Esta reportagem foi publicada no Correio do Povo, de Porto Alegre, em 19 de novembro de 1978, depois da primeira visita a Fortaleza. Republico na minha volta ao Ceará:
FORTALEZA - Lindas mulheres dourando seus corpos ao sol escaldante à beira de verdes mares. Velas fazendo-se ao mar de madrugada para voltar à tarde carregadas de peixes. Pessoas se embalando preguiçosamente à sombra dos coqueirais. Uma noite enfeitada por um luar de prata que se prolonga até o raiar do dia nos movimentados bares e restaurantes da beira-mar.
Você está no Ceará, terra de José de Alencar, da lagosta e de muitas lendas, de Iracema ao Padre Cícero. Lá o aguardam um sol que brilha o ano todo, ar despoluído, hotéis de boa qualidade (mas caros), uma culinária variada da carne-de-sol à lagosta ao Thermidor, um povo aberto e comunicativo.
Uma das cidades que mais cresceu no Brasil nas últimas décadas, enfrenta graves problemas de violência, saneamento, habitações, comunicações, trânsito e transportes públicos, que preocupam as autoridades, interessadas em fazer do turismo uma importante fonte de renda.
Fortaleza é uma cidade onde há o que fazer de dia e à noite. O calor equatorial permite que se vá à praia quase todo dia. Depois que cai o sol, uma brisa fresca retempera o ambiente.
Orgulhoso, o cearense diz que qualquer época do ano é boa para visitar Fortaleza - mas de julho a janeiro quase não chove, as praias enchem de dia e os bares vão pela madrugada. No interior, há as vaquejadas municipais, "pegas de boi" e nos fins de semana os forrós. O Ceará é animado.
Nesta época do ano, o céu está sempre azul e o mar sempre verde, convidando a um mergulho ou a que apenas se olhe para ele debaixo de uma tenda à beira-mar coberta com palha de coqueiro enquanto se toma cerveja ou água de coco e engana o estômago com camarões, patinhas de caranguejo e agulhas fritas.
Os aterros que foram feitos, para melhor ou para pior, numa cidade construída sem planejamento que cresce em ritmo de embolada, condenaram a praia de Iracema ao ostracismo nas narrativas dos poetas, em prateleiras empoeiradas ou em rodas de som nos botecos.
A praia do Mucuripe também não resistiu ao progresso. Sua forma é bonita. Há muitos coqueiros plantados na areia branca, bares e restaurante no outro lado da Avenida Presidente Kennedy. Mas o movimento do porto e a falta de saneamento básico (entenda-se rede de esgotos) a comprometem. Resta sentar num dos bares à tarde e observar o "arrastão" das jangadas. Ou ver os pescadores partindo às cinco da madrugada. O mar está sujo.
Os jovens preferem a praia do Futuro, principalmente a parte fronteiriça à Praça 31 de março - o ponto da moda. Durante o período escolar, é ali que os namorados marcam encontro no sábado. Também é ali que desfilam as cearenses mais bonitas. Barraquinha vendem bebidas e tira-gostos.
Mas os jornais de Fortaleza não se cansam de registrar protestos contra aqueles que praticam esportes fora dos locais determinados, desrespeitando adultos e ameaçando crianças. Isso provoca discussões e bolas furadas.
TIRA-GOSTO
Quando a barriga roncar e não se satisfizer mais com frugais tira-gostos, uma boa pedida é comer nos simpáticos restaurantes à beira-mar. Fique de olho nos preços.
Durante uma refeição à beira-mar, vão desfilar à sua frente pequenos artesãos oferecendo suas mercadorias: entalhes, rendas, bordados, quadros ou simplesmente colares de conchas. Os preços são razoáveis, melhores em geral do que em Salvador e no Recife. Quanto à qualidade, o gosto de cada um que julgue.
Fortaleza também é conhecida como a "cidade dos clubes", vários deles situados à beira-mar com restaurantes abertos ao público.
PASSEIOS
Uma boa volta pela cidade inclui o Mausoléu do Presidente Castelo Branco, o Palácio da Abolição, o Museu Histórico e Antropológico do Ceará, o Teatro José de Alencar, as praias, os novos bairros residenciais, o centro e a barra do Rio Ceará, onde começa o retorno.
