sexta-feira, 31 de março de 2006

Presidente francês sanciona lei do primeiro emprego mas promete mudanças

O presidente da França, Jacques Chirac, sancionou hoje a lei que cria o contrato do primeiro emprego, apesar da onda de protestos das últimas semanas. Em pronunciamento pela televisão, Chirac prometeu reduzir de dois anos para um o período no qual jovens de até 26 anos, no primeiro contrato de trabalho, poderão ser demitidos sem qualquer compensação. Disse ainda que os empregadores serão obrigados a justificar a demissão.

Chirac tenta um meio termo capaz de salvar o primeiro-ministro Dominique de Villepin, cuja demissão está sendo exigida pelos manifestantes. Villepin formulou a proposta depois da rebelião de jovens de origem estrangeira na periferia de Paris, em outubro e novembro do ano passado.

O desemprego na França atinge quase 10% de população ativa, chegando a 23% entre os jovens e a 40% entre os jovens de origem estrangeira. Mas estudantes e sindicalistas não vêem na proposta uma saída para gerar empregos e, sim, um primeiro passo para cortar direitos sociais e trabalhistas. Eles rejeitaram as mudanças anunciadas por Chirac e mantiveram a convocação de greves e marchas de protestos para terça-feira, 4 de abril.

Na liderança do movimento estudantil francês, estão os universitários. Eles têm mais facilidade de assinar contratos de prazo indeterminado. Dos formandos em 2001, 71% tinham emprego estável três anos depois. Mas a ameaça de desemprego e de ter de aceitar trabalho temporário apontam para uma degradação das relações de trabalho na França, um efeito perverso da globalização que inquieta e assusta a sociedade francesa.

Uma das explicações para este medo é a deterioração da economia francesa nos últimos quatro anos. O desemprego entre bacharéis caiu de 12% em 2001 para 8% em 2003 mas voltou a subir para 11% em 2004. Este fantasma do desemprego tem um impacto psicológico devastador.

Outro fator é a desvalorização do diploma universitário. A porcentagem dos que recebiam abaixo da expectativa para o diploma que possuíam passou de 22% em 1981 para 43% em 1997. "Mais do que a precariedade do mercado de trabalho, a realidade é que o diploma universitário não garante mais o mesmo status e o mesmo salário de 15 anos atrás", constata Alberto Lopez, chefe do departamento de entrada na vida ativa do Centro de Estudos e Pesquisas sobre Emprego e Qualificação.

quarta-feira, 29 de março de 2006

Kadima vence em Israel mas elege menos deputados do que esperava

O partido centrista Kadima (Avante), do primeiro-ministro interino Ehud Olmert, venceu as eleições de 28 de março em Israel terá apenas 28 deputados na Knesset, o parlamento israelense, de 120 cadeiras. Durante a campanha, a prevão era de que elegeria 40. Olmert chegou a declarar que menos de 36 seria considerado um resultado ruim. Isto o torna dependente de outros partidos para formar a coalizão de governo.

Diante da incerteza política gerada pelo resultado, a Bolsa de Tel-Aviv caiu 1% na manhã desta quarta-feira. Mas o jornal americano The New York Times observa que os eleitores preferiram partidos favoráveis à retirada parcial israelense dos territórios árabes ocupados.

O Partido Trabalhista, de centro-esquerda, que dominou a política israelense durante décadas, terá 20 deputados, e o esquerdista Meretz, quatro. Estes partidos devem apoiar a estratégia de paz de Olmert.

Em terceiro, ficou o Shass, um partido ortoxodo sefaradita, com 13 cadeiras. Em quarto, o partido linha-dura Beiteinu, apoiado sobretudo por imigrantes russos, com 12 deputados.

Isso deixou em quinto lugar o Likud, ao qual pertenciam tanto Olmert quanto seu padrinho político, o ex-primeiro-ministro Ariel Sharon, que agoniza desde 4 de janeiro, quando sofreu um acidente vascular cerebral. Foi uma grande derrota para o ex-primeiro-ministro linha-dura Benjamin Netanyahu, contrário a qualquer devolução de territórios aos palestinos.

Para os analistas, o comparecimento às urnas de 63,2% dos eleitores inscritos, baixo para eleições israelenses, favoreceu os pequenos partidos.

A proposta de Olmert é levar adiante o plano de paz de Sharon. Se não houver acordo com os palestinos, ele pretende realizar uma separação unilateral, removendo parte das colônias judaicas na Cisjordânia.

O presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, rejeita este "desengajamento" proposto por Israel. Mas terá dificuldades em reiniciar o processo de paz, já que o novo governo palestino é formado pelo Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), considerado um grupo terrorista pelos Estados Unidos, União Européia e Israel por se negar a abandonar a luta armada e a reconhecer o direito de existência de Israel.

Durante as negociações para formar o governo, os partidos ligados à Organização para a Libertação da Palestina (OLP), de Abbas, exigiram que o Hamas aceitasse os acordos firmados com Israel. Mas os radicais do Hamas se negam a fazer isto, alegando que equivaleria a reconhecer Israel e aceitar a ocupação dos territórios palestinos.

Estudantes e sindicalistas marcam nova jornada de greve a manifestações na França

Um dia depois de protestos que reuniram de 1 a 3 milhões de pessoas em toda a França, as 12 organizações estudantis e sindicais que lideram o movimento contra a lei do primeiro emprego marcaram nova jornada de greves e manifestações para 4 de abril.

A pressão sobre o governo conservador do primeiro-ministro Dominique de Villepin vai se tornando irresistível. A maioria dos franceses não só apóia os protestos como entende que o presidente Jacques Chirac deveria se envolver mais na solução da crise. Sua assessoria anunciou que ele pretende se manifestar nos próximos dias. Até agora, Chirac apóia o primeiro-ministro.

Villepin propôs a lei do primeiro emprego, que permite demissão sem justa causa nos dois primeiros anos de contrato, depois da rebelião dos jovens de origem estrangeira na periferia de Paris em outubro e novembro.

O índice de desemprego na França é de 9,7% mas chega a 23% entre os jovens e a 40% entre os jovens imigrantes ou de origem estrangeira.

Villepin pretendia ao menos atenuar o problema facilitando contratações e demissões. Mas estudantes e sindicalistas vêem na medida um primeiro passo para acabar com direitos e garantias sociais, e impor um modelo socioeconômico anglo-saxão e liberal.

Como o projeto já foi aprovado pela Assembléia Nacional, qualquer recuo será considerando humilhante para Villepin, que gostaria de concorrer à Presidência da França em 2007. Diante de sua negativa em revogar a lei, estudantes e sindicalistas exigem agora a demissão do governo. Ao que tudo indica, não aceitarão nada menos do que a queda de Villepin.

terça-feira, 28 de março de 2006

Boca-de-urna dá vitória ao Kadima em Israel

As pesquisas de boca-de-urna e as projeções dos primeiros resultados das eleições israelenses de 28 de março indicam a vitória do partido Kadima (Avante), do primeiro-ministro interino Ehud Olmert.

O Kadima deve eleger de 29 a 32 dos 120 deputados da Knesset, o parlamento de Israel. Em segundo, ficou o Partido Trabalhista, de centro-esquerda. A surpresa foi o partido de extrema direita Beiteinu, que deve fazer 13 ou 14 deputados, batendo a coligação direitista Likud, numa grande derrota para o ex-primeiro-ministro linha-dura Benjamin Netanyahu.

Para Olmert, herdeiro político do ex-primeiro-ministro Ariel Sharon, em coma desde 4 de janeiro, quando sofreu um acidente vascular cerebral, a vitória "consolida" o projeto de paz de Sharon. Se for impossível negociar com os palestinos, cujo governo desde ontem é formado pelo Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), Olmert pretende promover uma retirada unilateral de parte da Cisjordânia até 2010.

Esta fórmula de "desengajamento" é rejeitada pelos palestinos. A Corte Internacional de Justiça das Nações Unidas considera ilegais todos as 145 colônias israelenses construídas nos territórios árabes ocupados.

Se resolver desmantelar parcialmente as colônias, Olmert terá de enfrentar cerca de 60 mil colonos, bem mais do que os 8,5 mil que tiveram de ser expulsos da Faixa de Gaza no ano passado, depois que Sharon decidiu devolvê-la aos palestinos.

É provável que o Kadima se alie aos trabalhistas e a outros partidos de esquerda para avançar no processo de paz e aos partidos de direita em questões econômicas.

Banco central dos EUA eleva juros e indica que haverá mais altas

Na primeira reunião sob a presidência de Ben Bernanke, o Federal Reserve Board (Fed), banco central americano, aumentou por unanimidade sua taxa básica de juros de 4,5% para 4,75% ao ano. Foi a décima quinta alta consecutiva. Ou seja: o Fed de Bernanke mantém a linha do ex-presidente Alan Greenspan.

Ao apresentar sua perspectiva para a economia dos EUA, o Fed assinalou que espera um crescimento forte o primeiro semestre e mais suave no segundo. Sobre inflação, disse que continua sob controle mas há riscos, sinalizando que mais aumentos de juros serão necessárias para conter as pressões inflacionárias.

