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quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Sul-coreana Han Kang ganha o Prêmio Nobel de Literatura

 A escritora sul-coreana Han Kang, de 53 anos, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura de 2024 "por sua prosa poética intensa que confronta traumas históricos e expõe a fragilidade da vida humana", revelou hoje a Academia Real da Suécia. Ela tem três livros traduzidos no Brasil, todos da editora Todavia.

"É uma grande conquista para a literatura da Coreia do Sul e uma ocasião para uma celebração nacional", festejou o presidente conservador Yoon Suk Yeol. É a segunda pessoa do país a ganhar um Prêmio Nobel, depois do presidente Kim Dae Jung, agraciado com o Nobel da Paz em 2000 por sua luta pela democracia.

Filha do romancista Han Seoung-Won, Kang nasceu em Kwangju. Quando tinha 10 anos, a família se mudou para Seul. Ela estudou literatura coreana na Universidade Yonsei e trabalhou três anos como jornalista.

A carreira literária começa com a publicação de cinco poemas, entre eles Inverno em Seul, na revista Munhak-gwa-sahoe (Literatura e Sociedade) em 1993. No ano seguinte, publicou seu primeiro romance, A Âncora Escarlate, que ganha um prêmio literário. Em 1995, lança o primeiro livro de contos, Yeosu.

Sua principal obra é A Vegetariana, publicada em 2007. O livro vira filme dois anos depois, ganha o International Booker Prize em 2016, é traduzido para português e lançado no Brasil. Conta a história surreal de uma mulher que para de comer carne depois de ter um pesadelo com um matadouro e é considerada desequilibrada pela família. Ela para de manter relações sexuais com o marido e rompe com a família quando tentam obrigá-la a comer carne.

Atos humanos, de 2021, o segundo livro de Han Kang publicado no Brasil, se baseia na história real de um massacre de estudantes que lutavam pela democracia cometido pelo Exército da Coreia do Sul em 1980 em sua terra natal, Gwangju. É um trabalho sobre a dor e a memória do trauma. No primeiro capítulo, um sobrevivente de 15 anos procura amigos entre os corpos estendidos num ginásio. No segundo capítulo, os espíritos dos mortos observam a putrefação dos corpos.

Em 2021, Han participou da Feira Literária Internacional de Paraty (FLIP).

O Livro Branco, terceiro romance da laureada publicado no Brasil, começou a ser escrito durante uma residência literária em Varsóvia, a capital da Polônia. Sai em 2016 na Coreia do Sul e aqui em 2023. Na cidade arrasada pela guerra, a personagem se move entre ruínas e prédios novos, numa reflexão sobre a violência política. O branco da neve polonesa é a cor do luto na Índia, na China, na Coreia e no Japão.

Seu livro mais recente, de 2021, traduzido para o inglês como We Do Not Part (Nós Não nos Separamos), será lançado no Brasil no próximo ano. Hoje, Han Kang é professora de economia criativa na Universidade de Seul. Além da literatura, também trabalha com artes plásticas. 

A premiação surpreendeu. A favorita era a chinesa Can Xue, filha de intelectuais presos durante a Grande Revolução Cultural Proletária (1966-76).

Han Kang recebe um prêmio de 11 milhões de coroas suecas, cerca de R$ 5,91 milhões pela cotação de hoje.

Amanhã, sai o resultado do Prêmio Nobel da Paz, o único anunciado pelo comitê norueguês do Nobel. Na segunda-feira, será conhecido o ganhador do Prêmio Nobel de Economia.

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Annie Ernaux é a primeira francesa a ganhar o Nobel de Literatura

A escritora Annie Ernaux, de 82 anos, se tornou hoje a 17ª mulher e a primeira francesa a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, anunciado em Estocolmo pela Academia Real da Suécia, “pela coragem e a acuidade clínica com que ela descobre as raízes, os estranhamentos e as restrições coletivas da memória pessoal”.

