Esta reportagem, feita na primeira viagem ao Ceará, foi publicada no Correio do Povo, de Porto Alegre, em 26 de novembro de 1978. De volta a Fortaleza, relembro as primeiras impressões:
"As velas do Mucuripe
vão sair para pescar
eu vou levar minhas mágoas
p'ras águas fundas do mar.
FORTALEZA - Entre uma e cinco da manhã, dependendo do vento, o homem solta as cordas do tauaçu, amarra bem o samburá à jangada e põe a vela no mar para voltar à tarde com o peixe que lhe garantirá o pão. A muié fica na paria esperando, a tecer o seu amor com bilros, fazendo as rendas que encantarão a todos.
Esta é a imagem idealista que os poetas e prosadores românticos, como José de Alencar, "teceram" sobre os tipos humanos mais característicos do Ceará: o jangadeiro e a rendeira. Mas a fantasia não sobrevive ao sobrevive ao cotidiano. Para descobrir uma rendeira na zona urbana de Fortaleza é preciso escalar os morros do Mucuripe (morro de areia na língua dos índios) e entrar numa favela.
É dali mesmo que devem partir homens como José Armando Pacheco - 40 anos de vida e 28 de jangada -, que confessa continuar pescando porque "não tem outro jeito mesmo". De qualquer forma, comprar rendas e bordados e assistir à chegada das jangadas são maneira de conhecer a cultura cearense que o turista não dispensa.
As jangadas já perderam muito da primitiva pureza, assim como perderam importância com a pesca industrial. Suas velas estampam anúncios comerciais desde que foram instituídas as corridas de jangadas. Há patrocinadores por trás disso. E os homens que as manobram enfrentando os perigos do mar dividem metade dos prêmios - o resto fica com os proprietários. O mesmo ocorre com a pesca diária.
Pacheco, que diz ter 40 anos mas aparenta no mínimo uns 10 a mais, explica esta relação de produção:
- Hoje vendemos Cr$ 800,00. Entre quatro, dá Cr$ 100,00 para cada um.
- Mas como? 800 divididos por quatro dá 100?
- Não. É que o patrão ganha sempre a metade. Se a gente não traz nenhum peixe, não ganha nada. Em dia que morre muito, o preço baixa. Se morre pouco, sobe. Agora, se o pescador quiser de volta um peixe que ele mesmo pegou, vai pagar no mínimo o dobro. Do contrário, não come.
ARRASTÃO
São cerca de duas horas de uma tarde de pleno sol e a praia do Mucuripe está coalhada de gente esperando os jangadeiros. Uns ajudam no "arrastão", outros fazem a seleção e a partilha dos peixes capturados, alguns apenas observam.
A cada samburá emborcado, os olhos e as mãos dos comerciantes se avivam em busca dos peixes mais valiosos. A poucos metros da praia, em pequenas embarcações, pescadores jogam suas tarrafas.
Os peixes variam com a época do ano. Em agosto, quem não vai muito longe pega cavalas e serras, além de espécies de baixo valor comercial. O dia foi bom e indiferente ao reboliço José Armando fuma um cigarro de palha, o chapéu também de palha enterrado na testa, sentado na jangada. Sua pele escura está precocemente enrugada pelo contato diário com os raios de sol em 28 anos de pesca. O olhar sofrido e vago se perde no horizonte das águas.
Com voz firme e pausada, vai contando aspectos da vida de jangadeiro no Ceará:
- A vida aqui é essa mesmo de pescá, não tem outra, não. Tirô de pescá, outro trabalho aqui não se encontra, não. Eu gosto um tanto, se tivesse outro melhor gostaria menos, mas não tem outro jeito.
Desde os 10 ou 12 anos, quando já tiver força para içar um peixe de tamanho médio e não atrapalhar, o menino começa a aprender a ganhar a vida em cima de uma jangada. Será uma vida dura, sem descanso, sem férias, sem folga semanal remunerada.
APOSENTADORIA
Aos 60 anos, o homem ainda sai para o mar porque precisa. Na verdade, já não tem mais condições físicas e muitas vezes os outros não querem levá-lo:
- Com 60 anos, o que um homem vai fazer no mar? Se é para atrapalhar os outros, que fique em terra. Mas, como a família vai passá fome e tudo, ele se obriga a ir.
Hoje a Previdência Social garante a aposentadoria para os pescadores artesanais, mas um jovem jangadeiro se intromete na conversa com o argumento de que o tempo de serviço exigido deveria ser de apenas 25 anos:
- A pesca envelhece muito a gente. O cara vai para o mar hoje e volta daqui a três, barbado, descabelado e sujo. Com 25 anos de mar, era pra se aposentar.
