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segunda-feira, 21 de julho de 2025

Governo do Japão perde maioria no Senado

Com a derrota nas eleições de ontem para o Senado, o Partido Liberal-Democrata (PLD), que governa o Japão há 70 anos com breves interrupções, e seu aliado Komeito (Partido do Governo LImpo) ficam sem maioria nas duas casas do Congresso pela primeira vez. 

É a terceira derrota consecutiva do primeiro-ministro Shigeru Ishiba. Ele perdeu a maioria na Câmara em outubro do ano passado, quando assumiu a liderança do PLD, e as eleições municipais em Tóquio em janeirpo deste ano. Por enquanto, resiste às pressões para renunciar e não quer ampliar a coalizão de governo.

A derrota enfraquece o Japão no momento de negociações delicadas com os Estados Unidos para escapar da ameaça do presidente Donald Trump de um tarifaço de 25% capaz de abalar as exportações japonesas, especialmente de automóveis, carro-chefe da indústria do país. Nas primeiras rodadas de negociação, os EUA quiseram impor exigências de abertura de mercado sem contrapartida e o Japão não aceitou.

Se o governo japonês resistir às ameaças de Trump, a situação econômica, que já é difícil, vai piorar. Se ceder, Ishiba será visto como um primeiro-ministro ainda mais fraco. A dívida pública pode chegar neste ano a 272% do produto interno bruto (PIB). É proporcionalmente a maior do mundo. Segunda maior economia do mundo até ser superado pela China em 2010, o Japão foi ultrapassado pela Alemanha e neste ano deve ficar atrás da Índia. Depois de décadas de deflação, a inflação foi de 3,2% ano em junho e o aumento dos preços dos alimentos de 7,1%, gerando insatisfação. O preço do arroz, base da alimentação japonesa, dobrou em um ano.

O Senado do Japão tem 248 cadeiras. Faltaram três para a coalizão governista manter a maioria absoluta. Os maiores avanços foram do Partido Democrático para o Povo (PDP), que cresceu de 9 para 22 senadores, e o partido de extrema direita Sanseito (Partido da Participação Popular), antiestrangeiros, que passou de 2 para 15 senadores.

São dois partidos populistas que usam as redes sociais para angariar prestígio junto aos jovens, cada vez mais preocupados com o futuro do Japão. Sua ascensão indica uma fragmentação do sistema político japonês e consequente aumento da instabilidade.

De centro-direita, o PDP nasceu em 2018 da fusão entre o Partido Democrático (PD) e o Partido da Esperança (PE) com as promessas de revitalizar a economia, reforma do setor de energia e aumentar a prontidão para a guerra diante da ascensão da China e do isolamento crescente dos EUA. Está entre o conservador PLD e o Partido Democrático Constitucional do Japão (PDCJ), de centro-esquerda, o maior da oposição, antimilitarista e contra a energia nuclear, que pode ser convidado para integrar o governo para formar maioria.

O programa do PDP defende o crescimento com maior distribuição da renda, estímulo estatal à economia, investimento em inovação e aumento da produtividade, parceria público-privada para modernizar a infraestrutura e a indústria, aumento salarial, igualdade de gênero no mercado de trabalho, assistência à infância para aumentar a natalidade e conter a queda na população, reforma constitucional e reforma tributária para fortalecer os trabalhadores e a classe média.

No setor de energia, o PDP quer a eliminação gradual da energia nuclear, transição para energia de fontes renováveis, liberalização do mercado de energia, autossuficiência e sustentabilidade ambiental. 

Depois do acidente nuclear de Fukushima, causado pelo terremoto e maremoto de 11 de março de 2011, o Japão desligou em 2013 todas as 48 usinas atômicas. Elas eram responsáveis por mais de 25% da energia elétrica do país; 94% passaram a ser gerados por combustíveis fósseis e 6% por fontes renováveis. 

Em 2015, duas usinas nucleares foram religadas. Doze reatores voltaram a funcionar até fevereiro deste ano e outros 15 pediram licença para funcionar. A energia atômica é considerada essencial para que o país cumpra as metas de redução de emissões de combustíveis fósseis prometidas com base no Acordo de Paris sobre Mudança do Clima.

