terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Trump tenta convencer norte-americanos de que a economia vai bem

Num momento de grande impopularidade, com a aprovação de apenas 36%, a menor de seu segundo governo, o presidente Donald Trump fez hoje o Discurso sobre o Estado da União, a prestação de contas anual do presidente dos Estados Unidos ao Congresso, tentando convencer a nação de que vai tudo bem. Repete o erro de Joe Biden, ao ignorar as dificuldades econômicas da maioria da população.

Foi o mais longo Discurso sobre o Estado da União da história: uma hora e 47 minutos de insultos, mentiras, falsidades e autocongratulação com escassa relação com a verdade e uma postura mussolinesca de cabeça para trás e queixo empinado. 

"Nossa nação está de volta, maior, melhor e mais forte do que nunca", gabou-se Trump.

Como de costume, afirmou que recebeu o país em péssimas condições de Joe Biden e fez a maior reviravolta em apenas um ano. Mente que a inflação era a maior da história, que o país estava invadido por imigrantes ilegais e com dificuldade para recrutar militares.

"Agora, temos a fronteira mais segura da história dos EUA", afirmou, acrescentando que nos últimos 12 meses não entrou nenhum imigrante ilegal no país. "A entrada de fentanil caiu 56% e o índice de homicídios caiu como nunca, desde que meu pai nasceu. O governo Biden e seus aliados no Congresso nos legou a pior inflação da história", o que é mentira.

Em seguida, declarou que o país está recebendo investimentos de US$ 18 bilhões, o que ninguém acredita. "Recebemos de nossa nova aliada Venezuela 8 milhões de barris". Acrescentou que a produção dos EUA aumentou em 600 mil barris diários porque ele cumpriu a promessa de mandar "perfurar, perfurar e perfurar" novos poços de petróleo.

"Acabamos com [as políticas de] DEI (diversidade, equidade e inclusão) nos EUA", um sinal evidente de seu racismo e desprezo pelas minorias. Antes de Trump começar a falar, o deputado federal pelo Texas Al Green foi expulso do plenário por apresentar um cartaz com as palavras: "Negros não são macacos", uma referência ao vídeo divulgado pela Casa Branca em que o ex-presidente Barack Obama e sua mulher, Michelle Obama, eram retratados como macacos.

"Estamos ganhando como nunca", falou ao convocar o time de hóquei sobre o gelo dos EUA, que conquistou a medalha de ouro na Olimpíada de Inverno de Milão e Cortina d'Ampezzo, na Itália. O time feminino de hóquei também ganhou ouro, mas se recusou a participar do evento de hoje no Congresso alegando problema de agenda.

Trump acusou os democratas de votar contra seu corte de impostos para ricos e grandes empresas como se beneficiasse o cidadão comum. Também criticou a Suprema Corte por ter derrubado o tarifaço de sua guerra comercial. Mentiu mais uma vez ao dizer que são os estrangeiros que pagam pelas tarifas de exportação. A delegacia do banco central em Nova York estimou que 90% das tarifas são pagas por consumidores e empresas norte-americanas.

O presidente culpou os democratas pelo alto custo de vida, um dos grandes problemas deste governo: "Os preços estão desabando. O preço dos ovos caiu 60%. Mesmo a carne, que estava muito cara, está caindo. A energia caiu a números que ninguém acredita." 

Ele responsabilizou o programa de saúde do governo Barack Obama de enriquecer as empresas de seguro-saúde. Mais uma falsidade. Até hoje, Trump não apresentou uma proposta para a saúde. Também alegou que está baixando os preços dos medicamentos como nunca. "Os outros presidentes prometeram, falaram, mas não agiram. Hoje, pagamos os menores preços do mundo por medicamentos." Falso. Falou em quedas de 400%, 500% e 600%, mas 100% seriam suficientes para zerar os preços.

Em mais um desafio à Constituição, citou a possibilidade de exercer um terceiro mandato.

Não há nenhum indício de fraude em massa em eleições nos EUA, mas Trump insiste que "a fraude é desenfreada em nossa eleições... Eles querem trapacear. Eles têm trapaceado. E suas políticas são tão ruins que a única maneira de serem eleitos é trapaceando e vamos acabar com isso." Mais um insulto à oposição.

Até hoje, Trump não reconheceu a derrota para Biden em 2020. Seus advogados e aliados fizeram 61 reclamações à Justiça. Em todos os casos, os juízes não viram elementos suficientes para abrir um processo.