O mausoléu e o palácio, sede do governo estadual, são construídos em estilo arquitetônico moderno, concebidos pelo arquiteto Sérgio Bernardes. No primeiro, além do túmulo do presidente, estão expostas cartas, fotos, documentos, medalhas e placas com os pensamentos do marechal Castelo Branco.
Do palácio, se conhece apenas o aspecto externo, onde estátuas de Zenon Barreto representam as figuras características do Ceará: o cafuné, a mulher carregando a moringa, a mulher pulando para fazer passoca, o jangadeiro, a mulher rendeira. Árvores da terra como o acácia imperial, o peão roxo e o cacto nordestino dão o acabamento paisagístico.
O Museu Histórico e Antropológico, na Avenida Barão de Studart, mostra peças e pertences das mais variadas personalidades cearenses, do presidente Castelo Branco ao Padre Cícero, de Chico Anysio a Dom Hélder Câmara.
Ali estão expostas armas usadas nas mais diferentes revoltas, das quais participaram "coronéis" até hoje muito influentes, a ponto do historiador Clóvis Silva, funcionário do museu, prevenir-se contra microfones antes de abrir a boca.
MERCADO
Depois de uma parada para um sorvete de caju, goiaba ou graviola, o passeio segue pelas praias até a Praia do Futuro. Então, por entre morros em cima dos quais se erguem luxuosas mansões, tomam-se as avenidas que levam ao centro.
No burburinho do Mercado Central, o turista encontra os diversos objetos a que a criatividade popular deu forma: vestidos rendados ou bordados, sacolas e cestas de palha, estatuetas de barro do Padim Ciço, redes para se embalar. Nas proximidades, fica o imponente Teatro José de Alencar, um dos passeios obrigatórios da cidade.
Em estilo art nouveau, foi inaugurado em 1910. Suas frisas, escadarias, camarotes e balcão nobre são de ferro fundido. Na plateia, há uma impressionante estrutura metálica importada da Escócia. À saída do teatro, todos os caminhos levam à Praça do Ferreira, onde as antigas construções revelam uma Fortaleza histórica - diferente da Fortaleza das praias, dos jangadeiros, das rendeiras e dos coqueirais.
GUARANI
Depois de uma rápida passada pelo forte que deu nome à cidade, quando o sol estiver caindo, se o passeio for à tarde, você avistará a barra do rio Ceará, onde estarão fundeados pequenos barcos. A uns 10 quilômetros do centro urbano, ela conta a história dos primeiros colonizadores nas ruínas quase encobertas do primeiro fortim, construído por Pero Coelho de Souza.
Durante a travessia, os barcos contam que por ali José de Alencar passou e se inspirou para escrever O Guarani.
Este é o blog do jornalista Nelson Franco Jobim, Mestre em Relações Internacionais pela London School of Economics, ex-correspondente do Jornal do Brasil em Londres, ex-editor internacional do Jornal da Globo, do Jornal Nacional e da TV Brasil, ex-professor de jornalismo e de relações internacionais na UniverCidade, no Rio de Janeiro. Todos os comentários, críticas e sugestões são bem-vindos, mas não serão publicadas mensagens discriminatórias, racistas, sexistas ou com ofensas pessoais.
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quinta-feira, 9 de julho de 2015
Guerreiro fundou a capital do Ceará
FORTALEZA - Três teses sobre o início da povoação do Ceará são discutidas há muito tempo e os historiadores ainda não chegaram a uma conclusão defnitiva. Alguns afirmam que o fundador de Fortaleza foi Martim Soares Moreno, outros dizem que foi Matias Beck e uns homenageiam Álvares de Azevedo Barreto.
O primeiro a efetivamente estabelecer um povoado às margens do Rio Ceará foi Martim Soares Moreno, o guerreiro branco da Iracema de José de Alencar. Sobrinho do sargento-mor Diogo de Campos Moreno, desde muito pequeno havia sido mandado para a região com Pero Coelho de Souza, que lá chegou em 1603, a fim de aprender a língua dos índios e seus costumes.