A maioria dos analistas espera que o Fed volte a aumentar a taxa em 0,25 ponto percentual na sua próxima reunião, em 10 de maio. A dúvida é até onde a taxa vai subir. Há alguns meses, a expectativa era de um teto em 5%. No momento, os analistas estão divididos mas a maior parte acredita que a taxa básica de juros dos EUA vai pelo menos até 5,5% ao ano.

Kadima recua mas deve vencer eleição em Israel

O partido Kadima (Avante), criado pelo ex-primeiro-ministro Ariel Sharon, que agoniza desde que sofreu um acidente vascular cerebral em janeiro, caiu nas pesquisas mas deve vencer as eleições realizadas hoje em Israel.

Pela última pesquisa, divulgada na véspera do pleito, o Kadima, agora sob a liderança do primeiro-ministro interino Ehud Olmert, deve eleger 34 dos 120 deputados da Knesset, o parlamento de Israel. O Partido Trabalhista, de esquerda, tende a manter suas atuais 21 cadeiras. E o bloco direitista Likud, chefiado pelo ex-primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, deve fazer de 13 a 15 deputados.

Outros 30 partidos disputam as eleições israelenses.Como o país adota o sistema de voto proporcional, jamais um partido obteve maioria absoluta, o que obriga a formar coalizões.

Olmert prometeu levar adiante o plano de paz do ex-primeiro-ministro Sharon. Se não houver um interlocutor confiável do lado palestino, e os líderes israelenses não confiam no Movimento de Resistência Islâmica, o Hamas, Olmert promete comandar uma retirada unilateral de parte da Cisjordânia. Ele só não continuará sendo primeiro-ministro se os partidos da linha dura elegerem metade do novo parlamento.

O novo primeir-ministro palestino, Ismail Haniya, cujo governo foi aprovado pelo parlamento, anunciou a intenção de procurar a comunidade internacional para tentar relançar o protesto de paz, já que Israel se recusa a negociar com seu partido, se o Hamas não abandonar a luta armada e não reconhecer o direito à existência de Israel.

segunda-feira, 27 de março de 2006

UE liberaliza mercado de energia

A União Européia impõe limites ao nacionalismo econômico e chega a um acordo para liberalizar totalmente os mercados de gás e eletricidade no próximo ano. Também tenta fechar um acordo com a Rússia para garantir o suprimento.

Os líderes dos 25 países do bloco decidiram criar uma política européia comum de energia e a colocaram como prioridade dentro da política externa comum. Mas foi preciso muito esforço da Áustria, que no momento ocupa a presidência rotativa da UE, para evitar uma polarização ideológica entre protecionistas e liberais.

O Conselho Europeu aprovou uma proposta britânica para “completar a abertura do mercado interior de gás e eletricidade para todos os consumidores em meados de 2007”. A Grã-Bretanha iniciou sua liberalização nos anos 80, enquanto a França resistia até agora. Assim, a Electricité de France participou da privatização de uma companhia que fornece água a Londres mas as empresas britânicas não têm acesso ao mercado francês.

Foi aberta uma exceção para “alguns países-membros pequenos e isolados”. Para os outros, o acordo prevê “a aplicação da legislação do mercado interior de maneira completa, efetiva e transparente”.

Caberá ao supercomissário de Relações Exteriores da UE, Javier Solana, integrar a política de energia à política externa comum. Para o chanceler (primeiro-ministro) da Áustria, Wolfgang Schüssel, que preside à UE até 30 de junho, há necessidade de tomar medidas políticas com urgência para reduzir a crescente vulnerabilidade energética da Europa. Isto ficou evidente durante a crise entre Rússia e Ucrânia, que provocou escassez no fornecimento a vários países europeus.

Um dos objetivos imediatos de Solana será tentar um acordo especial com a Rússia, principal fornecedora de energia à Europa.

O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, festejou a vitória dos que “estão a favor da liberalização”. Disse que na sua casa “a eletricidade vem de uma companhia francesa, a água de uma alemã e no setor de gás há quatro concorrentes, sendo três estrangeiros. E isto não é um problema”.

Esta reunião de chefes de Estado e de governo da UE chegou a ser chamada de “cúpula do protecionismo”, tamanha é a onda protecionista que se abate sobre a Europa, assediada pela feroz concorrência da China, agora da Índia e de outros paises asiáticos.

Na semana passada, o comissário de comércio exterior da UE, o britânico Peter Mandelson, amigo pessoal de Blair, impôs uma sobretaxa de 27% sobre a importação de calçados da China e do Vietnã. Quando foi divulgado o déficit comercial da Espanha no ano passado, um dos setores que chamavam a atenção era o de calçados. Apesar da excelente qualidade do sapato espanhol, o pais produz cada vez, exporta menos e importa mais sapatos chineses.

Todos têm medo da China. Mas o nacionalismo econômico começou a erigir barreiras também dentro do mercado único europeu. Quando o grupo siderúrgico Mittal fez uma tentativa de compra hostil da Arcelor, o governo francês decidiu aprovar legislação para impedir este tipo de tacada, interferindo nas regras do mercado comum. Depois, impediu a Enel italiana de comprar o grupo franco-belga Suez, promovendo a fusão da Suez com a Gaz de France para manter a empresa sob o controle da França. Os italianos protestaram.

A França assumiu o discurso do nacionalismo econômico. Mas no momento o primeiro-ministro Dominique de Villepin está sitiado pelos manifestantes que exigem a anulação da lei do primeiro emprego e agora também a queda do governo de centro-direita. O pais está em crise diante dos desafios da globalização.

Na quinta-feira, primeiro dia da reunião de cúpula, a chanceler (primeira-ministra) alemã, Angela Merkel, criticou veladamente a França e a Espanha por tentarem manter suas empresas de energia à salvo de compradores estrangeiros.

Merkel condicionou a criação de uma política européia de energia à liberalização do setor: “Para mim é claro que só podemos ter um mercado interno de energia quando a eletricidade fluir livremente e aceitarmos a idéia de campeões europeus, sem pensar só no nacional”.

O governo espanhol quer impedir a Eon, da Alemanha, de comprar a empresa espanhola Endesa.

Outra preocupação central dos líderes europeus é o desemprego. A cúpula analisou se o modelo de flexissegurança da Dinamarca, combinando uma legislação trabalhista flexível com altos níveis de proteção social, pode ser exportado.

domingo, 26 de março de 2006

Serviço secreto dos EUA acusa Irã de apoiar Al Caeda

O novo presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, está forjando uma aliança com a rede terrorista Al Caeda (A Base) para aumentar sua influência ou pelo menos ignorando a ação de membros da rede liderada por Ossama ben Laden refugiados em seu pais, acusam os serviços secretos dos Estados Unidos.

Agentes secretos citados anonimamente pelo jornal Los Angeles Times alegam que o Irã dá asilo a inúmeros lideres da Al Caeda. Isto lhes permitiria planejar operações e transmitir ordens a outras células da rede terrorista. “O Irã está se radicalizando cada vez mais e faz vistas grossas à presença da Al Caeda”, disse um agente antiterrorista.

Entre os dirigentes da rede terrorista residentes no Irã, haveria três filhos de Ben Laden e vários egípcios ligados a Ayman al-Zawahiri, segundo homem mais importante da rede e talvez seu principal estrategista.

Para o presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes, deputado democrata Brad Sherman, a cooperação entre Al Caeda é Irã é real: “Os agentes da organização terrorista mais bem-sucedida do mundo estão passando muito tempo no pais que mais patrocina o terrorismo, e isto é enormemente preocupante.”

É importante notar que os EUA estão pressionando o Irã a abandonar seu programa nuclear, que estaria desenvolvendo bombas atômicas. Os EUA e seus aliados europeus levaram o caso ao Conselho de Segurança das Nações Unidas. Gostariam de impor sanções ao Irã mas a Rússia e a China, que têm direito de veto, resistem.

Uma suposta ligação jamais provada de Saddam Hussein com Al Caeda foi uma das desculpas para a invasão dos EUA ao Iraque. Os indícios em relação ao Irã são mais consistentes. Como a Casa Branca não descarta o uso da força e estaria planejando um “bombardeio cirúrgico”, é mais uma alegação para justificar uma nova guerra americana no Oriente Médio.

Caricaturas do profeta mobilizam islamitas na Arábia Saudita

Um movimento pela Vitória do Profeta surgiu na Arábia Saudita em janeiro, quando muçulmanos de todo o mundo protestaram contra a publicação na imprensa européia de caricaturas do profeta Maomé consideradas ofensivas.

Sua campanha inclui um boicote econômico à Dinamarca, onde as caricaturas foram divulgadas inicialmente, e um projeto para produzir anúncios de televisão sobre o profeta a ser veiculados na Europa. Estudantes estão coletando 1 milhão de assinatura para pressionar a Embaixada da Dinamarca a tornar ilegal insultos ao Islã e seu profeta. Empresários oferecem até US$ 50 mil por ensaios sobre o profeta. Até o final do mês, ativistas do grupo vão aos vizinhos Kuwait e Bahrein mobilizar os islamitas.