Lá em alto mar, o sangue dos animais feridos atrai cardumes de tubarões ferozes. Mas o jangadeiro, acostumado a lutar contra diversos problemas, não se assusta com esses companheiros indesejáveis de jornada. Manobra a cai fora:
- Quando eles estão muito chegados à navegação, a gente procura saí. Não tem medo, não.
Este é o blog do jornalista Nelson Franco Jobim, Mestre em Relações Internacionais pela London School of Economics, ex-correspondente do Jornal do Brasil em Londres, ex-editor internacional do Jornal da Globo, do Jornal Nacional e da TV Brasil, ex-professor de jornalismo e de relações internacionais na UniverCidade, no Rio de Janeiro. Todos os comentários, críticas e sugestões são bem-vindos, mas não serão publicadas mensagens discriminatórias, racistas, sexistas ou com ofensas pessoais.
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quinta-feira, 9 de julho de 2015
Rendeiras do Ceará: os segredos de uma arte
Esta reportagem, feita na primeira viagem ao Ceará, foi publicada no Correio do Povo, de Porto Alegre, em 26 de novembro de 1978. De volta a Fortaleza, relembro as primeiras impressões:
"Olê, muié rendeira,
Olê muié rendá,
Tu me ensina a fazer renda
que eu te ensino a namorá"
FORTALEZA - As rendas e bordados nascidos da criatividade cearense estão espalhadas por toda a capital do Ceará e concentradas no Mercado Popular e no centro da artesanato da Emcetur (Empresa Cearense de Turismo) - um antigo presídio -, principalmente sob a forma de roupas femininas: vestidos, saias, lenços, blusas, saídas de banho - mas também em toalhas, cortinas e redes. Talvez muitas mercadorias sejam produzidas em "fábricas de artesanato", mas fascinam o visitante que não resiste à tentação de levar alguma lembrança para casa.
BILROS
Na favela do Mucuripe, as meninas informam que a renda autêntica do Ceará é feitas nas praias de Mandaú, Trairi e Canaã - todas relativamente distantes de Fortaleza. Os motoristas de táxi convidam para um passeio a Aracati, onde fica a praia de Canoa Quebrada, mas as rendas do morro afirmam que ali a renda não presta.
Uma almofada cilíndrica ou arredondada feia com lona ou estopa, de extremidades cosidas e cheias de capim ou palha de bananeira, serve de base para os bilros. Estes são hastes finas de madeira com uma esfera de coco de buriti ou de macaúba na extremidade, onde se prende a linha. Indispensável é o papelão - um cartão picotado com o motivo da peça que se quer tecer.
Pronta a almofada, dispõe-se sobre ela um pano fino e por cima deste o papelão, preso por espinhos de cardeiro. Trocando cerca de 200 bilros com polegares e indicadores das duas mãos, dá-se início ao trabalho.
MOTIVOS
Antigamente as rendeiras guardavam os papelões com os desenhos picotados como segredos profissionais. Hoje, trocam entre si; recriam motivos. Os mais conhecidos são: jasmin, margarida, dadinho, rio de janeiro, ponta de navio, tijolinho, estrela, palha de coqueiro, amor de pobre, pé de galinha, onda de flores, pingo de ouro, amor perfeito, cinquentinha e cor-de-rosa.
Mas a vida não é nada fácil para uma rendeira num estado atrasado como o Ceará e elas são forçadas a migrar do interior em busca de uma vida melhor na capital, onde precisam trabalhar fora, dedicando-se à sua arte "por esporte" - como diz Lucineide Viana da Silva, 18 anos, aprendiz desde os nove, falando de sua mãe.
Durante o dia, a mãe sai para trabalhar e ela fica trocando 60 bilros. Ainda não aprendeu a manipular 200 bilros. Com essa técnica incipiente dá apenas para fazer palas para roupas. Lucineide não ganha nada diretamente por sua atividade. A mãe recebe Cr$ 50,00 a Cr$ 70,00 por peça.
A produção é comercializada no Mercado Central de Fortaleza, na Praça da Sé, por preços bastante superiores, "é claro", mas Lucineide não se espanta. Está acostumada desde que nasceu com esta relação de trabalho. E confessa que não dá para viver disso.
LABIRINTO
Ela veio em fevereiro para a grande cidade e está achando "legal, a vida é melhor porque tem muitas coisas, mas lá também é bom". Garante que no interior ainda tem muita gente fazendo renda. Em Fortaleza, não, as artesãs estão desaparecendo, em vez de rendas estão fazendo "labirintos", trabalho que consiste em desfiar um tecido para depois encher os espaços abertos com motivos de um desenho previamente traçado.