FORTE
Mais tarde, por ordem do governador-geral da colônia, Diogo de Campos Moreno percorreu todo o litoral reunindo os mapas que fez num livro terminado em 1612 em que observava a necessidade de serem criadas três capitanias: uma entre os rios Grande e Ceará, a segunda em Camocim e a última no Maranhão.
Na foz do Ceará, deixou seu sobrinho Martim Soares Moreno. Este, na companhia de potiguares do Rio Grande do Norte, nu e tatuado como eles, apresou um navio francês no Mucuripe (atual porto de Fortaleza) e compreendeu que era indispensável fortificar o local.
O governador mandou-lhe então uma escolta de 10 homens e um sacerdote. Juntos, fizeram o reduto e uma ermida a Nossa Senhora do Amparo, na foz do Ceará. Surgiu assim Fortaleza, princípio deste Ceará, que por muito tempo se limitou ao quartel à beira-mar, o Fortim de São Tiago da Nova Lisboa, depois rebatizado para Forte de São Sebastião - de acordo com a História do Brasil de Pedro Calmon.
HOLANDESES
Anos mais tarde, em 1637, houve a primeira invasão holandesa, que durou até 1644. Durante este período, em 1643, o Forte de São Sebastião foi destruído pelos índios. Depois disso, há um hiato na povoação que reforça a posição dos que acreditam que o holandês Matias Beck tenha sido o verdadeiro fundador da capital cearense.
Em 1649, as forças da Holanda comandadas por Beck retomaram a região, construindo para defendê-la o Forte de Schoonenborch, que ficava onde hoje é o centro de Fortaleza. Mas, como argumenta o historiador Clóvis Reis, do Museu Histórico e Antropológico do Estado, "Matias Beck não veio para fundar uma povoação. Veio para saquear, explorar e espoliar."
Quando os holandeses foram expulsos não só do Ceará mas de todo o Nordeste do Brasil, em 1654, Álvares de Azevedo Barreto melhorou o forte, rebatizando-o como nome de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Foi ao redor dele que teve início a povoação definitiva do lugar.
Em 1807, o forte foi reconstruído em pedra, tijolo e cal, com dois baluartes fronteiros ao mar - onde resiste até hoje, reformado, agora como quartel da região militar. Desde aquela época, a cidade é conhecida como Fortaleza.
JARDINS
Elevada à categoria de vila em 1689, Fortaleza foi escolhida capital da capitania do Ceará em 1799, mas só pôde se desenvolver depois da abertura dos portos brasileiros às nações amigas por Dom João VI, em 1808, quando a corte portuguesa fugiu do imperador francês Napoleão Bonaparte e se instalou no Brasil.
Depois da independência, em 1823, Fortaleza passou a ser cidade e capital da província do Ceará.
Economicamente, começou a ganhar importância como porto de exportação de algodão. Devido à proximidade com a Europa, diversas casas de comércio estrangeiras abriram filias na capital do Ceará.
Em 1848, suas ruas foram iluminadas a azeite de peixe. Em 1855, começou a pavimentação das ruas para em 1880 chegarem a iluminação a gás e os bondes puxados a burro. Nas décadas de 1920 e 1930, a cidade foi reurbanizada com a construção de jardins e novos bairros residenciais.
Hoje, com 2,5 milhões de habitantes, é a quinta maior cidade do Brasil, de acordo com estimativa do IBGE de 2014.
O primeiro a efetivamente estabelecer um povoado às margens do Rio Ceará foi Martim Soares Moreno, o guerreiro branco da Iracema de José de Alencar. Sobrinho do sargento-mor Diogo de Campos Moreno, desde muito pequeno havia sido mandado para a região com Pero Coelho de Souza, que lá chegou em 1603, a fim de aprender a língua dos índios e seus costumes.
FORTE
Mais tarde, por ordem do governador-geral da colônia, Diogo de Campos Moreno percorreu todo o litoral reunindo os mapas que fez num livro terminado em 1612 em que observava a necessidade de serem criadas três capitanias: uma entre os rios Grande e Ceará, a segunda em Camocim e a última no Maranhão.
Na foz do Ceará, deixou seu sobrinho Martim Soares Moreno. Este, na companhia de potiguares do Rio Grande do Norte, nu e tatuado como eles, apresou um navio francês no Mucuripe (atual porto de Fortaleza) e compreendeu que era indispensável fortificar o local.
