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quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Prêmio Nobel de Química 2019 vai para criadores de baterias de recarga rápida

Dois cientistas americanos e um japonês ganharam hoje o Prêmio Nobel de Química de 2019 pelo desenvolvimento de baterias de lítio, que permitem recarga rápida e revolucionaram os objetos eletrônicos portáteis. São usadas em telefones celulares, marca-passos e carros elétricos, "lançando as bases para uma sociedade sem fio, livre dos combustíveis fósseis", anunciou hoje de manhã em Estocolmo a Academia Real de Ciências da Suécia.

"As baterias de íons de lítio são um grande exemplo de como a química transforma a vida das pessoas", comentou o presidente da Sociedade Americana de Química, Bonnie Charpentier, citado pelo jornal The New York Times. "É uma maravilha ver este trabalho reconhecido pelo Prêmio Nobel."

Para a presidente do Comitê do Nobel de Química, Sara Linse, "o desenvolvimento destas baterias foi um enorme passo à frente para que possamos armazenar energia solar e do vento.

A primeira bateria foi criada em 1800 pelo italiano Alessandro Volta empilhando discos de zinco e cobre com panos embebidos com água salgada entre eles. Nos anos 1850s, surgiu uma nova geração de baterias, já recarregáveis, que seriam usadas para dar a partida em motores a diesel ou gasolina, mas eram grandes e pesadas.

Como a necessidade é a mãe da invenção, com a crise do petróleo de 1973, deflagrada pelo embargo dos países árabes à venda para países que haviam apoiado Israel na Guerra do Yom Kippur, Michael Stanley Whittingham, na época trabalhando para a companhia de petróleo Exxon, começou a desenvolver baterias de fontes de energia renováveis para mover carros elétricos.

Whittingham, um pesquisador britânico naturalizado americano, hoje professor da Universidade Binghantom, do estado de Nova York, descobriu que o bissulfito de titânio poderia ser usado no eletrodo positivo, o cátodo, aquele lado da bateria marcado com o sinal +. Para o eletrodo negativo ou ânodo, ele testou o lítio, o mais leve de todos os metais, que tem facilidade para emitir elétrons. Nascia a primeira bateria funcional de lítio.

Mas a nova bateria tinha um problema. Filamentos de lítio se formavam no ânodo e às vezes cresciam até chegar ao ânodo, provocando um curto-circuito capaz de causar uma explosão.

O pesquisador americano John Goodenough, na época pesquisador da Universidade de Oxford, hoje professor da Universidade do Texas em Austin, descobriu que o cátodo funcionaria melhor com óxido de cobalto. Aos 97 anos, é o mais velho ganhador do Prêmio Nobel.

A contribuição do terceiro ganhador, o japonês Akira Yoshino, professor da Universidade Meijo, em Nagoia, no Japão, foi substituir o lítio puro por íons de lítio, o que aumenta a segurança. Em 1985, ele criou a primeira bateria de íons de lítio comercializável para a Asahi Kaisai Corporation, que começou a vender a tecnologia em 1991, abrindo caminho para a revolução da portabilidade.

domingo, 12 de outubro de 2014

Evo Morales deve ser reeleito presidente da Bolívia

O aimará Juan Evo Morales Ayma, primeiro indígena a governar um país da América do Sul, deve ser reeleito hoje para um terceiro mandato como presidente da Bolívia. Desde que Morales chegou ao poder em 2006, a economia cresceu e as reservas em moeda forte aumentaram, enquanto a pobreza e a dívida do governo caíram. Neste ano, o crescimento deve ser superior a 5%, depois de registrar 6% em 2013.

Seu maior feito provavelmente seja a inclusão social da maioria indígena, que até a revolução de 1952 era proibida até mesmo de se dirigir à elite branca. Nesta eleição, a expectativa é que ele ganhe também nas províncias mais ricas da chamada Meia-Lua, inclusive em Santa Cruz de la Sierra, foco de grande resistência no início de seu governo.

Evo Morales disputa a terceira eleição presidencial com 59% das preferências do eleitorado, de acordo com as últimas pesquisas, e uma enorme vantagem sobre seus adversários: Samuel Doria Medina (18%), Jorge Fernando Quiroga (9%), Juan del Granado (3%) e Fernando Vargas (2%).