Para encontrar Lucineide, foi necessário enfrentar o calor do sol do início da tarde e escalar os cômoros do Mucuripe, passando por entre barracos construídos com materiais usados, onde os jegues são convocados a transportar água durante todo o dia.
Quem compra na Emcetur ou no Mercado Central não se preocupa com essas coisas. Talvez nem se questione sobre como e onde surgiu esta arte popular. Ali, as peças são produtos acabados, convites ao consumo. E não interessa, a não ser em termos de preço, de uma toalha de banquete exigiu até seis meses de trabalho dedicado e persistente.
"Olê, muié rendeira,
Olê muié rendá,
Tu me ensina a fazer renda
que eu te ensino a namorá"
FORTALEZA - As rendas e bordados nascidos da criatividade cearense estão espalhadas por toda a capital do Ceará e concentradas no Mercado Popular e no centro da artesanato da Emcetur (Empresa Cearense de Turismo) - um antigo presídio -, principalmente sob a forma de roupas femininas: vestidos, saias, lenços, blusas, saídas de banho - mas também em toalhas, cortinas e redes. Talvez muitas mercadorias sejam produzidas em "fábricas de artesanato", mas fascinam o visitante que não resiste à tentação de levar alguma lembrança para casa.
BILROS
Na favela do Mucuripe, as meninas informam que a renda autêntica do Ceará é feitas nas praias de Mandaú, Trairi e Canaã - todas relativamente distantes de Fortaleza. Os motoristas de táxi convidam para um passeio a Aracati, onde fica a praia de Canoa Quebrada, mas as rendas do morro afirmam que ali a renda não presta.
Uma almofada cilíndrica ou arredondada feia com lona ou estopa, de extremidades cosidas e cheias de capim ou palha de bananeira, serve de base para os bilros. Estes são hastes finas de madeira com uma esfera de coco de buriti ou de macaúba na extremidade, onde se prende a linha. Indispensável é o papelão - um cartão picotado com o motivo da peça que se quer tecer.
Pronta a almofada, dispõe-se sobre ela um pano fino e por cima deste o papelão, preso por espinhos de cardeiro. Trocando cerca de 200 bilros com polegares e indicadores das duas mãos, dá-se início ao trabalho.
MOTIVOS
Antigamente as rendeiras guardavam os papelões com os desenhos picotados como segredos profissionais. Hoje, trocam entre si; recriam motivos. Os mais conhecidos são: jasmin, margarida, dadinho, rio de janeiro, ponta de navio, tijolinho, estrela, palha de coqueiro, amor de pobre, pé de galinha, onda de flores, pingo de ouro, amor perfeito, cinquentinha e cor-de-rosa.
Mas a vida não é nada fácil para uma rendeira num estado atrasado como o Ceará e elas são forçadas a migrar do interior em busca de uma vida melhor na capital, onde precisam trabalhar fora, dedicando-se à sua arte "por esporte" - como diz Lucineide Viana da Silva, 18 anos, aprendiz desde os nove, falando de sua mãe.
Durante o dia, a mãe sai para trabalhar e ela fica trocando 60 bilros. Ainda não aprendeu a manipular 200 bilros. Com essa técnica incipiente dá apenas para fazer palas para roupas. Lucineide não ganha nada diretamente por sua atividade. A mãe recebe Cr$ 50,00 a Cr$ 70,00 por peça.
A produção é comercializada no Mercado Central de Fortaleza, na Praça da Sé, por preços bastante superiores, "é claro", mas Lucineide não se espanta. Está acostumada desde que nasceu com esta relação de trabalho. E confessa que não dá para viver disso.
LABIRINTO
Ela veio em fevereiro para a grande cidade e está achando "legal, a vida é melhor porque tem muitas coisas, mas lá também é bom". Garante que no interior ainda tem muita gente fazendo renda. Em Fortaleza, não, as artesãs estão desaparecendo, em vez de rendas estão fazendo "labirintos", trabalho que consiste em desfiar um tecido para depois encher os espaços abertos com motivos de um desenho previamente traçado.
Para encontrar Lucineide, foi necessário enfrentar o calor do sol do início da tarde e escalar os cômoros do Mucuripe, passando por entre barracos construídos com materiais usados, onde os jegues são convocados a transportar água durante todo o dia.
Quem compra na Emcetur ou no Mercado Central não se preocupa com essas coisas. Talvez nem se questione sobre como e onde surgiu esta arte popular. Ali, as peças são produtos acabados, convites ao consumo. E não interessa, a não ser em termos de preço, de uma toalha de banquete exigiu até seis meses de trabalho dedicado e persistente.
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