O governador mandou-lhe então uma escolta de 10 homens e um sacerdote. Juntos, fizeram o reduto e uma ermida a Nossa Senhora do Amparo, na foz do Ceará. Surgiu assim Fortaleza, princípio deste Ceará, que por muito tempo se limitou ao quartel à beira-mar, o Fortim de São Tiago da Nova Lisboa, depois rebatizado para Forte de São Sebastião - de acordo com a História do Brasil de Pedro Calmon.
HOLANDESES
Anos mais tarde, em 1637, houve a primeira invasão holandesa, que durou até 1644. Durante este período, em 1643, o Forte de São Sebastião foi destruído pelos índios. Depois disso, há um hiato na povoação que reforça a posição dos que acreditam que o holandês Matias Beck tenha sido o verdadeiro fundador da capital cearense.
Em 1649, as forças da Holanda comandadas por Beck retomaram a região, construindo para defendê-la o Forte de Schoonenborch, que ficava onde hoje é o centro de Fortaleza. Mas, como argumenta o historiador Clóvis Reis, do Museu Histórico e Antropológico do Estado, "Matias Beck não veio para fundar uma povoação. Veio para saquear, explorar e espoliar."
Quando os holandeses foram expulsos não só do Ceará mas de todo o Nordeste do Brasil, em 1654, Álvares de Azevedo Barreto melhorou o forte, rebatizando-o como nome de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Foi ao redor dele que teve início a povoação definitiva do lugar.
Em 1807, o forte foi reconstruído em pedra, tijolo e cal, com dois baluartes fronteiros ao mar - onde resiste até hoje, reformado, agora como quartel da região militar. Desde aquela época, a cidade é conhecida como Fortaleza.
JARDINS
Elevada à categoria de vila em 1689, Fortaleza foi escolhida capital da capitania do Ceará em 1799, mas só pôde se desenvolver depois da abertura dos portos brasileiros às nações amigas por Dom João VI, em 1808, quando a corte portuguesa fugiu do imperador francês Napoleão Bonaparte e se instalou no Brasil.
Depois da independência, em 1823, Fortaleza passou a ser cidade e capital da província do Ceará.
Economicamente, começou a ganhar importância como porto de exportação de algodão. Devido à proximidade com a Europa, diversas casas de comércio estrangeiras abriram filias na capital do Ceará.
Em 1848, suas ruas foram iluminadas a azeite de peixe. Em 1855, começou a pavimentação das ruas para em 1880 chegarem a iluminação a gás e os bondes puxados a burro. Nas décadas de 1920 e 1930, a cidade foi reurbanizada com a construção de jardins e novos bairros residenciais.
Hoje, com 2,5 milhões de habitantes, é a quinta maior cidade do Brasil, de acordo com estimativa do IBGE de 2014.
Jangadeiros do Mucuripe lutam pela vida
Esta reportagem, feita na primeira viagem ao Ceará, foi publicada no Correio do Povo, de Porto Alegre, em 26 de novembro de 1978. De volta a Fortaleza, relembro as primeiras impressões:
"As velas do Mucuripe
vão sair para pescar
eu vou levar minhas mágoas
p'ras águas fundas do mar.
FORTALEZA - Entre uma e cinco da manhã, dependendo do vento, o homem solta as cordas do tauaçu, amarra bem o samburá à jangada e põe a vela no mar para voltar à tarde com o peixe que lhe garantirá o pão. A muié fica na paria esperando, a tecer o seu amor com bilros, fazendo as rendas que encantarão a todos.
Esta é a imagem idealista que os poetas e prosadores românticos, como José de Alencar, "teceram" sobre os tipos humanos mais característicos do Ceará: o jangadeiro e a rendeira. Mas a fantasia não sobrevive ao sobrevive ao cotidiano. Para descobrir uma rendeira na zona urbana de Fortaleza é preciso escalar os morros do Mucuripe (morro de areia na língua dos índios) e entrar numa favela.
É dali mesmo que devem partir homens como José Armando Pacheco - 40 anos de vida e 28 de jangada -, que confessa continuar pescando porque "não tem outro jeito mesmo". De qualquer forma, comprar rendas e bordados e assistir à chegada das jangadas são maneira de conhecer a cultura cearense que o turista não dispensa.
