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domingo, 22 de março de 2015

Fundador de Cingapura e pai do modelo asiático morre aos 91 anos

O fundador de Cingapura e primeiro-ministro de 1959 e 1990, Lee Kuan Yew, morreu hoje aos 91 anos. Ao transformar um pequeno entreposto colonial num dos países mais ricos do mundo, ele criou o modelo sociopolítico asiático. A renda média por habitante passou de US$ 550 nos anos 1950s para US$ 80 mil por ano em 2013. Seu porto é o segundo mais movimentado do mundo.

Sob a inspiração do filósofo chinês Confúcio, o modelo asiático combina autoritarismo, disciplina e valores morais rígidos com desenvolvimento científico e tecnológico, eficiência econômica e administrativa. Há uma renúncia à liberdade individual em troca da prosperidade e da harmonia social. É antidemocrático e antiliberal politicamente, mas a favor da economia de mercado.

Um dos personagens mais importantes do extraordinário desenvolvimento da Ásia nas últimas décadas, Lee Kuan Yew era filho de uma família chinesa rica que se mudou da província de Cantão para Cingapura em 1863, quando a cidade era uma colônia e sede da maior base naval do Império Britânico no Leste da Ásia.

Lee nasceu em 1923 como súdito da coroa britânica. Seus avós perderam a fortuna durante a Grande Depressão (1929-39). O pai virou um pequeno comerciante pobre.

A primeira língua de Lee era o inglês. Só depois de entrar na política, ele aprendeu chinês, malaio e tamil. Primeiro colocado numa espécie de vestibular realizado na Malaia Britânica, ele estava pronto para fazer universidade na Inglaterra em 1939, quando estourou a Segunda Guerra Mundial. Teve de adiar seus planos.

Em 1942, o Exército Imperial do Japão tomou Cingapura. "Os três anos e meio da ocupação japonesa foram os mais importantes da minha vida", contou Lee em suas memórias. "Eles me deram lições vívidas sobre o comportamento e as sociedades humanas, suas motivações e seus impulsos... Vi todo um sistema social desabar de repente diante de um Exército de ocupação totalmente impiedoso."

Com a guerra, Lee Kuan Yew entendeu que o Império Britânico não continuaria a dominar Cingapura eternamente e sentiu necessidade de entrar na política

Depois da guerra, ele finalmente foi estudar na Grã-Bretanha. Ficou um período curto na London School of Economics e foi para Universidade de Cambridge, onde se tornou socialista, se casou com Kwa Geok Choo se formou em direito com distinção e louvor. Em 1950, tornou-se advogado.

De volta a Cingapura, entrou na política em plena descolonização do pós-guerra e, em 1954, criou o Partido de Ação Popular (PAP). Em 1955, uma nova Constituição ampliou o número de membros eleitos do Conselho Legislativo, que passaram a ser 25 de um total de 32 cadeiras.

Nas eleições, a Frente Trabalhista, dos antigos aliados de Lee, elegeu 13 deputados e o PAP só três. Entre eles, Lee Kuan Yew, vencedor num distrito habitado por chineses pobres.

Em 1956, Lee voltou a Londres com parte de uma delegação interessada em negociar a autonomia da colônia, sem sucesso. As negociações foram retomadas em 1957. No ano seguinte, houve o acordo: Cingapura passava a ser uma cidade-estado dentro da Comunidade Britânica.

Em maio de 1959, com uma plataforma anticolonialista e anticomunista que propunha reformas sociais e uma possível união com a Malásia, o partido de Lee conquistou 43 das 51 cadeiras. Ele se negou a formar o governo até a libertação de esquerdistas de seu partido presos desde 1956.

Aos 35 anos, Lee Kuan Yew foi empossado como primeiro-ministro de Cingapura em 5 de junho de 1959. Dois anos depois, a ala esquerdista saiu do partido para fundar a Frente Socialista e Lee afastou os últimos comunistas.

Um de seus sonhos era formar uma federação ligando a ilha de Cingapura à Malásia por considerar "uma Cingapura independente um absurdo político, econômico e geográfico". Em 31 de agosto de 1963, depois de um referendo realizado no ano anterior, Cingapura formou uma federação com a Malásia. Lee manteve o controle sobre o Parlamento cingapureano.

Em 1964, Lee cometeu o erro de disputar as eleições nacionais da Malásia com seu partido em que 75% eram de origem chinesa, gerando tensão e violência entre chineses e malaios. Estes suspeitavam que Lee quisesse se tornar primeiro-ministro.

Depois de uma votação de 126-0 no Parlamento da Malásia, a federação foi dissolvida. Em 9 de agosto de 1965, a República de Cingapura se tornava um país independente dentro da Comunidade Britânica sob a liderança de Lee Kuan Yew.

