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domingo, 20 de novembro de 2022

CoP cria fundo para reparar perdas e danos causados pelo clima

 A 27ª Conferência das Partes da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (CoP-27) terminou na madrugada deste domingo em Charm al-Cheikh, no Egito, com um acordo para criar um fundo internacional para compensar os países pobres por perdas e danos causados por fenômenos climáticos. 

Não houve grande melhora nas metas voluntárias de redução de emissões de gases de efeito estufa nem os 196 países participantes decidiram abolir o uso de combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás), os principais responsáveis pelo aquecimento global.

A promessa de uma ajuda anual de US$ 100 bilhões dos países ricos a partir de 2020 foi feita na CoP-15, em Copenhague, na Dinamarca, em 2009. Seria principalmente para financiar a transição energética para uma economia de baixo carbono. 

Pela primeira vez, será para mitigação, adaptação e reparação de perdas e danos porque é cada vez mais evidente que os fenômenos climáticos estão se tornando mais violentos. 

O aquecimento global está aí. A temperatura média subiu 1,2ºC desde o início da era industrial, em 1750. A meta de limitar este aumento a 1,5ºC, do Acordo de Paris (2015), é cada vez mais inatingível.

PERDAS E DANOS

A conferência deveria terminar na sexta-feira. As negociações se prolongaram por mais 37 horas. Seria um fracasso realizar a reunião na África e não chegar a um acordo sobre perdas e danos. O continente é responsável por menos de 4% das emissões e sofre com secas, enchentes, quebras de safra e fome causadas pelas emergências climáticas.

Os países pobres reivindicam ajuda há 30 anos, desde a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio-92), quando foi negociada a convenção quadro sobre o clima. Como vai funcionar o fundo será definido no próximo ano por uma comissão formada por 14 países do Sul e 10 do Norte e levado a aprovação na CoP-28, a ser realizada em novembro de 2023 em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.. 

Os Estados Unidos e a Europa sempre relutaram porque admitir que houve perdas e danos causados pela produção industrial e por transportes poderia levar os países pobres a processar os ricos porque sofrem mais as consequências de um problema que não causaram.

Os acordos do clima sempre falam em "responsabilidade conjunta, mas diferenciada". O maior ônus deve recair sobre quem poluiu mais. A União Europeia pretende limitar a ajuda aos países em desenvolvimento "realmente vulneráveis". Ofereceu US$ 300 milhões, muito pouco.

Os EUA querem que os grandes emergentes, como a China, a Índia e o Brasil, contribuam para o fundo e não se beneficiem dele. Vai haver resistência no Congresso, onde os republicanos recuperaram a maioria na Câmara. O senador oposicionista John Barrasso alega que o aquecimento global tem de ser enfrentado com inovação tecnológica.

A China é hoje a segunda maior economia do mundo e a maior poluidora, com 28% das emissões. A Índia é a terceira maior poluidora e a quinta maior economia do mundo. Em contraste, o Paquistão, responsável por menos de 1% das emissões, sofreu com uma enchente que alagou um terço de seu território, matou 1,7 mil pessoas e deu um prejuízo de US$ 30 bilhões.

CRISE DE ENERGIA

Sob o impacto da Guerra da Ucrânia e da crise energética causada pelo boicote à Rússia, alguns países, especialmente da Europa, adiaram os planos de transição e voltaram a usar carvão.

Enquanto a UE e mesmo grandes produtores como os EUA, o Canadá, a Noruega e a Colômbia queriam um abandono gradual do petróleo e do gás, a maioria dos países, sob a liderança da China e das monarquias petroleiras do Oriente Médio, preferiu apenas uma redução gradual, sem marcar uma data para o fim da era do petróleo.

Havia um número recorde de 636 lobistas da indústria do petróleo, mais do que o total de delegados da África. 

A presidência egípcia apresentou um texto para não desagradar aos países árabes exportadores de petróleo. A ditadura do marechal Abdel Fattah al-Sissi foi muito criticada por reprimir protestos e perseguir ativistas, inclusive ecologistas.

TEMPERATURA EM ALTA

As metas voluntárias, as contribuições determinadas nacionalmente, são insuficientes para atingir a meta ambiciosa do Acordo de Paris (1,5ºC). Poucos países, entre eles, a Índia, o México, o Vietnã e a União Europeia, melhoraram suas propostas. 

