 309 mil na semana encerrada em 11 de março, o nível mais alto desde dezembro. São indicações de que os salários não pressionam a alta de preços.

Na minuta da última reunião do Federal Reserve Board (Fed), o banco central dos EUA, o Comitê de Mercado Aberto observou que “possíveis aumentos na utilização de recursos, bem como os elevados preços da energia, têm o potencial de alimentar a pressão inflacionária”. Agora, uma nota do economista Nariman Behravesh, da empresa Capital Insight, comenta que, “emboja não haja espaço para complacência, o Fed pode ficar tranqüilo pelo fato de que a inflação está sob controle, apesar de pressões inflacionárias modestas”.

A expectativa do mercado era de um aumento 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros na reunião do Fed de 28 deste mês, para 4,75%, e para 5% em 10 de maio. Os analistas entendem que o próximo aumento é praticamente certo mas estão divididos quanto a novas altas nos juros.

“Ainda esperamos que o Fed aumente a taxa para 5,25% até a metade do ano por causa do forte crescimento, alto nível de utilização de recursos e inflação próxima do limite máximo confortável”, declarou John Ryding, economista-chefe do banco de investimentos Bear Stearns nos EUA.

EUA fazem maior bombardeio aéreo no Iraque desde 2003

Com 50 aviões e helicópteros, 200 veículos e carros de combate e 1,5 mil soldados americanos e iraquianos, os Estados Unidos lançaram, na cidade de Samarra e arredores, uma grande ofensiva com o maior bombardeio aéreo ao Iraque desde 2003, o ano da invasão. O objetivo é atacar a insurgência. Um ataque contra a Mesquita Dourada de Samara, um dos mais sagrados santuários xiitas, atribuído pelos americanos à rede terrorista Al Caeda, em 22 de fevereiro, deflagrou uma onda de violência entre árabes sunitas e árabes xiitas que matou milhares de pessoas e ameaça provocar uma guera civil no Iraque.

A Assembléia Nacional, o parlamento iraquiano, de 275 cadeiras, tomou posse nesta quinta-feira. O diálogo político entre xiitas, sunitas e curdos é a maior esperança para conter a violência. Mas não há acordo para reconduzir ao cargo o primeiro-ministro Ibrahim al Jaafari, reindicado pela Aliança Iraque Unido, xiita, que vendeu as eleições de 15 de dezembro de 2005. Jaafari sofre forte oposição dos sunitas, que culpam o governo por massacres atribuídos a milícias xiitas.

Em Halabja, onde pelo menos 5 mil pessoas morreram num ataque com armas químicas ordenado pelo então ditador Saddam Hussein em março de 1988, uma multidão protestou junto ao monumento em homenagem às vítimas, exigindo mais ajuda governamental.

O caos no Iraque levou os EUA e o Irã a abrirem um diálogo mas só sobre a questão iraquiana, não sobre o programa nuclear iraniano, suspeito de desenvolver armas atômicas, que está sob exame do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Saddam pede união de iraquianos contra invasão americana

Em seu primeiro depoimento como testemunha no julgamento em que é acusado por 143 mortes, o ex-ditador do Iraque Saddam Hussein desafiou mais uma vez a autoridade do tribunal alegando que ainda é o presidente legítimo do Iraque. Ele apelou a sunitas e xiitas para que parecem de brigar entre si e se unam para combater as tropas dos EUA.

O juiz fechou a sessão para a imprensa durante duas horas e marcou nova audiência para 5 de abril.

quarta-feira, 15 de março de 2006

Déficit recorde dos EUA ameaça dólar

O déficit em conta corrente recorde dos Estados Unidos em 2005, de US$ 805 bilhões, 6,4% do formidável produto interno bruto americano, de mais de US$ 12 trilhões, provocou inquietações a respeito do dólar. E o novo presidente do Federal Reserve Board (Fed), o banco central americano, Ben Bernanke, advertiu que o financiamento do déficit público federal pode exigir aumento de impostos.

Há ainda um terceiro déficit da economia americana, o déficit doméstico. Os americanos gastam mais do que ganham, então há uma poupança negativa que exige financiamento. Se o dólar for abalado significativamente, a economia dos EUA pode se tornar menos atraente para os investidores.

A realidade é que “um déficit em conta corrente desta magnitude sem precedentes é insustentável e não há esperança de que possa ser removido sem dor apenas com aumento de exportações”, declarou ao jornal inglês Financial Times o economista Paul Ashworth, analista da Capital Economics.

Hoje as exportações equivalem a 10,5% do PIB dos EUA. Precisariam chegar a 70%. “Claro que isto não vai acontecer”, acrescentou Ashworth. O equilíbrio vai exigir “uma grande desvalorização do dólar e uma demanda muito menor por importados”, com impacto sobre toda a economia mundial. Nos últimos anos, o crescimento mundial tem sido sustentado pelo consumo americano e pela expansão da Ásia, sobretudo da China.

Desde o início do ano, o dólar caiu 3,5%. No ano passado, beneficiou-se das baixas taxas de juros na Europa e no Japão. Em 2006, elas estão subindo.

