quarta-feira, 1 de abril de 2026

Trump tenta justificar a guerra e promete fim em semanas

Num pronunciamento sem grandes novidades dirigido aos norte-americanos, o presidente Donald Trump defendeu hoje à a noite a necessidade de ir à guerra contra o Irã, insistiu em que está perto de atingir seus objetivos e prometeu mais uma vez acabar com o conflito armado em duas a três semanas. Tenta transformar um fracasso geopolítico retumbante numa vitória.

Trump começou exaltando o suposto sucesso dos militares dos Estados Unidos em pouco mais de um mês de guerra. Mais cedo, declarou que o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, pediu um cessar-fogo. O regime extremista iraniano negou e a Guarda Revolucionária afirmou que o Estreito de Ormuz, por onde passam 20% do petróleo consumido no mundo, não será reaberto com as "diatribes ridículas" do presidente norte-americano.

Para justificar a guerra, Trump lembrou que o regime ameaça os EUA desde a vitória da Revolução Islâmica em 1979. Citou dos ataques às forças norte-americanas no Líbano nos anos 1980 ao terrorismo do Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) a Israel em 7 de outubro de 2023 para reiterar que o Irã jamais poderá ter armas nucleares. Recordou a morte do general Qassem Soleimani, comandante do braço da Guarda Revolucionária Iraniana para ações no exterior, morto por um drone dos EUA perto do aeroporto de Bagdá em 3 de janeiro de 2020, no seu primeiro governo.

Se não tivesse matado Soleimani e acabado, em maio de 2018, com o "acordo desastroso" negociado pelo governo Barack Obama junto com as outras grandes potências do Conselho de Segurança das Nações Unidos, a situação seria muito pior, gabou-se Trump. Com seu estilo hiperbólico, alegou que "seria um mundo muito diferente: não haveria Israel nem Oriente Médio."

"Outros presidentes erraram. Estou corrigindo os erros", prosseguiu. "Em junho, ordenei o ataque às principais instalações nucleares na Operação Martelo da Meia-Noite." Na época, afirmou que o programa nuclear do Irã teria sido "completamente obliterado". Neste caso, não haveria necessidade de uma nova guerra. 

"O regime tentou então reconstruir o programa em locais totalmente diferentes, deixando claro que queria fazer armas nucleares. (...) Ao mesmo tempo, desenvolveu mísseis capazes de atingir praticamente o mundo inteiro." Mais um exagero. O Irã disparou um míssil contra uma base aérea na ilha de Diego Garcia, no Oceano Índico, a 4 mil quilômetros de distância, mas as estimativas são de que levaria 10 anos para ameaçar o território dos EUA.

Ao contrário do que diz a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), "estavam perto de fabricar armas nucleares", argumentou. "Há anos, eu disse que o Irã não poderia ter armas nucleares, mas falar não basta. Estou fazendo o que outros presidentes não tiveram coragem de fazer. Eliminei a Marinha, a Força Aérea, o programa de mísseis e a indústria bélica. Isso vai impedir o Irã de ameaçar os vizinhos. Esses objetivos estão perto da conclusão. Vamos terminar o trabalho em breve."

Desde o início da guerra, Trump cantou vitória mais de 20 vezes. Hoje, mentiu que a produção de petróleo dos EUA é maior do que as da Arábia Saudita e da Rússia juntas para afirmar que "não precisamos do petróleo do Estreito de Ormuz. Os países que recebem petróleo por lá devem proteger a rota de que tanto dependem. O Estreito de Ormuz será reaberto naturalmente quando a guerra acabar e os preços do petróleo vão cair."

Os preços da gasolina para o consumidor norte-americano vão ser decisivos nas eleições parlamentares de 3 de novembro nos EUA, quando Trump deve perder a maioria na Câmara e talvez também no Senado. Como o discurso de Trump decepcionou, os mercados abriram em queda na Ásia e o petróleo em alta.

Aos países abalados pela alta nos preços do petróleo para um patamar de US$ 100 por barril na pior crise energética da história, o presidente sugeriu: "Comprem dos EUA ou tenham uma coragem tardia e tomem o estreito", o que ele não tem coragem de fazer porque morreriam muitos soldados norte-americanos.

Trump criticou os aliados europeus por negar o uso de suas bases para ações de ataques e por não se oferecerem para reabrir o Estreito de Ormuz. Praticamente não falou das monarquias petroleiras do Golfo Pérsico e dos outros aliados asiáticos, que tiveram enormes prejuízos com a guerra. Nem em Israel, que tem interesse numa guerra longa capaz de minar as bases econômicas e militares do Irã para levar o regime ao colapso.

"Vamos continuar a Operação Fúria Épica até atingir nossos objetivos, até daqui a pouco, muito pouco, os levamos de volta à Idade da Pedra", continuou Trump. Mais uma vez, prometeu atacam duramente o Irã nas próximas semanas, inclusive as usinas elétricas se o regime iraniano não fizer um acordo, uma contradição para quem garante que a guerra está ganha.

O presidente comparou a duração desta guerra com a Segunda Guerra Mundial (1939-45), a Guerra da Coreia (1950-53), a Guerra do Vietnã (1955-75) e a Guerra do Iraque (2003-11) para alegar que foi curta. Está no 32º dia.

Outra mentira: "Nunca falamos em mudança de regime." No início da guerra, era claro que esse era o principal objetivo dos EUA e de Israel. Agora, Trump alega que o regime mudou porque vários líderes foram mortos, mas o Supremo Líder Espiritual da Revolução Islâmica, aiatolá Ali Khamenei, foi substituído pelo filho, o líder mais pragmático, Ari Larijani, o principal negociador iraniano, foi morto. 

O homem-forte do regime hoje aparentemente é o presidente do Majlis, o Parlamento do Irã, Mohammad Ghalibaf, ex-prefeito de Teerã, ex-comandante da Força Aérea da Guarda Revolucionária e ex-candidato a presidente. Ele rejeita qualquer negociação, embora o presidente Masoud Pezeshkian tenha dito em carta aberta ao povo norte-americano que o povo iraniano não é inimigo dos EUA e da Europa.

A Guarda Revolucionária está no controle, mais radicalizada e mais determinada a fabricar armas atômicas como garantia de sobrevivência do regime. Trump não falou em apreender os 440 quilos de urânio enriquecido a 60%, a meio caminho para chegar a 90%, o teor necessário para fazer, com esta quantidade de urânio, até 10 armas nucleares.

Esta é a grande preocupação de Israel e dos analistas militares. Trump quer declarar vitória e ir embora deixando no poder uma ditadura mais extremista com capacidade de fabricar armas atômicas.

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