As jangadas já perderam muito da primitiva pureza, assim como perderam importância com a pesca industrial. Suas velas estampam anúncios comerciais desde que foram instituídas as corridas de jangadas. Há patrocinadores por trás disso. E os homens que as manobram enfrentando os perigos do mar dividem metade dos prêmios - o resto fica com os proprietários. O mesmo ocorre com a pesca diária.
Pacheco, que diz ter 40 anos mas aparenta no mínimo uns 10 a mais, explica esta relação de produção:
- Hoje vendemos Cr$ 800,00. Entre quatro, dá Cr$ 100,00 para cada um.
- Mas como? 800 divididos por quatro dá 100?
- Não. É que o patrão ganha sempre a metade. Se a gente não traz nenhum peixe, não ganha nada. Em dia que morre muito, o preço baixa. Se morre pouco, sobe. Agora, se o pescador quiser de volta um peixe que ele mesmo pegou, vai pagar no mínimo o dobro. Do contrário, não come.
ARRASTÃO
São cerca de duas horas de uma tarde de pleno sol e a praia do Mucuripe está coalhada de gente esperando os jangadeiros. Uns ajudam no "arrastão", outros fazem a seleção e a partilha dos peixes capturados, alguns apenas observam.
A cada samburá emborcado, os olhos e as mãos dos comerciantes se avivam em busca dos peixes mais valiosos. A poucos metros da praia, em pequenas embarcações, pescadores jogam suas tarrafas.
Os peixes variam com a época do ano. Em agosto, quem não vai muito longe pega cavalas e serras, além de espécies de baixo valor comercial. O dia foi bom e indiferente ao reboliço José Armando fuma um cigarro de palha, o chapéu também de palha enterrado na testa, sentado na jangada. Sua pele escura está precocemente enrugada pelo contato diário com os raios de sol em 28 anos de pesca. O olhar sofrido e vago se perde no horizonte das águas.
Com voz firme e pausada, vai contando aspectos da vida de jangadeiro no Ceará:
- A vida aqui é essa mesmo de pescá, não tem outra, não. Tirô de pescá, outro trabalho aqui não se encontra, não. Eu gosto um tanto, se tivesse outro melhor gostaria menos, mas não tem outro jeito.
Desde os 10 ou 12 anos, quando já tiver força para içar um peixe de tamanho médio e não atrapalhar, o menino começa a aprender a ganhar a vida em cima de uma jangada. Será uma vida dura, sem descanso, sem férias, sem folga semanal remunerada.
APOSENTADORIA
Aos 60 anos, o homem ainda sai para o mar porque precisa. Na verdade, já não tem mais condições físicas e muitas vezes os outros não querem levá-lo:
- Com 60 anos, o que um homem vai fazer no mar? Se é para atrapalhar os outros, que fique em terra. Mas, como a família vai passá fome e tudo, ele se obriga a ir.
Hoje a Previdência Social garante a aposentadoria para os pescadores artesanais, mas um jovem jangadeiro se intromete na conversa com o argumento de que o tempo de serviço exigido deveria ser de apenas 25 anos:
- A pesca envelhece muito a gente. O cara vai para o mar hoje e volta daqui a três, barbado, descabelado e sujo. Com 25 anos de mar, era pra se aposentar.
Lá em alto mar, o sangue dos animais feridos atrai cardumes de tubarões ferozes. Mas o jangadeiro, acostumado a lutar contra diversos problemas, não se assusta com esses companheiros indesejáveis de jornada. Manobra a cai fora:
- Quando eles estão muito chegados à navegação, a gente procura saí. Não tem medo, não.
"As velas do Mucuripe
vão sair para pescar
eu vou levar minhas mágoas
p'ras águas fundas do mar.
FORTALEZA - Entre uma e cinco da manhã, dependendo do vento, o homem solta as cordas do tauaçu, amarra bem o samburá à jangada e põe a vela no mar para voltar à tarde com o peixe que lhe garantirá o pão. A muié fica na paria esperando, a tecer o seu amor com bilros, fazendo as rendas que encantarão a todos.