Na situação atual, a previsão é que até o fim do século a temperatura média do planeta suba 2,5ºC. "Este 1,5ºC não é algo que alguém inventou", advertiu o ministro do Clima e do Meio Ambiente da Noruega, Espen Barth Eide.

Ele alertou para a "diferença fundamental entre 1,5ºC e 2ºC", o limite máximo admitido pelo Acordo de Paris. "Países inteiros aqui presentes vão desaparecer da superfície do planeta. A maior parte do gelo do mundo vai derreter. Cidades que amamos e onde vivemos vão sumir."

AVANÇOS

Além do fundo para perdas e danos, um passo positivo foi o diálogo entre o presidente dos EUA, Joe Biden, e o ditador da China, Xi Jinping, na conferência de cúpula do Grupo dos 20 em Báli, na Indonésia, onde prometeram trabalhar juntos na questão do clima. Os dois maiores poluidores e países mais ricos do mundo precisam liderar.

A presença do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, traz o Brasil de volta ao centro das discussões sobre mudança do clima. As promessas de desmatamento zero, de uma aliança mundial para acabar com a fome e uma articulação de países com grandes florestas tropicais para obter financiamento internacional para preservação são boas propostas para o futuro governo, que já reativou o Fundo Amazônia.

Outro avanço foi a decisão de incluir o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI) entre as instituições que vão distribuir o dinheiro do fundo de combate à mudança do clima. Isso implica uma reforma destas instituições para apoiar os países mais vulneráveis, inclusive com redução de dívidas para facilitar a transição para uma economia sem combustíveis fósseis. 

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Lula promete desmatamento zero e aliança global contra fome

 Em discurso na 27ª Conferência das Partes da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, em Charm al-Cheikh, no Egito, o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, prometeu zerar o desmatamento no Brasil até 2030, cobrou medidas concretas dos países ricos, defendeu "uma nova governança global", com multilateralismo, uma ampliação do Conselho de Segurança da ONU e o fim do direito de veto das grandes potências.

Ao participar da conferência, Lula rompe o isolamento diplomático a que o governo Jair Bolsonaro relegou o Brasil e promete retomar o protagonismo do país nas negociações sobre o clima. Ele anunciou que o Brasil quer sediar a CoP-30, em 2025, na Amazônia. Bolsonaro se recusou a organizar a CoP-25, em 2019, alegando que o custo de R$ 500 milhões era muito elevado.

"Não há segurança climática para o mundo sem a Amazônia", alertou Lula.

ALIANÇA CONTRA A FOME

O presidente eleito propôs "uma aliança mundial contra a insegurança alimentar, a fome e a desigualdade com total responsabilidade climática." Agradeceu ao convite do Egito, que chamou de "berço da civilização", e observou que foi dirigido ao país porque "o mundo tem pressa de ver o Brasil participando novamente das discussões sobre o futuro do planeta."

Além de defender o multilateralismo, uma das marcas da política externa brasileira, Lula criticou o gasto de "trilhões em guerras que só trazem destruição e mortes, enquanto 900 milhões de pessoas em todo o mundo não têm o que comer." 

CRISES MUNDIAIS

Ele citou múltiplas crises internacionais, "crescentes tensões geopolíticas, a volta do risco de guerra nuclear, crise de abastecimento de alimentos e energia, erosão da biodiversidade e aumento intolerável das desigualdades."

Tempos difíceis exigem liderança, acrescentou Lula, "e os acordos já finalizados têm de sair do papel", numa referência ao Acordo de Paris, de 2015, em que 194 países se comprometem a adotar metas voluntárias de redução das emissões dos gases que agravam o efeito estufa.

FINANCIAMENTO

"Para isso", cobrou Lula, "é preciso tornar disponíveis recursos para que os países em desenvolvimento, em especial os mais pobres, possam enfrentar as consequências de um problema criado em grande medida pelos países mais ricos, mas que atinge de maneira desproporcional os mais vulneráveis."

Na CoP-15, realizada em Copenhague, na Dinamarca, em 2009, os países ricos se comprometeram a dar US$ 100 bilhões por ano a partir de 2020 para financiar a transição energética para uma economia com baixo consumo de combustíveis fósseis. Não cumpriram a promessa.