Para Muhammad Kawther, líder dos Jovens Reunidos por uma Renascença Islâmica, a crise das caricaturas do profeta foi um presente dos céus. Seu grupo estava concluindo seu primeiro projeto, um CD apelando aos jovens para que cumpram a obrigação religiosa de rezar cinco vezes por dia virados em direção a Meca, quando a crise veio lhes dar um impulso extra.

Mais impressionante, na opinião do jornal americano The Washington Post, é como a religião consegue mobilizar os sauditas como a política não consegue.

Já o porta-voz do Comitê Internacional pela Defesa do Último Profeta entende que este ativismo religioso pacífico pode ajudar a isolar os jihadistas, fundamentalistas muçulmanos engajados numa luta terrorista contra quem consideram infiéis e inimigos do islamismo. O grupo mais notório é a rede Al Caeda,, que inspirou ações terroristas em diversos paises.

Outro fator importante na equação do islamismo político foi a ascensão dos fundamentalistas nas eleições na Palestina, no Iraque, no Irã, no Marrocos e no Egito. Eles sentem-se mais fortes mas ao mesmo tempo conquistam espaço para atuar politicamente. Isto reduz a sedução da luta armada. No poder, precisam oferecer serviços e maior bem-estar social à população.

Animação mostra como era a Chancelaria de Hitler

Mais de 60 anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, a Chancelaria de Hitler ressurge como realidade virtual. Um novo filme de animação mostra como era o centro do poder nazista.

A imagem mostra a fachada do prédio, atravessa portas secretas e desvenda com uma panorâmica um suntuoso jardim interno de onde se vê o Führer olhando pela janela.

Enquanto Hitler estava no poder, ninguém se atreveria a entrar no prédio projetado por Albert Speer, arquiteto privado do Führer sem autorização expressa. Agora o filme permite uma visita virtual ao ventre da besta názi.

Tratando-se de Hitler, da Alemanha e do nazismo, o filme provocou debates e acusações de estimular o neonazismo para a revolta de Christoph Neubauer, que trabalhou no projeto nos últimos três anos. “Não tenho absolutamente nada a ver com os neonazistas”, protestou Neubauer, que mora há quatro anos em Pretória, capital da África do Sul, namora uma negra sul-africana e afirma ter ficado “totalmente surpreso” com a reação na Alemanha.

Se o escritório de Hitler era luxuoso, as salas reservadas aos burocratas eram sombrias e frias. Tudo foi calculado para impressionar os visitantes e demonstrar o poder do nazismo. “A longa jornada do foyer até o hall de entrada vai certamente mostrar a grandeza e o poder do Reich”, escreveu Speer em suas memórias, lembrando que Hitler sentia um prazer sádico ao intimidar os outros.

O filme destrói um dos mitos da propaganda nazista. A Chancelaria de Hitler não foi erguida em um ano. Speer trabalhou quase dois anos até concluir a obra.

Guerra das enciclopédias

A Encyclopaedia Britannica luta para preservar sua reputação.

Um ensaio publicado na mais prestigiada revista científica do mundo, a Nature, de Londres, considera-a pouco melhor do que a Wikipedia, uma enciclopédia online com textos escritos pelos usuário.

A Britannica nasceu em Edimburgo, capital da Escócia, em 1768. Construiu uma sólida reputação de só utilizar acadêmicos e pesquisas competentes para escrever em suas página.

Já a Wikipedia é um fenômeno da revolução nas comunicações na era da informática. Surgiu há cinco anos na Califórnia e qualquer um pode contribuir.

Mas o ensaio publicado na revista Nature não faz muita diferença entre as duas: “A Wikipedia chega perto da Britannica em termos da acurácia de seus verbetes sobre ciência”.

Em carta aberta, a Britannica alega que “o estudo da Nature foi feito de maneira tão falha que suas conclusões são erradas e complemente sem validade”. Mas a revista não está disposta a se retratar.

De 42 verbetes examinados em cada publicação, a pesquisa encontrou 162 problemas na Wikipedia e 123 na Britannica. A revista alega que a grafia correta em inglês da cidade onde Pitágoras viveu parte de sua vida é Crotona e não Crotone.

Na Britannica, uma nuvem é formada por “supersaturação”. Para a Nature, simplesmente por saturação.

Sobre gorduras, a Wikipedia não teve problemas. Mas a Britannica não fala em saturadas e não-saturadas, e usa segundo a Nature uma “nomenclatura desatualizada”.

O criador da Wikipedia, Jimmy Wales, festejou o sucesso mas admitiu que “dificilmente é verdade que somos melhor que a Britannica”, acrescentando que “em História e ciênciais sociais somos muito mais fracos”. Ele gostou dos verbetes analisados terem sido sobre ciências naturais.

Pobreza argentina cai ao nível anterior à crise

Pela primeira vez desde o fim da paridade fixa dólar-peso em dezembro de 2001, a Argentina apresenta indicadores sociais melhores do que antes. A pobreza, que atingiu um índice recorde de 57,5% da população em outubro de 2002, caiu para 33,8% no final de 2005. O nível de indigência baixou de 13,8% para 12,2% no ano passado. Mas o recuo é mais lento do que o crescimento da economia, que foi de 9,2% em 2005.

No segundo semestre de 2001, antes do fim da conversibilidade dólar-peso, a pobreza atingia a 38,2% dos argentinos e 13,6% viviam na miséria absoluta.

Pelos dados do Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec), com o crescimento econômico, pouco mais de um milhão de argentinos deixaram de ser pobres e 325 mil saíram da indigência. Mas ainda há 12,7 milhões de pobres, sendo 4,6 milhões indigentes.

A queda foi mais pronunciada na Grande Buenos Aires, de 38% para 30,9%. Além do aumento do emprego, houve em quase todo o pais uma recuperação dos salários e o aumento das horas trabalhadas. . Mas a queda na pobreza não acompanha o ritmo do crescimento econômico, assinala o chefe de pesquisas do Instituto para o Desenvolvimento Social Argentino (Idesa), Jorge Colina: “Em 2005, consolidou-se a recuperação da economia e se alcançaram os níveis de 1998 mas a pobreza continua acima dos índices registrados no melhor momento dos anos 90”.

Na sua opinião, isto se explica pela precarização do mercado de trabalho. A crise destruiu muitos empregos, substituídos por relações de trabalho informais, acrescenta Colina: “A saída da desvalorização se apoiou numa queda muito forte dos salários reais, especialmente dos trabalhadores sem contrato formal, que são a maioria nos lares mais pobres”.

Em 2001, a diferença entre os salários de contratados e não-contratados era de 35%. Agora é de 50%. Houve um forte crescimento da informalidade, que em 2001 representava apenas 12% do trabalho na economia argentina e hoje subiu para 35%.

Outro problema é que quem está saindo da pobreza é a classe média empobrecida pela crise. As camadas mais pobres estão presas num ciclo de pobreza associado ao desemprego e à informalidade nas relações trabalhistas.

sábado, 25 de março de 2006

Bielorrússia ataca manifestantes; EUA e UE planejam sanções

A polícia de choque da Bielorrússia dispersou à força neste sábado uma marcha de protesto denunciando fraude na reeleição, no domingo, 19 de março, do presidente Alexander Lukachenko para um terceiro mandato consecutivo. Os manifestantes, que exigem a realização de nova eleição, foram impedidos de chegar à praça central de Minsk, a capital do país. Um dos principais líderes da oposição, Alexander Kazulin, quatro colocado na eleição com 2,3% dos votos, foi preso.

Os Estados Unidos e a União Européia planejam adotar sanções contra o que consideram o último ditador da Europa. Isto irritará a Rússia, aceitos como legítima a eleição presidencial bielorrussa.

As sanções devem incluir a proibição de viagens de líderes e representantes bielorrussos, além de restrições financeiras. Os EUA já adotavam sanções contra menos de uma dúzia de dirigentes do país. Ampliarão a lista para mais de 50, informou o Departamento de Estado.

Na madrugada de sexta-feira, o governo desmontou um acampamento de oposicionistas no centro de Minsk. Centenas de pessoas foram presas. Estão amontoadas em pequenas celas onde lhes negam água e comida, não têm acesso a toalete, são obrigadas a ficar horas ao ar livre a temperaturas negativas e são submetidas a julgamentos sumários, sem direito à defesa.

Rússia ajudou Saddam Hussein na guerra contra EUA

Espiões russos infiltrados no sistema de defesa dos Estados Unidos passaram informações sobre movimento de tropas e planos de ataque para o ditador Saddam Hussein antes e durante a invasão americana ao Iraque iniciada em 20 de março de 2003, revela um documento divulgado na sexta-feira pelo Departamento da Defesa dos EUA.

Saddam foi alertado, por exemplo, de que os americanos não ocupariam cidades do interior do país, marchando diretamente para Bagdá. Os dados foram obtidos no comando militar americano em Doha, no Catar, e comunicados ao governo iraquiano pelo embaixador russo no Iraque, como mostra um documento iraquiano de 25 de março de 2003.

"Isto não faz nenhum sentido", protestou Maria Zakharova, porta-voz russa nas Nações Unidas, negando as alegações.