Como a Frente Socialista passou a boicotar as eleições a partir de 1966, o PAP elegeu todos os deputados nas eleições de 1968, 1972, 1976 e 1980, dando plenos poderes a Lee para impor seu modelo. Para um pequeno país sobre, precisava de uma economia forte, moderna e industrializada.

O governo incentivou o investimento estrangeiro e acordos entre empresas e sindicatos para garantir a paz social com base nos valores confucionistas de cooperação, disciplina, austeridade e respeito à autoridade e à família.

Lee e o primeiro-ministro ministro malasiano Mahathir Mohamed passaram a chamá-los de "valores da Ásia", apresentando-os como alternativa ao liberalismo e à permissividade do Ocidente.

Cingapura censura, usa punições físicas (um jovem americano que riscou um carro propositalmente foi condenado a chibatadas) e pune o uso de drogas pela simples presença de substâncias proibidas no sangue, sem necessidade de apreensão. É proibido mascar chiclete.

"Por que deveríamos importar este hábito ocidental nojento?", argumentava Lee Kuan Yew para defender a medida.

No fim dos anos 1980s, Cingapura tinha a segunda maior renda per capita do Leste da Ásia, atrás apenas do Japão, e se tornara o maior centro financeiro do Sudeste Asiático. Em novembro de 1990, no mesmo mês de sua admiradora Margaret Thatcher, Lee Kuan Yew renunciou à chefia do governo.

Seu sucessor, Goh Chok Tong nomeou Lee ministro sênior do governo de Cingapura, onde ele continuou a exercer atividades políticas como um grande conselheiro e uma espécie de pai da pátria, um estadista e um oráculo a ser consultado em momentos de crise.

Em 2004, Goh passou o poder para Lee Hsien Loong, filho do grande arquiteto do milagre cingaporeano, que foi "ministro mentor" do governo até novembro de 2011.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Obama anuncia hoje reforma da imigração por decreto

CAMBRIDGE-MA, EUA - Prestes a ficar em minoria nas duas casas do Congresso dos Estados Unidos nos seus dois últimos anos de governo, o presidente Barack Obama pretende exercer sua autoridade através de decretos. Hoje às 20 horas em Washington (23h em Brasília), sob protesto da oposição republicana, vai anunciar uma reforma da imigração para proteger 3 a 4 milhões de imigrantes ilegais, protegendo-os contra a deportação e oferecendo benefícios sociais.

"Durante vários anos, tentei trabalhar com o Congresso para reformar a lei de imigração e mudar um sistema que claramente não está funcionando", alegou o presidente. "Minha função é aplicar a lei. Vou usar toda a minha autoridade para tentar melhorar o sistema."

O líder republicano no Senado, Mitch McConnell, e outros deputados e senadores da oposição o acusaram de ignorar o veredito das urnas nas eleições intermediárias de 4 de novembro de 2014 e de prejudicar trabalhadores americanos que teriam seus empregos ameaçados por imigrantes ilegais.

Na verdade, os imigrantes ilegais fazem o que os americanos não querem saber. Estou há cinco dias em Cambridge, no estado de Massachusetts. Todos os motoristas de táxi que me transportaram até agora eram haitianos.

Para o Partido Republicano, as soluções são reforçar a fronteira sul para impedir a imigração ilegal, criar um programa de "trabalhadores convidados", todos com alta qualificação profissional, e examinar caso a caso a situação dos 12 milhões de imigrantes ilegais que se estima que vivam ilegalmente nos EUA.

Mesmo no Partido Democrata, há vozes discordantes porque os republicanos usarão isso contra eles nas próximas eleições. Em pesquisa divulgada pela rede de televisão americana CNN, 48% foram contra a decisão do presidente de apelar para decretos, enquanto 38% foram favoráveis.

Por outro lado, como o eleitorado branco de classe média não é mais suficiente para eleger um presidente nos EUA, os republicanos precisam do voto dos americanos de origem latino-americana. Em 2012, 73% votaram em Obama.

O presidente Ronald Reagan (1981-89) dizia que "os latinos são republicanos", por causa de seus valores sobre Deus, pátria e família, "só que ainda não descobriram". Mas a sensação da comunidade latina é que "eles não nos querem aqui".

Sem condições de aprovar leis num Congresso dominado pela oposição, Obama deve dedicar os próximos dois anos a desgastar o Partido Republicano para melhorar as chances dos democratas em 2016, quando a ex-secretária de Estado e ex-primeira-dama deve ser candidata.

Num limbo legal, estão milhões de crianças que nasceram no país e têm direito à cidadania, mas seus pais não têm. Os pais podem ser deportados, deixando-os abandonados. Com o decreto de Obama, nem os pais nascidos no exterior nem as crianças que vieram pequenas para os EUA poderão ser deportadas.