AMAZÔNIA

A eleição foi importante para "conter o avanço da extrema direita autoritária e antidemocrática e do negacionismo climático no mundo". Estavam em jogo, disse Lula, "não apenas a paz e o bem-estar do povo brasileiro, mas também a sobrevivência da Amazônia e, portanto, do nosso planeta."

"O Brasil já mostrou ao mundo o caminho para derrotar o desmatamento e o aquecimento global. Entre 2004 e 2012, reduzimos a taxa de devastação da Amazônia em 83%, enquanto o PIB agropecuário cresceu 75%", destacou o presidente eleito. O crescimento real no período foi de 70,3%.

DESGOVERNO

Em seguida, descreveu o governo atual como "desastroso" no "combate ao desemprego e às desigualdades, na luta contra a pobreza e a fome, no descaso com uma pandemia que matou 700 mil brasileiros, no desrespeito aos direitos humanos, na sua política externa, que isolou o país do resto do mundo, e também na devastação ambiental."

"Quero dizer que o Brasil está de.volta" para reatar os laços com o mundo, combater a fome, cooperar com os países pobres, "estreitar as relações com nossos irmãos latino-americanos e caribenhos", para lutar por um comércio justo e a paz entre os povos, e "ajudar a construir uma ordem mundial pacífica assentada no diálogo, no multilateralismo e na multipluralidade".

UM SÓ PLANETA

Se no discurso da vitória Lula falou que não existem dois brasis, na CoP advertiu que "não existem dois planetas Terra. Somos uma única espécie", que deveria construir "um mundo mais justo e solidário".

Para assinalar a emergência da questão climática, o futuro presidente citou estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) de que o aquecimento global vai causar 250 mil mortes a mais por ano entre 2030 e 2050, com custo de 2 a 4 bilhões de dólares por ano. E lembrou que o 1% mais rico é o maior responsável pelas emissões de gases de efeito estufa.

"Por isso, a luta contra o aquecimento global é indissociável da luta contra a pobreza" e a desigualdade, continuou Lula. Em seu governo, prometeu acabar com o desmatamento e preservar todos os biomas, fortalecer os órgãos de fiscalização e punir os responsáveis por quaisquer atividades ilegais: garimpo, mineração, extração de madeira, ocupação indevida e queimadas.

Um dos objetivos é criar o Ministério dos Povos Originários para que os índios sejam os primeiros guardiães da natureza. 

RIQUEZA SUSTENTÁVEL

"Vamos provar mais uma vez que é possível gerar riqueza sem provocar mais mudança climática", "tendo a natureza como aliada estratégica". Ele agradeceu à Noruega e à Alemanha a reativação do Fundo Amazônia e disse estar aberto à cooperação internacional para proteger o meio ambiente, "sob a liderança do Brasil", sem comprometer a soberania nacional.

Também mencionou um acordo com a República Democrática do Congo e a Indonésia, os dois outros países mais florestas tropicais para criar uma aliança para buscar recursos para a preservação.

O governo Lula vai convocar uma reunião de cúpula dos países do Tratado de Cooperação Amazônica (1978), o Pacto Amazônico, que reúne todos os países da região; o Brasil tem 60% da área.

Em sua primeira apresentação perante o mundo como presidente reeleito do Brasil, Lula reafirma as credenciais de sua política externa, o multilateralismo, o não alinhamento, a busca de uma ordem mundial baseada no direito internacional, a solidariedade, a cooperação, o combate à fome e à desigualdade em escala global, e a retomada do protagonismo nas negociações ambientais.

Para recuperar a autoridade moral, o Brasil terá primeiro de pôr ordem na casa, de conter a destruição da Amazônia e fazer um combate decisivo à desigualdade estrutural.

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Conferência do Clima acontece em mundo mais conturbado

Mais de cem líderes nacionais e 197 países devem participar da 27ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (CoP-27), realizada de 6 a 18 de novembro de 2022 em Charm el-Cheikh, no Egito. 
A CoP-27 acontece sob o impacto da guerra da Rússia contra a Ucrânia, que aumentou a tensão geopolítica, tornou a segurança energética uma prioridade máxima, acima do controle das emissões de gases carbônicos, da pandemia, da inflação, do risco de recessão e de uma crise mundial de alimentos.

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