Com 20 livros publicados, Ernaux constrói sua ficção a partir da memória e da experiência pessoal. Borra a linha entre a ficção e a memória com uma prosa descrita por ela como “brutalmente direta, da classe trabalhadora e às vezes obscena”, em contraponto à “tradição francesa da sentença polida, do bom gosto na literatura.” Para ela, a linguagem é uma “faca”.

Pouco depois do anúncio, Ernaux declarou que sente “uma nova responsabilidade. Esta responsabilidade é de continuar o combate às injustiças, quaisquer que sejam, contra todas as formas de injustiças contra a mulher”.

Antes, tinha dito que “falando da minha condição como mulher, não me parece que nós, mulheres, tenhamos nos tornado iguais em liberdade, em poder.”

Ernaux foi influenciada por Simone de Beauvoir, o sociólogo Pierre Bordieau e a Revolução dos Estudantes de maio de 1968 em Paris.

Famosa há décadas na França, é comparada a autores franceses como Albert Camus, Simone de Beauvoir e Françoise Sagan, e considerada pioneira na autoficção: “Devo fazer um estudo etnológico de mim mesma”, disse no livro A VergonhaEla vem à Festa Literária Internacional de Parati (FLIP), a ser realizada de 23 a 27 de novembro.

Em Os Anos, Ernaux falou de sua juventude numa família de classe baixa na pequena cidade de Yvetot, na Normandia, na França do pós-guerra. Seu pai era violento e abusador. Aos 12 anos, ela viu o pai tentar matar a mãe, episódio mencionado em A Vergonha.

A mãe foi personagem decisiva na vida real: “Ela queria sobretudo me dar uma vida interessante, uma vida independente.” Quando percebeu que Annie ia bem na escola, fez tudo para que a filha tivesse sucesso intelectual e “notadamente para evitar que eu tivesse uma ocupação feminina”, “tinha quase um desprezo pelas mulheres que ficavam em casa.”

“Meu feminismo é por causa dela. Minha mãe não tinha medo de nada”, acrescentou. 

O Acontecimento conta a história de um aborto que fez numa clínica clandestina de uma viela em 1963, quando a interrupção da gravidez era proibida na França. 

A História de uma Garota descreve uma adolescência marcada por uma relação amorosa difícil e a bulimia. Também escreveu sobre a morte dos pais. 

Em Uma Mulher Congelada, explora seu descontentamento com o casamento e a maternidade. A consequência foi o divórcio. Ela nunca mais se casou. Preferiu a liberdade de viver sozinha.

“Em cartas que escrevi aos 16 anos, tinha uma repugnância pelo casamento. Na época, não imaginava outra maneira de estar com um homem. Cedo tive um sentimento de que o casamento não era outra coisa que quase o fim da vida”, afirmou em entrevista ao jornal Le Monde em 2016.

Perdendo-se, escrito na forma de um diário dos anos de 1988 a 1990, desbrava um caso amoroso que teve em Paris com um jovem diplomata soviético casado. “Percebi que tinha perdido uma lente de contato”, escreveu. “Encontrei-a no seu pênis.”

Annie Ernaux tem quatro livros publicados no Brasil: Os Anos, O Acontecimento, O Lugar e A Vergonha. O Jovem, que está no prelo e deve ser lançado na FLIP, revela um caso que ela teve com um homem 30 anos mais moço. Os três primeiros livros viraram filmes e podem ser vistos em streaming.

Seu método é tentar vivenciar a memória, não apenas lembrar: “Tento estar dentro… Estar lá no verdadeiro instante, sem extravasar antes ou depois. Estar na pura imanência de um momento.”

Esquerdista radical, diz que viveu a luta de classes desde o início da vida. Fez parte do Parlamento Popular, criado para apoiar a candidatura presidencial de Jean-Luc Mélenchon, que ficou em terceiro lugar no primeiro turno, em 10 de abril deste ano, com expressivos 22% dos votos.

Na entrevista ao Le Monde em 2016, Ernaux confessou: “Logo me opus à autoridade. Só pensava em desobedecer.” A rebeldia é sua marca registrada.

Amanhã, o Comitê Norueguês do Nobel anuncia o ganhador do prêmio da paz. Na segunda-feira, será vez do Nobel de Economia.

