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quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Sultão da Arábia Saudita morre os 90 anos

O rei Abdala ben Abdul Aziz al Saud, da Arábia Saudita, morreu hoje aos 90 anos depois de longa enfermidade, anunciou a família real em nota lida na televisão estatal na manhã de sexta-feira pela hora local. Abdala estava no poder oficialmente desde 2005, quando morreu seu meio-irmão Fahd, mas governava o país desde 1995 por causa de problemas de saúde do antecessor

Com a morte do sultão, ascende ao trono o rei Salman ben Abdul Aziz al Saud, de 79 anos, meio-irmão de Abdala, que sofre de demência senil.

O príncipe Mukrin ben Abdul Aziz al Saud, de 69 anos, nomeado novo herdeiro, é quem governa o país na prática. Mais jovem dos 45 filhos do fundador da Arábia Saudita, rei Abdul Aziz al Saud, foi diretor dos serviços secretos sauditas de 2005 a 2012, quando passou a ser assessor especial do rei Abdala. Em 2013, foi nomeado vice-primeiro-ministro. O príncipe herdeiro era o primeiro-ministro.

Como segundo na linha de sucessão ao trono, foi indicado o príncipe Mohamed ben Naif, sobrinho do novo rei. Ele era chefe do combate do terrorismo e do programa de desradicalização dos jihadistas. Se chegar ao trono, será o primeiro sultão saudita que não será filho do fundador do país. Será o primeiro neto, numa transferência de poder para a terceira geração da dinastia.

Maior produtor e exportador mundial de petróleo, a Arábia Saudita lidera a ação que derrubou os preços internacionais do petróleo em mais de 50% nos últimos seis meses para competir com o óleo e gás natural extraídos do xisto betuminoso nos EUA. É uma monarquia absolutista sem Constituição, com produto interno bruto de US$ 778 bilhões, mais de 30 milhões de habitantes, 6 mil príncipes e escasso controle público de suas atividades. Muitos são suspeitos de financiar o terrorismo.

Dos 19 terroristas cometeram os atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, 15 eram sauditas. A rede terrorista Al Caeda, então chefiada pelo saudita Ossama ben Laden, escolheu-os a dedo para provocar uma crise entre os EUA, que culpa pelos males do mundo, e a dinastia Saud, que considera fantoche do imperialismo ocidental.

A Arábia Saudita é assim fruto de uma aliança entre a dinastia Saud e um clero ultraconservador sunita. Guardiã das cidades sagradas de Meca e Medina, a família real saudita tem desde 1744 uma aliança histórica com o wahabismo, uma versão puritana do islamismo que exporta pelo mundo com a fortuna gerada pelos petrodólares. É a mesma corrente seguida pela rede terrorista Al Caeda e pelo Estado Islâmico do Iraque e do Levante.

Ao mesmo tempo, o reino depende de sua aliança militar com o Ocidente para sua segurança, sacramentada num encontro de seu fundador com o então presidente dos EUA Franklin Roosevelt, que voltava da Conferência de Ialta, em 1945, uma parceria regada ao petróleo que a Arábia Saudita descobrira em 1938.

Diante da ameaça do terrorismo que nega sua legitimidade e o acusa de ser um fantoche do Ocidente, a monarquia saudita reprimiu duramente a rede Al Caeda, o que levou seu comando e campos de treinamento na Península Arábica para o Iêmen, país de origem da família Ben Laden.

Não há respeito aos direitos humanos na Arábia Saudita. As mulheres não podem dirigir nem sair na rua sozinha e são alvo de violência doméstica, assim como empregados. O blogueiro Raif Badawi, que tentou criticar a religião e discutir ideias liberais na Internet, foi condenado a 10 anos de prisão, US$ 250 mil de multa e mil chibatadas em público, em 20 doses de 50 chibatadas.

Sob pressão internacional, o falecido rei suspendeu as chibatadas por "motivo de saúde". A decisão do próximo a respeito do caso foi marcar seu reinado.

No plano internacional, a Arábia Saudita disputa a liderança regional do Oriente Médio com o Irã, que é persa e xiita. Está inquieta com reaproximação entre os EUA e o Irã. Os sauditas estão por trás de vários grupos armados sunitas em atividade.