Na política externa e em defesa, o PDP quer fortalecer a capacidade militar mantendo a aliança com os EUA como base da segurança nacional. Defende uma revisão moderada do artigo 9 da Constituição imposta pelos EUA em 1947, depois da Segunda Guerra Mundial (1939-45). O art. 9 proíbe o Japão de ir à guerra e de projetar seu poderio militar no exterior.

O Sanseito é um partido de extrema direita fundado em 2020. Tem várias semelhanças ao trumpismo, como o slogan "primeiro, os japoneses", o gosto por teorias conspiratórias, cortes de impostos, e a rejeição a imigrantes e estrangeiros. Difundiu notícias falsas contra vacinas e sobre a pandemia da covid-19 (doença do coronavírus de 2019). Ao mesmo tempo, defende a espiritualidade e a alimentação natural, com produtos orgânicos. 

Em maio de 2025, seu secretário-geral, Sohei Kamiya foi acusado de revisionismo histórico ao afirmar que durante a Batalha de Okinawa, no fim da guerra, os okinawenses foram mortos apenas por soldados norte-americanos e não pelo Exército Imperial Japonês, notório por seus crimes de guerra.

domingo, 27 de outubro de 2024

Governo do Japão perde maioria absoluta no Parlamento

 Depois de chegar à liderança do Partido Liberal-Democrata (PLD) e à chefia do governo do Japão na quinta tentativa um mês atrás, o primeiro-ministro Shigeru Ishiba levou o partido que domina a política do país no pós-guerra à pior derrota em 15 anos. O PLD e seu aliado Komeito (Partido do Governo Limpo) perderam neste domingo a maioria na Dieta, a câmara baixa do Parlamento japonês, jogando o país na incerteza. Sua liderança está ameaçada.

De acordo com a televisão estatal NHK, com 41,1% dos votos, o PLD terá 191 deputados e o Komeito , com 5,2%, 24. Assim, a bancada governista fica com 215 cadeiras, 18 a menos do que as 223 necessárias para ter maioria. O Partido Democrático Constitucional do Japão (PDCJ) recebeu 31,8% dos votos e elegeu 148 deputados. Outros partidos tiveram 19,4% e elegeram 92 deputados.

Este resultado reflete o descontentamento da população com décadas de baixo crescimento econômico, combinado nos últimos anos com aumento no custo de vida e a corrupção crônica do sistema político japonês. 

Em dezembro do ano passado, estourou um escândalo. Duas facções do PLD deixaram de declarar 600 milhões de ienes (R$ 22,34 milhões) em contas de campanhas e depositaram o dinheiro em fundos secretos. Isso provocou a queda do primeiro-ministro Fumio Kishida, substituído por Ishiba, que decidiu convocar eleições para se legitimar.

Um parlamento fragmentado vai emperrar as reformas necessárias para resgatar um pouco do dinamismo da economia japonesa, considerada um exemplo para o mundo nos anos 1980, em crise desde 1991.

Para ter maioria, o PLD terá de atrair partidos que até agora não mostraram interesse em se aliar ao governo. O PLD tem um virtual monopólio do poder no Japão. Desde que foi criado, em 1955, numa fusão de governos conservadores, o PLD só deixou de governar o país por dois breves períodos, quando o primeiro-ministro foi o socialista Tomiichi Murayama (1994-96), e de 2009 a 2012, quando o PDCJ esteve no poder com os primeiros-ministros Yukio Hatoyama, Naoto Kan e Yoshihiko Noda, que ainda é o líder do partido e da oposição.

Desde 2012, quando voltou ao poder com Shinzo Abe, o PLD venceu todas as eleições nacionais no Japão. Esta derrota marca o fim da era Abe, morto em 16 de setembro de 2020, num raríssimo assassinato político no país.

Único país do mundo bombardeado até hoje com armas nucleares, o Japão é agora o principal aliado dos Estados Unidos, que ainda tem forças militares no país, no Leste da Ásia, uma peça fundamental na estratégia de Washington para conter a China, que inclui Coreia do Sul, Austrália, Nova Zelândia, Índia e Vietnã. Estes dois últimos mantêm uma posição de independência entre EUA e China.