Mais grave ainda, em 2 de abril, os russos avisaram que os EUA estavam concentrando forças, 12 mil soldados e mil veículos, perto da cidade de Carbalá para isolar Bagdá. De fato, a 3 Divisão do Exército dos EUA estava atravessando uma estreita faixa de terra onde esperava feroz resistência da Guarda Republicana do Iraque e temia ataques com armas químicas e biológicas. Os comandantes iraquianos, entre eles Kusay Hussein, filho de Saddam, não deram importância.

Durante a Guerra Fria, o Iraque era aliado da União Soviética. Mas quando Saddam Hussein o Irã em 22 de agosto de 1980, recebeu o apoio dos EUA e de seus aliados ocidentais, da URSS e do mundo árabe na luta contra a república islâmica fundada no ano anterior pelo aiatolá Ruhollah Khomeini A Guerra Irã-Iraque durou oito anos e matou mais de 1 milhão de muçulmanos.

Saddam tornou-se inimigo dos EUA ao ocupar o Kuwait em 2 de agosto de 1990, depois de exigir sem sucesso o perdão de dívidas de guerra e maior parcela do petróleo de um campo comum entre os dois países. De 17 de janeiro a 28 de fevereiro de 1991, uma aliança de 28 países articulada pelo então presidente George Bush, sênior, derrotou o Iraque e libertou o Kuwait numa guerra aprovada pela ONU com voto a favor da URSS.

Como imposição do cessar-fogo, o Iraque ficou proibido de ter armas de destruição em massa (nucleares, químicas e biológicas) e mísseis de médio e longo alcances. Submetido a sanções da ONU, nunca ficou claro se havia mesmo se livrado das armas proibidas. Saddam expulsou os inspetores da ONU várias vezes, a última em dezembro de 1998, depois de um bombardeio americano ao Iraque.

Em 8 de novembro de 2002, preparando a invasão, os EUA conseguiram a aprovação do Conselho de Segurança da ONU para a retomada das inspeções. Só em dezembro de 2002, sob forte pressão americana, Saddam declarou que não tinha mas armas de destruição em massa nem programas para desenvolvê-las.

Naquela época, os EUA já tinham tomado a decisão de derrubá-lo mas a França, a Rússia e a China, três potências com assento permanente no CS, ameaçaram vetar o uso da força. Os EUA ignoraram a ONU, abalando o prestígio da instituição. Pelo menos um país que votaria contra a guerra, a Alemanha, forneceu informações que ajudaram os EUA. Agora sabe-se que a Rússia tentou salvar seu antigo aliado e parceiro comercial.

"Não vejo nenhuma aberração", comentou o coronel Kevin Woods, diretor do Projeto Perspectivas Iraquianas, um documento de 210 páginas. "É uma consequência do engajamento econômico. Não vejo razão para duvidar do documento iraquiano".

Já Michael O'Hanlon, especialista em defesa da Brookings Institution, considerou uma traição russa e disse que os EUA devem pedir explicações oficiais ao Kremlin.

Americanos compram menos casas novas mas venda de bens duráveis supera expectativas

A venda de casas novas nos Estados Unidos caiu 10,5% em fevereiro para o nível mais baixo desde maio de 2003, estimou ontem o Departamento do Comércio. Foi uma queda bem maior que esperado. Mas a demanda por aviões civis fez com as ordens de bens industriais duráveis subisse 2,6%, acima do 1,5% previsto pelos economistas.

Se há uma bolha especulativa no mercado imobiliário das grandes cidades americanas ela está sendo desinflada. Isto evita os riscos do choque produzido por um estouro. Reduz também a pressão inflacionária. Assim o Federal Reserve Board (Fed), o banco central americano, tem uma razão a menos para elevar a taxa básica de juros dos EUA, que tende a continuar subindo dos atuais 4,5% ao ano para 5% ou 5,5%. Já o aumento na demanda de bens duráveis age em sentido contrário.

A expectativa do mercado é de um aumento de 0,25 ponto na reunião do Comitê de Mercado Aberto do Fed nos dias 27 e 28 de março. Será a décima-quarta alta consecutiva desde 30 de junho de 2004. Os analistas se perguntam até onde os juros americanos continuarão subindo. Com esta expectativa de alta, o dólar subiu hoje diante do iene e do euro.

A alta dos juros nos EUA sempre atrai capital para a economia americana com prejuízo dos chamados países emergentes, como o Brasil, a Argentina, a Rússia, onde o risco é maior. É a chamada fuga para a qualidade, comum em momentos de crise, o que não é o caso atualmente.

sexta-feira, 24 de março de 2006

Argentina faz vigília para lembrar golpe que provocou 30 mil mortes

A Associação das Mães da Praça de Maio liderou uma vigília de 100 mil pessoas para marcar os 30 anos do golpe militar que, em 24 de março de 1976, derrubou o governo de María Estela Martínez de Perón, a Isabelita, e impôs uma ditadura sanguinária e um terrorismo de Estado em que 30 mil pessoas foram mortas ou simplesmente desapareceram.

Além de massacrar seu próprio povo, jogando cadáveres no mar e no Rio da Prata, a ditadura militar argentina invadiu as Ilhas Malvinas, entrou em guerra com a Grã-Bretanha e sofreu uma derrota humilhante, em 1982. No ano seguinte, o poder foi devolvido aos civis.

O presidente Néstor Kirchner propôs na quinta-feira uma grande revisão histórica “sem ódios nem vinganças” para reconciliar a sociedade argentina. Na sexta-feira, 24 de março, acusou setores da sociedade civil, como a imprensa, a Igreja e os políticos de cumplicidade "na mais cruel experiência antidemocrática da História argentina".

Aao participar de solenidade no Colégio Militar da Nação, em Buenos Aires, Kirchner defendeu a anulação do decreto do presidente Carlos Menem que indultou os militares e descerrou uma placa em homenagem aos desaparecidos.

Isabelita, última mulher do general Juan Domingo Perón, era uma cantora de cabaré que o caudilho conheceu no exílio, no Panamá, depois do sangrento golpe militar de 1955. Quando voltou à Argentina, em 1973, Perón foi eleito presidente pela terceira vez. Isabelita era sua vice. Quando Perón morreu, em 1º de julho de 1974, ela assumiu.

No governo Isabelita, repetiu-se o confronto entre peronistas de direita e de esquerda que levara à chamada Batalha de Ezeiza, no dia da volta de Perón do exílio. De um lado, esquerdistas com o grupo guerrilheiro Montoneros; do outro, direitistas como a Aliança Anticomunista Argentina (AAA ou Triple A), comandada pelo ministro do Bem-Estar Social, José López Rega.

Acabou em mais uma tragédia argentina com o golpe liderada pelos comandantes do Exército, general Jorge Rafael Videla, e da Marinha, almirante Emilio Massera. Sob o comando de Massera, ocorreram algumas das maiores atrocidades, na famigerada Escola de Mecânica de Armada, no centro de Buenos Aires.

Pelo relatório da Comissão de Investigação sobre o Desaparecimento de Pessoas, criada pelo presidente Raúl Alfonsín (1983-89) depois do fim da ditadura, 62% dos desaparecidos foram seqüestrados em suas casas, enquanto 25% foram pegos na rua em plena luz do dia, inclusive no centro da capital argentina.

Em fato inédito na América Latina, os nove comandantes das três juntas militares que aterrorizaram a Argentina de 1976 a 1982 foram levados a julgamento e condenados. Sob pressão de ameaças de golpe, o governo Alfonsín aprovou as leis Ponto Final e de Obediência Devida. Não haveria julgamento e os crimes tinham sido cometidos por ordens superiores, então o julgamento dos comandantes seria suficiente.

Depois de mais uma rebelião militar, o presidente Menem concedeu indulto aos militares. Kirchner, no poder desde 2003, conseguiu derrubar as duas leis na Justiça. Agora quer anular o indulto para que todos os casos possam ser reabertos. Há pressões também neste aniversário de 30 anos do golpe para que todos os arquivos sobre a ditadura militar sejam abertos ao pública.

A Argentina luta para exorcizar seus fantasmas do passado porque há esqueletos demais que não estão nem no armário.

Cessar-fogo permanente da ETA foi negociado

O “cessar-fogo permanente” declarado há dois dias pelo grupo ultranacionalista basco ETA (Euskadi ta Askatasuna, que significa Pátria Basca e Liberdade), que entrou em vigor à zero hora desta sexta-feira, foi negociado com o governo da Espanha em Genebra, na Suíça, e Oslo, na Noruega. O governo espanhol exige garantias de que a ETA abandonou definitivamente a luta armada para iniciar um diálogo político.

Para o primeiro-ministro socialista José Luis Rodríguez Zapatero, o cessar-fogo permanente é o começo do fim da ETA. Cerca de 80% dos espanhóis apóiam a abertura de negociações agora que a ETA anunciou uma trégua permanente.

Num segundo comunicado, o grupo terrorista pediu que os governos da Espanha e da França recebam positivamente o cessar-fogo e iniciem um processo de paz. Mas as negociações começaram muito antes.