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Americana ganha Nobel de Literatura por poesia intimista e universal

 Num resultado inesperado, a escritora americana Louise Glück, de 77 anos, professora da Universidade de Yale, foi laureada com o Prêmio Nobel de Literatura de 2020 por "sua voz poética inconfundível, que com sua beleza austera torna a existência individual universal", anunciou hoje em Estocolmo a Academia Real da Suécia. É a 16ª mulher agraciada. Já havia recebido vários prêmios literários. Em 2003, foi nomeada poeta laureada dos Estados Unidos.

"Em seus poemas, o eu escuta o que resta de seus sonhos e ilusões, e ninguém pode ser mais duro do que ela para enfrentar as ilusões do eu", apresentou o presidente do comitê encarregado de atribuir o prêmio, Anders Olsson. "É cândida e intransigente, e sinaliza que esta poeta gosta de ser entendida". Ao mesmo tempo, "é cheia de humor e de uma sagacidade mordaz".

Neta de judeus que emigraram da Hungria, foi a primeira pessoa da família a nascer nos EUA, em Nova York, em 1943. Seus pais liam mitologia clássica para ela na hora de dormir. As histórias de deuses e heróis gregos a fascinam.

Glück escreveu os primeiros poemas aos cinco anos. Na adolescência, sofreu de anorexia, o que depois atribuiu à obsessão com pureza e controle. Quase morreu de fome antes de fazer psicoterapia. Publicou seu primeiro poema, Firstborn (Primogênita), em 1968. Logo, foi reconhecida como uma das poetas mais importantes da literatura americana contemporânea.

Leia mais em Quarentena News.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Polonesa e austríaco ganham prêmios Nobel de Literatura de 2018 e 2019

Depois de um escândalo sexual na Academia Real da Suécia que suspendeu a premiação no ano passado, a Fundação Alfred Nobel anunciou hoje em Estocolmo dois ganhadores do Prêmio Nobel de Literatura. 

A escritora polonesa Olga Tokarczuk foi agraciada pelo ano de 2018 por "uma imaginação narrativa que, com uma paixão enciclopédica, representa a transposição de fronteira. 

O austríaco Peter Handke levou o prêmio deste ano por "sua obra influente que explora com engenhosidade linguística a periferia e a especificidade da experiência humana."

Olga Tokarczuk nasceu em Sulechow, na Polônia, em 1962. Antes de se tornar uma escritora de renome internacional, formou-se em psicologia na Universidade de Varsóvia. Já havia recebido três prêmios literários internacionais, Nike duas vezes e Man-Booker.

Em 2014, ela publicou Os Livros de Jacó, sobre os dissidentes judeus do século 18. Em entrevista ao jornal francês Le Monde em 2010, confessou: "É duro ser polonesa, sente-se o azar o karma ruim! Por causa de Auschwitz, com certeza. Mas não somente. É uma história longa, dolorosa, um combate contínuo aos complexos de inferioridade. E, às vezes, de superioridade."

Peter Handke nasceu em Griffen, na Caríntia, uma região da Áustria, em 1942, e largou a faculdade de direito em 1965, quando seu primeiro romance, As Vespas, foi aceito por uma editora. Desde então, publicou mais de 40 contos, romances, ensaios e peças de teatro, entre eles A Angústia do Goleiro na Hora do Pênalti, tornando-se um dos maiores escritores austríacos, ao lado de Thomas Bernard e de Elfriede Jelinek.

Sua premiação provocou protestos na Bósnia-Herzegovina , no Kossovo e na Albânia por causa de sua admiração pelo falecido ditador sérvio Slobodan Milosevic e sua negação dos crimes cometidos durante as guerras que destruíram a antiga Iugoslávia no fim do século passado.

"Nos anos 1990s, Václav Havel, Susan Sontag e muitos outros sabiam que o mal na Europa precisava ser parado. O genocídio na Bósnia e no Kossovo teve um autor. Handke escolheu apoiar e defender seus autores. A decisão do Prêmio Nobel causa imenso sofrimento a inúmeras vítimas", reagiu o presidente do Kossovo, Hashim Thaçi, no Twitter.