Sem saída para o mar desde a derrota para o Chile na Guerra do Pacífico (1879-83), a Bolívia tem regiões geográficas bem definidas. O calor e a aridez do altiplano andino dificultam a agricultura no Oeste do país. No Sudeste, o clima tropical e úmido torna as terras baixas extremamente férteis. Lá, vive a população branca de origem europeia e é gerada a metade da riqueza boliviana.

A pobreza é maior no Norte e no Oeste, onde se concentra a população indígena das etnicas aimará e quechua. O crescimento econômico e a redução da pobreza desarmaram o separatismo da chamada Meia-Lua, que reúne as províncias mais férteis e ricas em petróleo e gás natural (Tarija, Santa Cruz, Beni e Pando).

Morales, candidato do Movimento ao Socialismo (MAS), começou sua carreira política como líder dos plantadores de coca. Foi eleito presidente da Bolívia em 2005 com 54% dos votos depois de uma série de crises e quedas de presidentes, com a promessa de uma forte intervenção estatal na economia para promover a redistribuição da riqueza na linha do bolivarismo e do "socialismo do século 21" de Hugo Chávez na Venezuela.

Temendo o confisco de suas terras e bens pelo governo socialista, a elite branca boliviana de origem europeia da Meia-Lua reagiu. Em 2007 e 2008, a Bolívia esteve à beira da guerra civil.

No poder, Morales estatizou o setor de energia, a exploração de gás e petróleo e a geração de eletricidade, confiscando as propriedades de empresas estrangeiras, inclusive da Petrobrás. O governo Lula considerou aceitável o argumento de que os recursos naturais pertencem ao Estado.

Uma emenda constitucional aprovada em 2009 na Bolívia deu ao Estado a propriedade de todos os recursos naturais bolivianos. Todas as atividades mineradoras devem ter participação estatal mínima de 51%.

As relações bilaterais com o Brasil voltaram a ter problemas no governo Dilma Rousseff, quando o senador Roger Pinto Molina, processado pelo governo boliviano, pediu asilo político na Embaixada do Brasil em 28 de maio de 2012, mas não recebeu salvo-conduto do presidente Morales para sair da Bolívia.

Quinze meses depois, Pinto Molina foi retirado numa operação secreta arquitetada pelo diplomata Eduardo Saboia. Em carro da embaixada, sob escolta de fuzileiros navais brasileiros, Saboia o levou até Corumbá, no Mato Grosso do Sul, de onde policiais federais o conduziram até Brasília. O caso revoltou Morales, indignou a presidente Dilma Rousseff e provocou a queda do então ministro das Relações Exteriores, Antônio Patriota.

Sob Evo, o produto interno bruto da Bolívia mais que triplicou, de US$ 9,4 bilhões para US$ 30,2 bilhões. A pobreza caiu para 30%. Como uma administração cautelosa dos gastos do governo, a dívida pública baixou de 80% para 33% do PIB. As reservas cambiais subiram de US$ 2,6 bilhões para US$ 17,5% - a ponto de Evo ser elogiado pelo Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI), o que deixou o socialista um tanto constrangido.

Seu governo marca o mais longo período de estabilidade e prosperidade da história boliviana.

A questão é se esse modelo baseado na estatização dos recursos naturais e na distribuição da riqueza é sustentável. A economia boliviana ainda é dependente da exportação de matérias-primas. O país sofre, como o resto da América Latina, com a desaceleração na China.

Com seus preconceitos ideológicos contra a atividade privada, Morales rejeitou investidas de chineses, japoneses e sul-coreanos para desenvolver a mineração de lítio, elemento importante na produção de baterias no momento em que seu aperfeiçoamento é fundamental para viabilizar o carro elétrico e permitir que os eletroportáteis tenham mais tempo de uso antes da próxima recarga.

A Bolívia tem 23% das reservas mundiais de lítio. Também é rica em ouro, prata e zinco. Pode ser a Arábia Saudita do lítio, mas não vai chegar lá sem tecnologia e capital estrangeiros. A vitória fácil tende a diminuir o apetite por reformas. Morales sai das urnas mais convencido de que está no caminho certo.