Em agosto de 2004, quatro meses depois de chegar ao poder, o primeiro-ministro socialista José Luis Rodríguez Zapatero recebeu uma carta da ETA enviada ao Palácio de La Moncloa. A partir daí, houve encontros em meados de 2005.

A decisão de abandonar a luta armada teria sido tomada em dezembro. Mesmo que o partido ligado à ETA, Batasuna, esteja na ilegalidade no momento, numa assembléia realizada no velódromo de Anoeta de San Sebastián, seu líder Arnaldo Otegi anunciou a decisão de lutar pacificamente pela independência do Pais Basco (Euskal Herria), reunindo quatro províncias da Espanha e três da França. Antes disso, houve anos três anos de contato entre os ultranacionalistas e os socialistas bascos.

Como aconteceu na Irlanda do Norte, o Sinn Féin, partido político do Exército Republicano Irlandês, que lutava contra o domínio britânico, aproximou-se primeiro do Partido Trabalhista e Social-Democrata e só depois dos partidos ingleses. Otegi iniciou o dialogo com Jesús Eguiguren, líder do Partido Socialista Basco.

Desde que começou sua luta contra a ditadura do generalísso Francisco Franco há 38 anos, a ETA declarou vários cessar-fogo, o primeiro em 1976, outro durante a Olimpíada de Barcelona, em 1992, e mais recentemente em 1998. Mas é a primeira vez que anuncia uma trégua definitiva.

Antidepressivos curam metade dos pacientes

Os medicamentos contra a depressão funcionam para 50% dos pacientes. A outra metade continua sentindo sintomas como tristeza, falta de energia e desesperança mesmo quando recebe o melhor tratamento possível. A conclusão é da maior pesquisa sobre depressão já realizada pelo governo dos Estados Unidos, com um custo de US$ 35 milhões.

Pelo menos 15 milhões de americanos sofrem de depressão. Eles recebem 189 milhões de receitas e gastam US$ 83 bilhões por ano no tratamento da doença, considerada responsável pela maioria dos 30 mil suicídios registrados anualmente nos EUA.

As conclusões são “ilustrativas e desconcertantes”, comentou David Rubinow, chefe do Departamento de Psiquiatria da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill. Indicam que os mecanismos cerebrais que levam à depressão são mais complexos do que um simples desequilíbrio bioquímico.

Mas o psiquiatra Augustus John Rush, do Centro Médico da Universidade do Texas em Dallas, um dos organizadores do estudo, considera “o sucesso de 50% um resultado extraordinariamente bom, dada a natureza destas desordens”. Destaca que “essas pessoas tinham em média 16 anos de depressão. Dois terços tinham outra condição psiquiátrica e dois terços tinham outro problema de saúde”.

Cerca de um terço dos pacientes curam-se da depressão no primeiro tratamento. Com uma segunda tentativa, metade obtém sucesso, geralmente usando outra medicação.

Além de saber se os pacientes estavam sendo bem tratados, o estudo perguntou se acreditam que podem vencer a depressão. Tentou ainda examinar complicações e problemas crônicos que não costumam merecer a atenção das pesquisas patrocinadas pela indústria farmacêutica.

Nos últimos dois anos, houve um debate sobre abuso de medicamentos e de um possível risco de comportamento suicida associado a antidepressivos.

quinta-feira, 23 de março de 2006

GM vende participação financeira e faz acordo com sindicato para reduzir prejuizo

A General Motors, maior fabricante de automóveis do mundo, dá mais um passo importante para evitar a concordata.

Um dia depois de fazer um acordo com a fábrica de autopeças Delphi e com o sindicato Union Auto Workers para que 131 mil trabalhadores se aposentem voluntariamente recebendo indenizações de US$ 35 mil a US$ 140 mil, a financeira GMAC vendeu 78% de sua participação numa empresa de financiamento da casa própria para um consórcio liderado por Kohlberg Kravis Roberts, o banco de investimentos Goldman Sachs e outros investidores.

Contando a dívida bilionária que o consório está assumindo, o valor do negócio chega a US$ 9 bilhões, dinheiro necessário para reduzir o impacto do prejuízo de US$ 10,6 bilhões que a GM teve no ano passado. Mas o setor de financiamento da casa própria é apenas uma pequena fração das atividades da GMAC.

Para reduzir mais as perdas, a GM tenta agora vender uma participação no resto da GMAC, que ontem recebeu da agência de classificação de risco Fitch o segundo mais baixo grau de investimento. As operações da empresa nos EUA estavam dando um prejuízo diário de US$ 25 milhões.

Kirchner ataca França com dureza

No estilo agressivo que o caracteriza, o presidente da Argentina, Nestor Kirchner, deu uma dura resposta à França, que criticou a estatização da companhia de águas e esgotos Aguas Argentinas. A companhia estava sob o controle do grupo francês Suez por força de um contrato de 30 anos, anulado na quarta-feira, 21 de março, pelo presidente argentino. A Suez ameaçara romper o contrato por causa do congelamento de tarifas imposto por Kirchner.

A França pedira garantias para a saída da Suez da Argentina.

“Não estou disposto, para que nos visite um presidente, que se permita a contaminação das águas”, atacou Kirchner. O presidente francês, Jacques Chirac, tem viagem programa para a América Latina em abril. Ele vem ao Brasil, vai ao Uruguai e ao Chile mas não incluiu a Argentina no roteiro.

O governo argentino aumentou o cerco sobre a Suez. O defensor público Eduardo Mondino pediu à Justiça o bloqueio e indisponibilidade dos bens, pesos, moedas estrangeiras, bônus, ações e qualquer outra coisa do grupo francês depositados na Argentina. E o procurador Carlos Guillermo Daneri pediu à Justiça Federal que impeça a saída do pais dos diretores da empresas por causa de uma denúncia por “altíssimo nível de nitratos”, feita pelo prefeito de Lomas de Zamora, na Grande Buenos Aires.

“Não estou disposto a permitir que milhões de argentinos fiquem sem água, como se fosse inatingível”, justificou-se o presidente Kirchner. “Queremos que venha muito investimento mas precisamos resguardar os direitos da população.”

Já o defensor público disse ter agido para “salvaguardar os interesses dos cidadãos prejudicados por Aguas Argentinas, tanto no processo iniciado por falta de pressão da água como as denúncias de cobrança irregular e por serviços não prestados, e danos a propriedades”.

A bancada kirchnerista na Câmara de Deputados manifestou a intenção de aprovar até quarta-feira, 29 de março, os decretos de rescisão do contrato das Aguas Argentinas e da criação da nova companhia estatal de águas e esgotos para lhes dar força de lei.

Adeus Amazônia?

Mais de 40% da maior floresta tropical do planeta, e a metade da Floresta Amazônica brasileira, podem desaparecer até 2050, se for mantido o ritmo atual de ocupação do solo. Não basta a criação pelo governo de áreas de preservação ambiental porque, na maioria dos casos, a lei não é cumprida. A conclusão é de um estudo de Britaldo Silveira Soares Filho, do Centro de Sensoriamento Remoto da Universidade Federal de Minas Gerais, e Daniel Nepstad, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia e do Centro de Pesquisas Woode Hole, nos Estados Unidos. Está sendo publicada hoje na mais prestigiada revista de divulgação científica, a britânica Nature.

Nas simulações feitas com um novo modelo computacional, se foram mantidas as atuais políticas públicas e atividades privadas, a floresta sofrerá uma redução drástica, de 5,4 milhões para 3,2 milhões de quilômetros quadrados. As causas são a expansão da fronteira agrícola, da exploração de madeira e da extração mineral. O impacto ambiental de tremenda perda seria catastrófico, sobretudo para o aquecimento da Terra. A quantidade de mata perdida equivaleria a 32 milhões de toneladas de carbono ou quatro anos de emissões do mundo inteiro.

A alternativa é o que a pesquisa chama de “governança”. Ainda existe grande discussão em torno do conceito, que pode incluir certa ingerência internacional em nome da preservação de um “patrimônio da humanidade”. Para Nepstad, é apenas a aplicação de políticas públicas, com respeito da reserva legal pelos agricultores, construção e pavimentação de novas rodovias com critérios ecológicos, e criação de novas unidades de conservação.

“Simplesmente implentando a lei ambiental seria possível evitar o desmatamento de 1 milhão de km2”, afirma Nepstad em entrevista à Folha de S. Paulo. “Todo o Protocolo de Quioto”, que visa a reduzir a emissão dos gases que provocam o efeito estuta, “prevê a redução de duas toneladas. Cumprindo a lei ambiental, evita a emissão de 17 bilhões. É uma oportunidade gigantesca para o Brasil”.

O pais poderia usar os serviços ambientais que sua natureza prodigiosa presta como instrumento de barganha em negociações internacionais. Mas para muita gente dentro do governo e na própria Amazônia, a floresta ainda é vista como símbolo de atraso e de subdesenvolvimento.

Se a sociedade internacional financiar a aplicação de políticas públicas em nome da governança global, certamente haverá ingerência. Isto provocará uma reação nacionalista, uma aliança de setores temorosos da internacionalização da Amazônia, hoje a maior ameaça ao pais na opinião da ala mais nacionalista das Forças Armadas, e das elites locais que se beneficiam com a ocupação da terra, a mineração e a exploração de madeira.