Esta é a imagem idealista que os poetas e prosadores românticos, como José de Alencar, "teceram" sobre os tipos humanos mais característicos do Ceará: o jangadeiro e a rendeira. Mas a fantasia não sobrevive ao sobrevive ao cotidiano. Para descobrir uma rendeira na zona urbana de Fortaleza é preciso escalar os morros do Mucuripe (morro de areia na língua dos índios) e entrar numa favela.
É dali mesmo que devem partir homens como José Armando Pacheco - 40 anos de vida e 28 de jangada -, que confessa continuar pescando porque "não tem outro jeito mesmo". De qualquer forma, comprar rendas e bordados e assistir à chegada das jangadas são maneira de conhecer a cultura cearense que o turista não dispensa.
As jangadas já perderam muito da primitiva pureza, assim como perderam importância com a pesca industrial. Suas velas estampam anúncios comerciais desde que foram instituídas as corridas de jangadas. Há patrocinadores por trás disso. E os homens que as manobram enfrentando os perigos do mar dividem metade dos prêmios - o resto fica com os proprietários. O mesmo ocorre com a pesca diária.
Pacheco, que diz ter 40 anos mas aparenta no mínimo uns 10 a mais, explica esta relação de produção:
- Hoje vendemos Cr$ 800,00. Entre quatro, dá Cr$ 100,00 para cada um.
- Mas como? 800 divididos por quatro dá 100?
- Não. É que o patrão ganha sempre a metade. Se a gente não traz nenhum peixe, não ganha nada. Em dia que morre muito, o preço baixa. Se morre pouco, sobe. Agora, se o pescador quiser de volta um peixe que ele mesmo pegou, vai pagar no mínimo o dobro. Do contrário, não come.
ARRASTÃO
São cerca de duas horas de uma tarde de pleno sol e a praia do Mucuripe está coalhada de gente esperando os jangadeiros. Uns ajudam no "arrastão", outros fazem a seleção e a partilha dos peixes capturados, alguns apenas observam.
A cada samburá emborcado, os olhos e as mãos dos comerciantes se avivam em busca dos peixes mais valiosos. A poucos metros da praia, em pequenas embarcações, pescadores jogam suas tarrafas.
Os peixes variam com a época do ano. Em agosto, quem não vai muito longe pega cavalas e serras, além de espécies de baixo valor comercial. O dia foi bom e indiferente ao reboliço José Armando fuma um cigarro de palha, o chapéu também de palha enterrado na testa, sentado na jangada. Sua pele escura está precocemente enrugada pelo contato diário com os raios de sol em 28 anos de pesca. O olhar sofrido e vago se perde no horizonte das águas.
Com voz firme e pausada, vai contando aspectos da vida de jangadeiro no Ceará:
- A vida aqui é essa mesmo de pescá, não tem outra, não. Tirô de pescá, outro trabalho aqui não se encontra, não. Eu gosto um tanto, se tivesse outro melhor gostaria menos, mas não tem outro jeito.
Desde os 10 ou 12 anos, quando já tiver força para içar um peixe de tamanho médio e não atrapalhar, o menino começa a aprender a ganhar a vida em cima de uma jangada. Será uma vida dura, sem descanso, sem férias, sem folga semanal remunerada.
APOSENTADORIA
Aos 60 anos, o homem ainda sai para o mar porque precisa. Na verdade, já não tem mais condições físicas e muitas vezes os outros não querem levá-lo:
- Com 60 anos, o que um homem vai fazer no mar? Se é para atrapalhar os outros, que fique em terra. Mas, como a família vai passá fome e tudo, ele se obriga a ir.
Hoje a Previdência Social garante a aposentadoria para os pescadores artesanais, mas um jovem jangadeiro se intromete na conversa com o argumento de que o tempo de serviço exigido deveria ser de apenas 25 anos:
- A pesca envelhece muito a gente. O cara vai para o mar hoje e volta daqui a três, barbado, descabelado e sujo. Com 25 anos de mar, era pra se aposentar.
Lá em alto mar, o sangue dos animais feridos atrai cardumes de tubarões ferozes. Mas o jangadeiro, acostumado a lutar contra diversos problemas, não se assusta com esses companheiros indesejáveis de jornada. Manobra a cai fora:
- Quando eles estão muito chegados à navegação, a gente procura saí. Não tem medo, não.