O ministro do Exterior iraniano, Javad Zarif, acaba de cancelar uma visita a Riade que marcaria o início de um diálogo entre Arábia Saudita e Irã fundamental para a pacificação do Oriente Médio. Diante do anúncio de que os sauditas vão treinar rebeldes sírios, o Irã, que apoia a ditadura de Bachar Assad na guerra civil da Síria, suspendeu a viagem do chanceler à capital saudita.

Neste momento de transição, a Arábia Saudita não quer passar uma imagem de fragilidade. No Oriente Médio, às vezes, a disposição de negociar é vista pelo outro lado como um sinal de fraqueza.

domingo, 3 de novembro de 2013

Kerry tenta reassegurar aliados árabes dos EUA

O secretário de Estado americano, John Kerry, fez hoje uma visita de surpresa ao Egito, na véspera do início do julgamento do ex-presidente Mohamed Mursi, deposto em 3 de julho de 2013, para pedir moderação ao governo militar egípcio. De lá, seguiu para a Arábia Saudita, que está irritada com a política dos Estados Unidos no Oriente Médio.

A Arábia Saudita e o Egito são os maiores aliados árabes dos EUA, mas, no momento, suas relações com Washington são as piores possíveis.

Pela lei americana, os EUA não podem ajudar governos resultantes de golpes de Estado, o que fez o governo Barack Obama suspender a ajuda que Washington dá ao Egito desde a assinatura do acordo de paz egípcio-israelense, em 1979. Isso irritou os grupos secularistas que apoiaram o golpe militar contra o governo dominado pela Irmandade Muçulmana. Nas ruas do Cairo, há cartazes onde Obama usa uma barba típica de extremistas muçulmanos.

Por outro lado, os grupos islamitas radicais que a promessa de chegar ao poder pelo voto atraía para o jogo político chegaram à conclusão de que a única saída é a luta armada. A violenta repressão à Primavera Árabe na Síria tornou ainda mais distante o sonho de democracia.

Kerry insistiu na convocação rápida de eleições e na transferência do poder para um governo eleito democraticamente. Será difícil. A Irmandade Muçulmana foi colocada na ilegalidade.

Na Arábia Saudita, o problema é o Irã. A aliança com os EUA foi selada num encontro do então presidente Franklin Delano Roosevelt com o primeiro sultão saudita, Abdulaziz al-Saud, a bordo de um navio de guerra americano estacionado no Canal de Suez. Os EUA forneceriam capital e tecnologia para a exploração de petróleo.

Essa aliança foi parcialmente rompida quando o rei Faiçal, filho de Abdulaziz, decretou o embargo à venda do petróleo árabe aos países amigos de Israel depois da Guerra do Yom Kippur, em 1973. Se ajudou a expulsar a União Soviética do Afeganistão, também lançou as primeiras sementes da rede terrorista Al Caeda.

No mês passado, eleita para uma vaga temporária por um período de dois anos no Conselho de Segurança das Nações Unidas, a Arábia Saudita declarou que não assumiria a posição em protesto contra a incapacidade da ONU de resolver os problemas do Oriente Médio, especialmente a ocupação dos territórios palestinos por Israel, a guerra civil na Síria e a ameaça de que o Irã faça bombas atômicas.

Talvez a revelação mais impressionante das centenas de milhares de documentos da diplomacia americana vazados pelo sítio WikiLeakis fosse a pressão do rei da Arábia Saudita para que os EUA ataquem o Irã para impedir a república dos aiatolás de desenvolver armas nucleares.

O Irã, xiita, é um rival da Arábia Saudita, sunita, na luta pela liderança do Oriente Médio. A guerra civil na Síria acirrou o conflito entre sunitas e xiitas num arco que vai do Líbano, passando pela Síria, até para lá de Bagdá, e a postura dos EUA, tirando as armas químicas, é de indiferença.

Quando a ditadura de Bachar Assad foi acusada de atacar com armas químicas, em 21 de agosto de 2013, e os EUA ameaçaram lançar um bombardeio punitivo, receberam o apoio da Arábia Saudita. Mas, com intermediação da Rússia, o regime sírio prometeu se desfazer das armas químicas.

Na questão palestina, a visão árabe é que os EUA não pressionam suficientemente seu aliado incondicional, Israel, para que faça as concessões necessárias a um acordo de paz.

Kerry tem muitos incêndios para apagar. Vai encontrar pouca água no deserto.