Em outro estudo, divulgado há quatro anos na revista Science, Nepstad alertava para o risco da queda da umidade relativa do ar na Amazônia. Como a camada fértil do solo é pequena, a floresta se auto-alimenta e se auto-regenera. Se a queda na umidade relativa do ar secar o mato baixo que cresce entre as árvores mais altas e frondosas, há sério risco de grandes queimadas. Todo o ecossistema seria afetado.

A idéia aqui é que não basta preservar bolsões da Floresta Amazônica. Ela não manteria os níveis de precipitação e umidade relativa, tornando-se impossível preserva-la com sua exuberância atual.

quarta-feira, 22 de março de 2006

ETA declara cessar-fogo na Espanha

O grupo nacionalista ETA (Euskadi Ta Askatasuna, que significa Pátria Basca e Liberdade) anunciou nesta quarta-feira, 22 de março, em “cessar-fogo permanente” a partir de sexta-feira na sua luta para tornar o país basco (Euzkal Herria) independente da Espanha, encerrando 38 anos de luta armada em que morreram mais de 800 pessoas. Seus principais alvos eram militares, policiais, juízes e políticos. "A superação do conflito aqui e agora é possível", com "diálogo, negociação e acordo", declarou a ETA em comunicado lido numa gravação de TV e publicado no jornal basco Gara.

Em declaração ao parlamento, o primeiro-ministro espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, prometeu “cautela e prudência” ao negociar com os nacionalistas que sonham em criar um país independente reunindo as quatro províncias bascas da Espanha com as três da França.

A ETA é um típico movimento de libertação nacional dos anos 60. Começou lutando contra a ditadura do generalíssimo Francisco Franco, que sufocava os nacionalismos. É comparável ao Exército Republicano Irlandês (IRA), que lutava contra o domínio britânico sobre a Irlanda do Norte mas aderiu ao processo político e entregou as armas no ano passado, 11 anos depois do primeiro cessar-fogo. Se o movimento nacionalista, católico e republicano irlandês conseguiu mais avanços sem o uso da força, o mesmo agora vale para a ETA e seu partido Batasuna, atualmente na ilegalidade porque apoiava a luta armada.

Nos dois casos, pesou a influência do terrorismo internacional, que tirou a legitimidade da luta armada. Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, secou o dinheiro que era arrecadado para o IRA nos pubs irlandeses de Nova Iorque, Chicago e outras cidades americanas.

Da mesma forma, quando Madri foi atacada em 11 de março de 2004, que mataram 191 pessoas três dias antes das eleições na Espanha, o governo conservador, que apoiou a invasão do Iraque, tentou atribuir a responsabilidade à ETA. Só por isso os socialistas liderados por Rodríguez Zapatero chegaram à vitória.

Mas criou-se na Espanha um clima antiterrorismo que condenou definitivamente a luta armada da ETA. Não havia mais apoio político o uso da força.

Rússia e China fazem parceria energética

A Rússia se comprometeu a construir dois gasodutos de US$ 10 bilhões para a China e a se tornar o maior fornecedor de gás natural para os chineses dentro de uma década, selando uma parceria estratégica. O acordo foi assinado durante uma visita do presidente russo, Vladimir Putin, a Beijim. Provoca receio de que falta gás para a Europa, hoje a maior consumidora do gás russo.

Pelo acordo, a Rússia, que tem as maiores reservas de gás natural do mundo, fornecerá 60 a 80 bilhões de metros cúbicos de gás por aos chineses e outros povos ásiaticos, duas vezes mais do que o atual consumo da China, cada vez mais sedenta de energia para alimentar seu crescimento econômico de 9,5% ao ano.

Hoje a Rússia não fornece gás à China. As duas antigas potências comunistas romperam em 1964 e estiveram à beira de uma guerra, com vários choques de fronteira em 1969, o que impediu uma aliança energética, com construção de gasodutos e oleodutos.

Só depois do fim da União Soviética houve uma reaproximação entre os dois paises movida por interesses econômicos e estratégicos, como contrabalançar o poderio americanps. Mas ambos têm fortes relações econômicas e comerciais com os EUA. Fecham uma aliança como os EUA fizeram há pouco com a Índia, aumentando seu arco de alianças sem necessariamente hostilizar os americanos.

A China e a Rússia têm poder de veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas e no momento se opõem à adoção de sanções contra o programa nuclear iraquiano, suspeito de desenvolver bombas atômicas, entre outras razões por temer problemas no mercado de petróleo.

A Agência Internacional de Energia calcula que a Rússia precisa investir US$ 11 bilhões por ano para atender à demanda crescente por gás.

Liderança de Humala no Peru assusta mercado

O candidato ultranacionalista Ollanta Humala assumiu a liderança nas pesquisas para as eleições presidenciais de 9 de abril no Peru. Na sondagem da Companhia Peruana de Pesquisas de Mercado, Humala teve 31,6% das preferências, superando a candidata da direita, Lourdes Flores, com 29,1%. Ele ameaça taxar agressivamente as mineradoras e reestatizar a economia.

Na pesquisa sobre o segundo turno, no entanto, Flores aparece com 41,5% contra 36,6% de Humala. Nenhum partido teria maioria no Congresso, o que obrigaria o futuro presidente a fazer alianças.

Mesmo assim, a Bolsa de Lima caiu 4%, o dólar subiu e o risco-país do Peru aumentou 22%. O atual presidente, Alejando Toledo, pediu calma ao mercado.

Humala liderou uma tentativa de golpe em 2000 contra o então presidente Alberto Fujimori. Seguindo o exemplo do presidente venezuelano Hugo Chávez, outro golpista que chegou ao poder, o coronel Humala lançou na política com um forte discurso antiliberal, anticapitalista e contra o atual sistema político-partidário.

Como Chávez e o novo presidente da Bolívia, Evo Morales, Humala acredita no poder do Estado como motor do desenvolvimento e promoter de menor desigualdade social. A diferença é que o Peru não tem o petróleo da Venezuela para financiar programas sociais de inspiração populista.

Anteontem, o candidato a vice-presidente na chapa de Humala, Gonzalo García, defendeu a estatização de setores estratégicos, especialmente de energia.

terça-feira, 21 de março de 2006

Novo presidente da Bolívia “daria a vida pela nacionalização dos recursos naturais”

Até 12 de julho, o novo governo da Bolívia deve definir os termos da “nacionalização dos recursos naturais”, uma das promessas de campanha do presidente Evo Morales. A Petrobrás, maior investidor e maior empresa em atividade no pais, aguarda a definição da nova política energética boliviana para negociar.

Ontem, em Camiri, antiga capital do petróleo boliviana, que fica no Departamento de Santa Cruz, Morales, líder do Movimento ao Socialismo e do sindicato dos produtores de folha de coca, declarou que “daria minha vida pela nacionalização dos recursos naturais do pais”.

A questão foi debatida nesta terça-feira, 21 de março, no Centro Brasileiro de Relações Internacionais, no Rio. O Novo Governo Boliviano: implicações para as relações bilaterais na área energética fez parte de um ciclo de palestras sobre as eleições na América Latina.

Para o diplomata Pedro Miguel da Costa e Silva, especialista em bolívia e assessor de política externa da Presidência da República, “a eleição de Evo Morales é produto de uma crise econômica e social” que atinge o país pobre da América do Sul desde a década de 90.

Depois do ciclo de golpes e ditaduras militares, mais de 190 em 160 anos de história independente, a Bolívia elegeu em 1982 Hernán Siles Suazo. Seu governo foi marcado por uma hiperinflação que chegou a 25.000% ao ano. Em 1985, começou uma abertura econômica com adoção de políticas neoliberais. Nos anos 90, esse processo levou a uma crise, com déficit fiscal.

SENTIMENTO DE ESPOLIAÇÃO HISTÓRICA
Um dos maiores problemas é que a economia boliviana sempre esteve baseada num produto só, primeiro a prata, depois o estanho e mais recentemente o gás natural, com mercado interno pequeno, contrabando e economia informal. Há um forte sentimento de que o pais foi historicamente espoliado, de que a maioria nunca se beneficiou das riquezas nacionais, o que aumenta as reivindicações de estatização dos setores de petróleo e gás.

Com a crise fiscal, “desde 2003, o governo não consegue pagar suas contas”, disse Costa e Silva. Tudo isto agrava os grandes problemas sociais do pais, a desigualdade e a pobreza, que atingem sobretudo a maioria indígena.

“Desde os anos 80, entraram US$ 7 bilhões em investimentos externos”, constata o assessor presidencial. Mas a percepção generalizada do povo boliviano é que a abertura econômica não deu certo, o que aumenta a demanda por um modelo nacionalista estatizante. Isto e a desmoralização dos partidos tradicionais, que se alternavam no poder para defender seus próprios interesses, contribuíram para a vitória de Morales, presidente do Movimento ao Socialismo e do sindicato dos produtores de folha de coca, o que o coloca em conflito com os Estados Unidos.