O representante bósnio na presidência colegiada da Bósnia-Herzegovina, Sefik Dzaferovic, considerou a decisão "escandalosa e vergonhosa": "É uma vergonha que a decisão do Comitê do Prêmio Nobel ignore o fato de que Handke justificou as ações de Slobodan Milosevic e que o tenha protegido, assim como a seus executores Radovan Karadzic e Ratko Mladic, que foram condenados por graves crimes de guerra, entre eles genocídio."

"Nunca pensei que teria ânsia de vômito em razão de um Prêmio Nobel", escreveu o primeiro-ministro da Albânia, Edi Rama, na mesma rede social. "Diante da escolha vergonhosa da Academia do Nobel, a vergonha é selada como um novo valor. Não, não devemos ser insensíveis assim ao racismo e ao genocídio."

O diretor de cinema bósnio Dino Musfafic lembrou que "Handke negou o genocídio em Srebrenica e foi ao funeral de Milosevic", que morreu na prisão do tribunal de Haia antes do fim do julgamento.

Em Estocolmo, o acadêmico Anders Olsson, ex-secretário da academia, defendeu a premiação: "Este é um prêmio literário, não é um prêmio político, é sobre seus méritos literários que o prêmio lhe foi atribuído. Peter Handke é um grande escritor, com uma grande obra literária e é ela unicamente que recompensamos."

Apesar de criticar o apoio a Milosevic, o escritor bósnio Ahmed Buric declarou que "os critérios literários devem estar acima da política. Alguns de seus textos dos anos 1980s são verdadeiras obras-primas."

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Bob Dylan ganha o Prêmio Nobel de Literatura

O cantor e compositor Bob Dylan ganhou hoje o Prêmio Nobel de Literatura de 2016 "por criar novas expressão poéticas dentro da grande tradição da canção americana", anunciou hoje em Estocolmo a Academia Real da Súecia.

Dylan é a primeiro músico a ganhar o prêmio e o primeiro americano agraciado com o Nobel de Literatura desde a escritora Toni Morrison, em 1993.

"Por 54 anos, Dylan tem se reinventado", justificou a secretária da academia sueca, Sara Danils. O álbum Blonde on Blonde foi lembrado como "um extraordinário exemplo de sua forma brilhante de criar rimas e refrões, e de seu jeito brilhante de pensar".

Para explicar a concessão do prêmio a um músico, Sara lembrou os poetas gregos Homero e Safo: "Eles escreveram textos poéticos para serem apresentados em públicos. Até hoje, lemos Homero e Safo - e gostamos."

Judeu americano, Robert Allen Zimmerman nasceu em 24 de maio de 1941 em Duluth, no estado de Minnesota. Sob influência do poeta galês Dylan Thomas, ele adotou o nome artístico de Bob Dylan. Começou sua carreira musical na tradição da música popular do interior dos Estados Unidos sob a inspiração de músicos como Woody Guthrie, que cantou a miséria do país durante a Grande Depressão (1929-39).

Ao longo da carreira, Dylan lançou 37 álbuns gravados em estúdios, 11 álbuns gravados ao vivo, 58 compactos simples e mais 12 álbuns das bootleg series, com gravações não aproveitadas em outros discos.

Quando lançou o LP The Times They Are a-Changing, em 1964, teve uma das músicas entre as dez mais vendidas nas paradas de sucesso. As outras nove eram da banda inglesa The Beatles. O que eles têm que eu não tenho?", perguntou-se Dylan. Guitarras elétricas.

Apesar do protesto dos tradicionalistas da música folclórica do interior dos EUA, Dylan eletrificou sua música, formou uma parceria com o conjunto The Band e se tornou o maior nome da música popular americana nas últimas décadas e o maior da história para seus fãs.

Dylan esteve várias vezes no Brasil. Em 1998, participou de um show dos Rolling Stones no Sambódromo, no Rio de Janeiro. Juntos, eles fizeram uma interpretação antológica de Like a rolling stone, talvez o maior sucesso do poeta e compositor homenageado hoje.