Ele pede que todos os eleitores provem que não são imigrantes ilegais. Um estudo de seu Departamento de Segurança Interna, entre 49,5 milhões de eleitores, foram identificados cerca de 10 mil casos para maior investigação, 0,02% to total. Trump prepara maneiras de interferir nas eleições de meio de mandato marcadas para 3 de novembro, quando deve perder a maioria na Câmara e talvez também no Senado.

A seguir, inventou que um estado tentou mudar o sexo de uma menina na plateia. "Os democratas estavam destruindo nosso país, mas os paramos em cima da hora."

Trump se vangloriou de reduzir a violência nos EUA com sua política anti-imigrantes: "Deportamos imigrantes ilegais criminosos em número recorde", disse Trump. Na verdade, a maioria das pessoas detidas por agentes de imigração não têm condenação criminal. Seu governo deportou muito menos do que o governo Obama, com a diferença de que o democrata deportou criminosos.

Para defender a atuação de sua política de imigração fascistoide, apresenta família que perderam parentes em crimes cometidos por imigrantes. Mas a realidade é que imigrantes cometem muito menos crimes proporcionalmente do que cidadãos norte-americanos.

Quando Trump defendia sua política anti-imigração, a deputada federal por Minnesota Ilhan Omar, de origem somaliana, disparou: "Você matou norte-americanos", numa referência às mortes de Renne Good e Alex Pretti, baleados pela polícia de imigração em Mineápolis em janeiro.

O presidente se congratulou por acabar com oito guerras. Não acabou com nenhuma. No máximo, intermediou um acordo de paz entre Armênia e Azerbaijão sem resolver os problemas históricos entre os dois países.

Às vésperas de um possível bombardeio ao Irã, Trump acusou o regime dos aiatolás de terrorismo e de ter matado 32 mil iranianos na onda de protestos recentes. Insistiu na mentira de que erradicou o programa nuclear do Irã. Declarou que o Irã nunca poderá ter armas nucleares nem mísseis capazes de atingir a Europa e as bases dos EUA no Oriente Médio.

"Minha preferência é resolver o problema diplomaticamente. Mas não se enganem, o maior patrocinador de terrorismo jamais poderá ter armas nucleares", ameaçou, ao defender sua estratégia de "paz através da força". Não revelou qual o objetivo de um possível ataque: acabar com o programa nuclear? Derrubar o regime? Proteger os manifestantes?

Ao falar dos "aliados e amigos" da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), citou o compromisso assumido de que cada país gaste 5% do produtos interno bruto com defesa a partir de 2035, o que exigiu para não retirar as forças dos EUA da Europa. Também se vangloriou de não mandar mais dinheiro para a Ucrânia: "Tudo o que estamos enviando para a Ucrânia fazemos através da OTAN e eles nos pagam." Os europeus compram armas e munições dos EUA.

Não esqueceu de falar do Hemisfério Ocidental, nome que usa para se referir à América, dizendo que garantiu a segurança e acabou com o tráfico de drogas através do mar. Em seu tom hiperbólico, chamou a captura e o sequestro do ditador venezuelano Nicolás Maduro para levá-lo para julgamento nos EUA uma das operações militares mais espetaculares da história.

"Estamos trabalhando com a nova presidente Delcy Rodríguez para gerar ganhos extraordinários para os dois países". O futuro da Venezuela é incerto. Por enquanto, Trump conchava com o regime em troca de petróleo.

Em outro momento, convoca a primeira-dama Melanie Trump para condecorar um aviador que teria enfrentado aviões da União Soviética durante a Guerra da Coreia (1950-53).

A resposta democrata foi feita pela governadora da Virgínia, Abigail Spanberger. Ela declarou que Trump não se preocupa com a segurança e a situação econômica do cidadão comum, que nunca se viu tanta corrupção. Citou o enriquecimento de um presidente e sua família, inclusive com criptomoedas e outros negócios suspeitos, e o escândalo sexual de Jeffrey Epstein. 

A governadora lembrou sua eleição e outras que o Partido Republicano perdeu desde a posse de Trump e afirmou que o Partido Democrata vai ganhar as eleições intermediárias de 3 de novembro porque "nós trabalhamos para o povo."

5 comentários:

Anônimo disse...

Adorei o seu resumo! Claro que não tive vontade (nem estômago) de assistir ao discurso. Obrigada!

Anônimo disse...

Excelente resumo Nelson. É preciso ter estômago para aguentar este Narciso cruel e mentiroso.

Georges Christopoulos disse...

Excelente análise Nelson!

Anônimo disse...

Excelente resumo!

Anônimo disse...

Excelente resumo. Renato Futuro