QUEDA DE PRESIDENTES
A crise gerou um questionamento do Estado e uma onda de manifestações populares com bloqueio de ruas e estradas que só ajudaram a desnudar a impotência das autoridades constituídas, agravando a crise institucional. Estes protestos derrubaram o presidente Gonzalo Sánchez de Lozada, em 17 de outubro de 2003, na chamada Guerra do Gás.

A Bolívia perdeu sua saída para o mar para o Chile na Guerra do Pacífico (1879-83). Quando o governo Sánchez de Lozada fez um acordo para vender gás para os EUA através de um porto chileno, a hipersensibilidade e o senso de injustiça histórica dos bolivianos chegou ao limite.

Costa e Silva lembrou que o nacionalismo econômico boliviano nasceu no setor de petróleo, com a nacionalização da Standard Oil durante a Guerra do Chaco (1932-35), contra o Paraguai, quando a Bolívia perdeu mais uma pedaço de seu território. Alem da saída para o Pacífico, perdera o Acre para o Brasil nas guerras do Acre (1899-1902).

Com a queda de Sánchez de Lozada, o jornalista, historiador e empresário de comunicação Carlos Mesa assumiu a presidência para completar o mandato. Mas o déficit fiscal de 8,5% do produto interno bruto de US$ 8 bilhões não lhe deu margem de manobra.

O diplomata observou ainda que a energia mudou as relações bilaterais Brasil-Bolívia. Hoje o Brasil é o maior exportador, maior importador e maior investidor na economia boliviana. A Petrobrás é a empresa mais importante do pais.

Desde a queda de Sánchez de Lozada, há uma instabilidade política permanente. O Brasil apóia Morales e espera a organização do governo e a definição de políticas. Este processo pode ser lento porque um dos compromissos de Morales foi convocar uma Assembléia Constituinte para refundar a Bolívia.

Para aprovar a Constituinte, o novo presidente cedeu na questão da autonomia regional. Há uma perigosa polarização no pais. Os departamentos do Leste e do Sul, mais ricos, defendem o modelo neoliberal, em contraposição aos grupos indígenas do Altiplano, que exigem maior presença do Estado.

Para não concentrar toda a agenda bilateral no gás, o Brasil colabora no setor agrícola, especialmente na sojicultura, em obras de infra-estrutura e no desenvolvimento da tecnologia para aproveitar o gás. Mas prioridade é energia e aí entra a Petrobrás.

PETROBRAS É MAIOR EMPRESA DO PAÍS
Quando Brasil e Bolívia fizeram um acordo para construir um gasoduto, o objetivo era mais político, visando à integração latino-americana. Na época, nenhum sócio privado se interessou pela obra, iniciada em 1997. Agora as reservas comprovadas de gás boliviano cresceram muito, para cerca de 50 trilhões de metros cúbicos.

Hoje a Petrobrás explora 56% do gás boliviano e 40% do petróleo, disse o ex-presidente da empresa na Bolívia Décio Fabrício Oddone da Costa, gerando 18% do PIB da Bolívia. “A Petrobrás investiu US$ 1 bilhão e, com seus sócios, US$ 1,5 bilhão. Produz 70% do gás importado pelo Brasil. Gera 24% da arrecadação fiscal boliviana, US$ 535 milhões. Tem 46% das reservas de gás. É responsável por 95% do refino e por 23% da distribuição de derivados do petróleo, por 100% da gasolina e do óleo diesel, e por 20% do investimento externo direto de 1994 a 2004.”

Por tudo isto, o presidente Hugo Banzer, em seu segundo mandato (1997-2001), considerava o papel da Petrobrás dominante e convidou a empresa americana Enron. Com a privatização da companhia Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB), seu controle passou para a Shell e a Enron.

A Petrobrás tinha um contrato com a YPFB em que assumia todo o risco da prospecção de gás e petróleo, afirmou Oddone da Costa: “Se achasse algo, a YPFB poderia ficar com 50%”.

Em 1997, a Petrobrás perdeu o monopólio estatal sobre o petróleo brasileiro. Nesta época, o Brasil ainda tinha um papel econômico secundário na Bolívia. Precisava construir o gasoduto e achar gás para torna-lo viável economicamente. Em dois a três anos, as reservas bolivianas comprovadas se multiplicaram, chegando a quase 50 trilhões de metros cúbicos de gás.

Mas o negócio que tinha começado com governos e baixo investimento, visando sobretudo à integração regional, passava para empresas privadas ou de economia mista, com novos investimentos e integração muito maior. A Shell chegou a comprar gás argentino para vender ao Brasil via gasoduto. De repente, sobrava gás na Bolívia.

Segundo Oddone da Costa, as concorrentes da Petrobrás iniciaram então uma campanha contra a estatal brasileira, alegando que tinha privilégios e pagava poucos impostos. Num pais com hipersensibilidade histórica e miséria crônica, foi um sinal para que o nacionalismo econômico reivindicasse a reestatização dos recursos naturais.

Em 1990, havia apenas um gasoduto Bolívia-Argentina. Hoje há seis conexões para o Brasil, Argentina, Chile e Uruguai, alem do projeto conjunto Brasil-Argentina-Venezuela de um megagasoduto atravessando a Amazônia.

Os críticos deste projeto de iniciativa do presidente venezuelano, Hugo Chávez, alegam que o custo, US$ 30 bilhões, é muito elevado e há riscos ambientais graves. Seria apenas um projeto político. Oddone da costa lembra que quando Brasil e Bolívia decidiram fazer seu gasoduto, não havia gás nem demanda suficiente.

Com a crise energética, a expectativa de que a demanda por petróleo cresça mais rapidamente do que a oferta por causa do extraordinário crescimento da Ásia abre a possibilidade de que o megagasoduto tenha viabilidade econômica, disse Oddone.

Já Costa e Silva concluiu observando que “nada vai funcionar sem estabilidade politica na Bolívia”, o que depende do sucesso do governo Morales. Eleito no primeiro turno com maioria no Congresso, ele tem melhores condições, segundo o diplomata, para fazer um governo estável. Vai depender de seu relacionamento com os movimentos sociais que o levaram ao poder: “Houve uma opção clara pela volta do Estado na economia. Temos de esperar agora pelo início das negociações”.

Mais de 60% dos assalariados na América Latina não têm proteção social

A América Latina e o Caribe formam uma das regiões com maior desigualdade social do mundo: 61% dos assalariados trabalham informalmente, sem garantias sociais, o que afeta 213 milhões de pessoas; e em 40,6% dos lares 88 milhões de pessoas vivem abaixo da linha de pobreza absoluta.

Os dados são da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe das Nações Unidas (Cepal).

Governo do Hamas reúne radicais e tecnocratas

O presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, deve aprovar a formação do novo governo articulado pelo Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), grande vencedor das eleições palestinas. No domingo, 19 de março, o primeiro-ministro designado Ismail Haniya apresentou sua lista de ministros.

Sem o apoio da Fatah, de Abbas, e dos demais partidos da Organização para a Libertação da Palestina, sob pressão dos Estados Unidos e de Israel, o Hamas conta com sua maioria de 74 dos 132 deputados do parlamento palestino para dar sustentação ao governo. Também espera ajuda árabe caso os EUA e a União Européia cortem a ajuda e Israel não transfira o dinheiro dos impostos que arrecada em territórios palestinos, alegando que o Hamas é uma “entidade terrorista”.

No programa do Hamas, “a resistência em todas as suas formas é um direito legítimo”. O movimento nega-se a abandonar a luta armada e reconhecer Israel. Não fez acordo com os partidos da OLP porque não aceita os acordos assinados por Israel. Para os lideres do Hamas, isto equivaleria a reconhecer Israel e a ocupação dos territórios palestinos.

Entre os ministros descritos como mais moderados, está Nasser Edin Chaer, professor de estudos islâmicos educado em Londres. Será vice-primeiro-ministro para a Cisjordânia e ministro da Educação. Acaba de passar cinco meses numa prisão israelense. Cerca de mil ativistas foram detidos antes das eleições palestinas.

O ministro do Interior, encarregado de comandar uma força policial de 70 mil homens, vários deles do Fatah e de outras facções palestinas, será Said Siam, um dos lideres fundamentalistas mais moderados de Gaza.

Omar Abdel Razek, professor da Universidade de An Najah, na Cisjordânia, ocupará o cargo vital de ministro da Fazenda. Ele saiu de uma prisão israelense há seis dias.

Para ministro do Exterior, Haniya indicou Mahmoud Zahar, dirigente mais radical e agressivo. Mas Abbas pode entender que a política externa é uma prerrogativa do presidente. Como principal responsável pelas negociações com Israel, pode negociar um nome mais moderado.

Dos 24 ministros, 10 moram na Faixa de Gaza, entre eles uma mulher, a ministra dos Assuntos da Mulher, e um cristão. Os outros 14 vivem na Cisjordânia, o que vai exigir que o governo se reúna por teleconferência.