Rendeiras do Ceará: os segredos de uma arte
Esta reportagem, feita na primeira viagem ao Ceará, foi publicada no Correio do Povo, de Porto Alegre, em 26 de novembro de 1978. De volta a Fortaleza, relembro as primeiras impressões:
"Olê, muié rendeira,
Olê muié rendá,
Tu me ensina a fazer renda
que eu te ensino a namorá"
FORTALEZA - As rendas e bordados nascidos da criatividade cearense estão espalhadas por toda a capital do Ceará e concentradas no Mercado Popular e no centro da artesanato da Emcetur (Empresa Cearense de Turismo) - um antigo presídio -, principalmente sob a forma de roupas femininas: vestidos, saias, lenços, blusas, saídas de banho - mas também em toalhas, cortinas e redes. Talvez muitas mercadorias sejam produzidas em "fábricas de artesanato", mas fascinam o visitante que não resiste à tentação de levar alguma lembrança para casa.
BILROS
Na favela do Mucuripe, as meninas informam que a renda autêntica do Ceará é feitas nas praias de Mandaú, Trairi e Canaã - todas relativamente distantes de Fortaleza. Os motoristas de táxi convidam para um passeio a Aracati, onde fica a praia de Canoa Quebrada, mas as rendas do morro afirmam que ali a renda não presta.
Uma almofada cilíndrica ou arredondada feia com lona ou estopa, de extremidades cosidas e cheias de capim ou palha de bananeira, serve de base para os bilros. Estes são hastes finas de madeira com uma esfera de coco de buriti ou de macaúba na extremidade, onde se prende a linha. Indispensável é o papelão - um cartão picotado com o motivo da peça que se quer tecer.
Pronta a almofada, dispõe-se sobre ela um pano fino e por cima deste o papelão, preso por espinhos de cardeiro. Trocando cerca de 200 bilros com polegares e indicadores das duas mãos, dá-se início ao trabalho.
MOTIVOS
Antigamente as rendeiras guardavam os papelões com os desenhos picotados como segredos profissionais. Hoje, trocam entre si; recriam motivos. Os mais conhecidos são: jasmin, margarida, dadinho, rio de janeiro, ponta de navio, tijolinho, estrela, palha de coqueiro, amor de pobre, pé de galinha, onda de flores, pingo de ouro, amor perfeito, cinquentinha e cor-de-rosa.
Mas a vida não é nada fácil para uma rendeira num estado atrasado como o Ceará e elas são forçadas a migrar do interior em busca de uma vida melhor na capital, onde precisam trabalhar fora, dedicando-se à sua arte "por esporte" - como diz Lucineide Viana da Silva, 18 anos, aprendiz desde os nove, falando de sua mãe.
Durante o dia, a mãe sai para trabalhar e ela fica trocando 60 bilros. Ainda não aprendeu a manipular 200 bilros. Com essa técnica incipiente dá apenas para fazer palas para roupas. Lucineide não ganha nada diretamente por sua atividade. A mãe recebe Cr$ 50,00 a Cr$ 70,00 por peça.
A produção é comercializada no Mercado Central de Fortaleza, na Praça da Sé, por preços bastante superiores, "é claro", mas Lucineide não se espanta. Está acostumada desde que nasceu com esta relação de trabalho. E confessa que não dá para viver disso.
LABIRINTO
Ela veio em fevereiro para a grande cidade e está achando "legal, a vida é melhor porque tem muitas coisas, mas lá também é bom". Garante que no interior ainda tem muita gente fazendo renda. Em Fortaleza, não, as artesãs estão desaparecendo, em vez de rendas estão fazendo "labirintos", trabalho que consiste em desfiar um tecido para depois encher os espaços abertos com motivos de um desenho previamente traçado.
Para encontrar Lucineide, foi necessário enfrentar o calor do sol do início da tarde e escalar os cômoros do Mucuripe, passando por entre barracos construídos com materiais usados, onde os jegues são convocados a transportar água durante todo o dia.
Quem compra na Emcetur ou no Mercado Central não se preocupa com essas coisas. Talvez nem se questione sobre como e onde surgiu esta arte popular. Ali, as peças são produtos acabados, convites ao consumo. E não interessa, a não ser em termos de preço, de uma toalha de banquete exigiu até seis meses de trabalho dedicado e persistente.