Nos EUA, a expectativa do mercado é que o Fed aumente a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual na reunião de 27-28 de março, a primeira presidida por Bernanke, e para 5% em 10 de maio. Os economistas do banco central americano esperam forte crescimento da economia no primeiro semestre do ano, em parte por causa da reconstrução pós-furacões e menos no segundo semestre, quando o mercado imobiliário tende a esfriar.

Barriga aumenta risco de ataque cardíado

O tamanho da cintura, especialmente seu aumento, é um indicador importante da quantidade de gordura abdominal precursora da inflamação das artérias e das doenças cardiovasculares, confirmam pesquisas relatadas na 55ª Reunião Anual do Colégio Americano de Cardiologia, realizado em Atlanta, na Geórgia.

“Para cada 14 centímetros de aumento da cintura em homens e mulheres, o risco cardiovascular aumenta de 21% a 40%”, declarou Sydney Smith Jr., presidente do Conselho de Assessores da Federação Mundial do Coração, diretor do Centro de Ciência e Medicina Cardiovascular da Universidade da Carolina do Norte e um dos responsáveis pela pesquisa.

Ele acrescentou: “Precisamos considerar o tamanho da cintura, a idade, a pressão arterial e o nível de colesterol.”

Na América Latina, 10% da população sofrem de doenças do coração, em comparação com 26% na Europa Oriental. Entre 60% e 70% das populações estudadas em diversos países tinham excesso de peso. O Canadá registrou os índices mais altos. Lá, 75% dos homens e 65% das mulheres tem excesso de peso.

Um estudo da Universidade de Groningen, na Holanda, com 7.680 pacientes apontou que “o tamanho da cintura e sua relação com a cadeira são indicadores mais precisos de problemas cardíacos”, como explicou a bióloga Anne Chris Jonkers, chefe de pesquisa do projeto.

A cintura costuma ser maior nas zonas rurais do que na cidade. Entre 45 e 60 anos aumenta a cintura das mulheres por causa da menopausa. Muitos antes, a partir dos 25 anos, o ser humano começa a perder massa muscular, que em muitos casos é substituída por gordura.

Israel ataca prisão palestina e provoca violentos protestos

O Exército de Israel atacou na terça-feira, 14 de março, uma prisão em Jericó, cidade da Cisjordânia sob o controle da Autoridade Nacional Palestina. Diversos presos foram levados pelos israelenses, entre eles um suspeito do assassinato de um ministro de Israel.

A operação militar provocou uma onda de violência contra Israel e seus aliados ocidentais. Monitores internacionais americanos e britânicos deram passagem às tropas israelenses. O presidente palestino, Mahmoud Abbas, condenou o ataque e interrompeu uma viagem à Europa para voltar para casa. Ele falaria hoje no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, na França, seguindo depois para Paris e Bruxelas, na Bélgica, onde fica a sede da União Européia (UE).

Um porta-voz do Ministério do Exterior de Israel afirmou que a operação foi necessária porque diversos presos seriam soltos pelo futuro governo palestino que está sendo articulado pelo Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), principal partido fundamentalista palestino.

Israel, os Estados Unidos e a UE consideram o Hamas um grupo terrorista. Exigem que abandone a luta armada e que reconheça o Estado de Israel. O Hamas diz que só fará isto se Israel se retirar dos territórios ocupados na Guerra dos Seis Dias, em 1967.

Entre os presos seqüestrados por Israel, está Ahmed Sadaat, líder da Frente Popular pela Libertação da Palestina, acusado da morte do ministro do Turismo israelense Rehavam Zevi há cinco anos. A FPLP prometeu retaliar. Todas as facções palestinas convocaram uma greve geral para esta quarta-feira, 15 de março.

Na reação violenta ao ataque, jovens palestinos seqüestraram pelo menos oito estrangeiros e incendiaram a sede do Conselho Britânico na cidade de Gaza.

A UE condenou as ações tanto de Israel quanto dos palestinos e ameaçou cortar a ajuda financeira aos palestinos, de cerca de US$ 340 milhões por ano, se não cessar a violência contra cidadãos e propriedades européias. Esta ajuda já estava ameaçada porque o Hamas é considerado terrorista.

O assalto à prisão de Jericó é uma amostra inquietante do que será o relacionamento de Israel com um governo liderado pelo Hamas, que obteve 74 das 132 cadeiras do Conselho Nacional Palestino. Com sua exigência de retirada total de Israel para as fronteiras anteriores à guerra de 1967, os fundamentalistas mantêm uma posição linha-dura. Não dão o passo inicial rumo ao diálogo.

Como Israel ameaçou matar os líderes do Hamas, inclusive o primeiro-ministro designado Ismail Haniya, visto como um moderado no movimento, há um endurecimento de posições dos dois lados do conflito.

A poucos dias das eleições de 28 de março, é natural que o primeiro-ministro interino Ehud Olmert queira reafirmar suas credenciais como comandante supremo diante das acusações do candidato da direita. O ex-primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, líder do partido Likud, acusa Olmert de abandonar a Cisjordânia porque o governo tem um plano para retirada unilateral até 2010, se não houver um acordo de paz com os palestinos até lá.

Com a radicalização de posições, não se deve esperar um grande avanço rumo ao dialogo depois das eleições do dia 28 de março em Israel. Pelo menos estará definido quem representa cada lado nesta guerra.