Bom tático, mas mau estrategista, o presidente Vladimir Putin conseguiu pequenas vitórias como a anexação da Ucrânia. Mas qual é sua visão estratégica? Qualquer que seja, a queda do avião da Malaysia Airlines e a morte das 298 pessoas a bordo desnuda a insensatez da intervenção militar do homem-forte da Rússia no Leste da Ucrânia.
Nesta semana, dei entrevista ao programa Sem Fronteiras, da Globo News, sobre a crise ucraniana e a queda do Boeing 777 que fazia ia da capital da Holanda, Amsterdã, para a da Malásia, Kuala Lumpur.
Putin vê o fim da União Soviética, em 1991, como "a maior catástrofe geopolítica do século 20", lamenta que 25 milhões de russos vivam em outras ex-repúblicas soviéticas e considera seu dever protegê-las. Quando era vice-prefeito de São Petersburgo, numa conferência internacional, o professor Timothy Garton Ash, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, observou que sob esta lógica seu país poderia recriar o Império Britânico.
Ex-diretor do serviço secreto russo formado nas entranhas do KGB (Comitê de Defesa do Estado), a antiga polícia política soviética, Putin sonha em restaurar pelo menos parte do poder imperial soviético. A Ucrânia é uma peça fundamental desse quebra-cabeça.
No discurso de anexação da Crimeia no Parlamento da Rússia, em 17 de março de 2014, o homem-forte do Kremlin chamou a capital da Ucrânia, Kiev, de "mãe de todas as cidades russas". A Rússia nasceu em Kiev. Uma carta de Vladimir, príncipe de Kiev, de 988, adotando o cristianismo como religião oficial do principado, é considerada o primeiro documento da história da Rússia.
Por isso, o projeto de Putin é manter a influência da Rússia sobre toda a Ucrânia. Aparentemente, não lhe interessa tomar mais um naco do país, a região Leste, o vale do Rio Don, onde a maioria é étnica e linguisticamente russa, mas sim desestabilizar a Ucrânia inteira para enfraquecer o governo de Kiev. Já conseguiu.
Mas, ao intervir militarmente na Ucrânia, Putin alienou a maior parte da população ucraniana, que se voltou contra a Rússia, enquanto o governo ucraniano também faz inimigos ao bombardear seu próprio país. Como a Ucrânia vai se associar à União Eurasiana, a mini-União Soviética de Putin, depois de um conflito que a Rússia contina a fomentar, enviando armas para os rebeldes mesmo depois da queda do avião malasiano?
Se a guerra, na definição do estrategista alemão Carl von Clausewitz, é a continuação da política por outros meios, a vitória na guerra exige que o resultado final seja uma reorientação da política de acordo com as aspirações do vencedor. Neste sentido, Putin sofre uma derrota.
A crise atual começou em novembro de 2013, quando o então presidente Viktor Yanukovich rompeu, sob pressão do Kremlin, negociações para associar a Ucrânia à União Europeia. Nenhuma ex-república soviética se livrou do domínio de Moscou, com a exceção dos países bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia), que entraram para a UE e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
Na Revolução Laranja, contra uma fraude eleitoral para beneficiar Yanukovich, em 2004, a maioria dos ucranianos manifestara o interesse de se aproximar da Europa moderna, liberal e democrática, de um grupo de países que decidiram superar os nacionalismos responsáveis por duas guerras mundiais, construir uma comunidade supranacional e resolver seus conflitos pacificamente.
É com esta promessa da UE de um futuro próspero e democrático para a Ucrânia, e o exemplo da Polônia mora ao lado, que a Rússia de Putin não tem como competir.
Este é o blog do jornalista Nelson Franco Jobim, Mestre em Relações Internacionais pela London School of Economics, ex-correspondente do Jornal do Brasil em Londres, ex-editor internacional do Jornal da Globo, do Jornal Nacional e da TV Brasil, ex-professor de jornalismo e de relações internacionais na UniverCidade, no Rio de Janeiro. Todos os comentários, críticas e sugestões são bem-vindos, mas não serão publicadas mensagens discriminatórias, racistas, sexistas ou com ofensas pessoais.
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sábado, 26 de julho de 2014
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