"Olê, muié rendeira,
Olê muié rendá,
Tu me ensina a fazer renda
que eu te ensino a namorá"
FORTALEZA - As rendas e bordados nascidos da criatividade cearense estão espalhadas por toda a capital do Ceará e concentradas no Mercado Popular e no centro da artesanato da Emcetur (Empresa Cearense de Turismo) - um antigo presídio -, principalmente sob a forma de roupas femininas: vestidos, saias, lenços, blusas, saídas de banho - mas também em toalhas, cortinas e redes. Talvez muitas mercadorias sejam produzidas em "fábricas de artesanato", mas fascinam o visitante que não resiste à tentação de levar alguma lembrança para casa.
BILROS
Na favela do Mucuripe, as meninas informam que a renda autêntica do Ceará é feitas nas praias de Mandaú, Trairi e Canaã - todas relativamente distantes de Fortaleza. Os motoristas de táxi convidam para um passeio a Aracati, onde fica a praia de Canoa Quebrada, mas as rendas do morro afirmam que ali a renda não presta.
Uma almofada cilíndrica ou arredondada feia com lona ou estopa, de extremidades cosidas e cheias de capim ou palha de bananeira, serve de base para os bilros. Estes são hastes finas de madeira com uma esfera de coco de buriti ou de macaúba na extremidade, onde se prende a linha. Indispensável é o papelão - um cartão picotado com o motivo da peça que se quer tecer.
Pronta a almofada, dispõe-se sobre ela um pano fino e por cima deste o papelão, preso por espinhos de cardeiro. Trocando cerca de 200 bilros com polegares e indicadores das duas mãos, dá-se início ao trabalho.
MOTIVOS
Antigamente as rendeiras guardavam os papelões com os desenhos picotados como segredos profissionais. Hoje, trocam entre si; recriam motivos. Os mais conhecidos são: jasmin, margarida, dadinho, rio de janeiro, ponta de navio, tijolinho, estrela, palha de coqueiro, amor de pobre, pé de galinha, onda de flores, pingo de ouro, amor perfeito, cinquentinha e cor-de-rosa.
Mas a vida não é nada fácil para uma rendeira num estado atrasado como o Ceará e elas são forçadas a migrar do interior em busca de uma vida melhor na capital, onde precisam trabalhar fora, dedicando-se à sua arte "por esporte" - como diz Lucineide Viana da Silva, 18 anos, aprendiz desde os nove, falando de sua mãe.
Durante o dia, a mãe sai para trabalhar e ela fica trocando 60 bilros. Ainda não aprendeu a manipular 200 bilros. Com essa técnica incipiente dá apenas para fazer palas para roupas. Lucineide não ganha nada diretamente por sua atividade. A mãe recebe Cr$ 50,00 a Cr$ 70,00 por peça.
A produção é comercializada no Mercado Central de Fortaleza, na Praça da Sé, por preços bastante superiores, "é claro", mas Lucineide não se espanta. Está acostumada desde que nasceu com esta relação de trabalho. E confessa que não dá para viver disso.
LABIRINTO
Ela veio em fevereiro para a grande cidade e está achando "legal, a vida é melhor porque tem muitas coisas, mas lá também é bom". Garante que no interior ainda tem muita gente fazendo renda. Em Fortaleza, não, as artesãs estão desaparecendo, em vez de rendas estão fazendo "labirintos", trabalho que consiste em desfiar um tecido para depois encher os espaços abertos com motivos de um desenho previamente traçado.
Para encontrar Lucineide, foi necessário enfrentar o calor do sol do início da tarde e escalar os cômoros do Mucuripe, passando por entre barracos construídos com materiais usados, onde os jegues são convocados a transportar água durante todo o dia.
Quem compra na Emcetur ou no Mercado Central não se preocupa com essas coisas. Talvez nem se questione sobre como e onde surgiu esta arte popular. Ali, as peças são produtos acabados, convites ao consumo. E não interessa, a não ser em termos de preço, de uma toalha de banquete exigiu até seis meses de trabalho dedicado e persistente.
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