Guerra do Iraque completa três sem expectativa de paz

Três anos depois da invasão americana, o Iraque está à beira da guerra civil. Mais de 2.315 mil soldados dos Estados Unidos, 102 britânicos e 38 mil civis iraquianos foram mortos. A cada dia, há cerca de 30 ataques rebeldes e 50 a 60 mortes violentas. O Iraque tornou-se o principal centro do terrorismo suicida no mundo inteiro. A rede terrorista Al Caeda, ausente durante a ditadura de Saddam Hussein (1979-2003), infiltrou-se no país para travar sua guerra contra os EUA. O custo da guerra passa de US$ 250 bilhões e pode chegar a US$ 2 trilhões, dependendo do número de anos.

Neste “infeliz aniversário”, como disse The Wall Street Journal, cerca de 60% dos americanos acham que a guerra não faz sentido. A popularidade do presidente George Walker Bush cai a seus níveis mais baixos.

Saddam Hussein caiu. Os iraquianos elegeram uma Assembléia Constituinte. Têm uma nova Constituição. Em 15 de dezembro, escolheram os deputados do primeiro parlamento democrático do país. Mas até hoje xiitas, sunitas e curdos não chegaram a um consenso para formar um governo de união nacional, visto como melhor alternativa para buscar a paz e especialmente evitar uma guerra civil. A tensão aumentou muito desde o ataque contra a Mesquita Dourada de Samarra, um santuário xiita, em 22 de fevereiro.

Leia mais na minha coluna de política internacional em www.baguete.com.br

segunda-feira, 20 de março de 2006

Último ditador da Europa vence eleição na Bielorrússia mas oposição protesta

Mais de 10 mil pessoas saíram ontem às ruas de Minsk, capital da Bielorrússia, para denunciar fraude na eleição presidencial e pedir a realização de nova eleição. O presidente Alexander Lukachenko foi declarado vencedor com 82,3% contra 6% do candidato da oposição, Alexander Milinkevitch, um resultado que lembra as eleições da era soviética.

Será o terceiro mandato consecutivo de Lukachenko, que chegou ao poder em 1994 nesta país de 10 milhões de habitantes. Desde então, governa com mão de ferro, no estilo stalinista, reprimindo a imprensa e a oposição, espionando a vida dos cidadãos com uma polícia política que ainda tem o nome do velho KGB (Comitê de Defesa do Estado) da extinta União Soviética.

Por ironia do destino, a URSS acabou em Minsk em 8 de dezembro de 1991, quando as três repúblicas que formavam o núcleo eslavo da superpotência comunista Rússia, Ucrânia e Bielorrússia, decidiram se separar. O stalinismo renasceu lá e sobrevive lá até hoje, mesmo depois da morte do ex-ditador iugoslavo Slobodan Milosevic, que já foi apontado como o último stalinista da Europa.

Antes mesmo do anúncio oficial, os oposicionistas se reuniram na Praça Outubro, enfrentando temperaturas abaixo de zero, para denunciar fraude e os métodos autoritários dos 12 anos de governo Lukachenko.

"Conquistaremos a liberdade", bragou Milikevitch. "Nossa luta é sagrada. A liberdade vai vencer. A Bielorrússia vai vencer."

A Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) disse que as eleições não foram limpas. Os EUA declaram o resultado inválido e pediram a realização de novo pleito mas a União Européia limitou-se a protestar diplomaticamente.

sábado, 18 de março de 2006

Manifestações de mais de 500 mil aumentam pressão sobre governo conservador francês

Mais de 500 mil pessoas, 1,5 milhão segundo a Confederação Geral do Trabalho (CGT), protestaram neste sábado nas ruas de pelo menos 160 cidades francesas, na terceira jornada de manifestações contra a lei do primeiro emprego. Cresce a pressão contra o primeiro-ministro conservador Dominique de Villepin, autor da proposta que admite a demissão sem justa causa de jovens no primeiro contrato de trabalho numa tentativa de combater o desemprego.

“Se o governo não ceder diante desta manifestação, convocaremos uma greve geral e manifestações todas as terças e quintas”, desafiou o líder estudantil Philippe Jamin. Os lideres sindicais e estudantis exigem a revogação da lei. Como ela já foi aprovada pelo parlamento, seria um recuo humilhante para o governo, capaz de derrubar o primeiro-ministro, que pretende concorrer à Presidência em 2007.

Em Paris e várias outras cidades, houve violentos choques entre manifestantes e a policia, com fogo, garrafas paus e pedras, lembrando a Revolução dos Estudantes, em maio de 1968, quando foram erguidas barricadas no centro da capital francesa. Pelo menos quatro policiais e 12 manifestantes saíram feridos. Cerca de 60 pessoas foram presas.

“Joguem fora o primeiro emprego! Não joguem fora os jovens!”, gritavam os manifestantes. Os estudantes reclamam da precariedade do contrato do primeiro emprego e os sindicalistas temem que as empresas demitam trabalhadores experientes para contratar jovens sem maiores garantias trabalhistas. Na opinião da professora universitária Nabila Ramdani, “a lei prejudica direitos e a segurança no trabalho, colocando em questão a tradição francesa do emprego seguro”.

A lei foi proposta depois da onda de protestos de jovens de origem estrangeira, sobretudo magrebinos do Norte da África, em outubro e novembro do ano passado. O desemprego entre os jovens franceses é de 23%, chegando a 40% na periferia das grandes cidades.

Uma pesquisa do Journal de Dimanche indica que 61% dos franceses estão descontentes com Villepin, contra 54% em fevereiro. Os muito insatisfeitos passaram de 15% para 25%. Só 37% apóiam o primeiro-ministro e 60% estão descontentes também com o presidente Jacques Chirac.

Os analistas econômicos sabem que o problema está na dificuldade de adaptação da economia francesa diante dos desafios da globalização. “As pessoas querem mudanças mas têm medo”, comentou a pesquisadora Carine Marce.

Teocracia Americana, a ameaça do fundamentalismo cristão nos EUA

O domínio conservador sobre a Casa Branca, o Congresso e a Suprema Corte, a infiltração cada vez maior do fundamentalismo cristão na ideologia do Partido Republicano, constitutem uma grande ameaça à democracia nos Estados Unidos. Quem adverte é Kevin Phillips.

Há 37 anos, ele escreveu A Emergente Maioria Republicana, livro onde afirmava que as mudanças demográficas e econômicas no pais, com migração de pessoas e recursos do Nordeste, a velha região industrial, para o Sul e o Oeste produziria uma maioria republicana mais conservadora que dominaria a política americana durante décadas. Phillips acredita que um Partido Republicano mais forte restabeleceria a ordem numa sociedade afetada por profundas mudanças, sendo algumas violentas.

Agora, no seu 13º livro, Teocracia Americana, resenhado pelo jornal The New York Times, adverte para os riscos criados pela coalizão conservadora que ajudou a articular. Descreve um cenário de extremismo ideológico, ganância sem limites, irresponsabilidade fiscal catastrófica e uma perigosa miopia política.

Phillips aponta três fatores que alimentam sua visão apocalíptica. Nenhum começou no governo George Walker Bush. Mas as políticas do atual presidente dos EUA os exacerbaram.

O primeiro é a influência do petróleo sobre as políticas interna e externa dos EUA. Em segundo, cita a presença cada vez maior de uma ideologia cristã fundamentalista na política e no governo do pais. Em terceiro, os megadéficits que a economia americana acumula há décadas.

Ele faz parte do grupo que está convencido que a verdadeira razão da invasão do Iraque foi o petróleo. “Pense no Iraque como uma base militar com uma vasta reserva de petróleo no subsolo”, disse um analista anos atrás. O terrorismo, as armas de destruição de massa, tirania e democracia seriam apenas desculpas.

É um raciocínio simplista mas nos últimos 30 anos o petróleo foi um elemento central na definição das políticas americanas. O próprio Bush reconheceu que o pais é “viciado em petróleo”.

Este “petroimperialismo”, denuncia Phillips, “transforma as Forças Armadas dos EUA numa força global de proteção do petróleo”.

Mas é o avanço do fundamentalismo cristão que está na idéia básica do titulo: a ameaça de um governo de inspiração teocrática na primeira democracia do mundo, construída sobre o princípio da tolerância religiosa. Ele compara os cristãos radicais aos talebã do Afeganistão por quererem reverter as conquistas do movimento feminista, acabar com a separação entre a Igreja e o Estado e criar um governo baseado na doutrina cristã.

Um grande grupo de protestantes, talvez cerca de um terço da população americana, pondera Phillips, acredita na suposta profecia bíblica da volta de Jesus Cristo à Terra para levar os fiéis para o paraíso. Estes fundamentalistas vêem sinais precursores do apocalipse nas guerras do Oriente Médio, na ocupação israelense de toda a Palestina e até no terrorismo, sinal da degradação da humanidade.

O autor entende que o governo Bush decidiu se aproximar destes fundamentalistas, encorajando-os a ver as políticas do presidente como respostas aos desafios desta era. Questiona se o presidente e seus assessores realmente acreditam na ideologia cristã fundamentalista ou se apenas manipulam a religião por oportunismo político.

Por fim, há a ameaça das dívidas. A dívida pública interna passa de US$ 8 trilhões. Mas a maior preocupação de Phillips é com os US$ 30 trilhões a US$ 40 trilhões que estima serão necessários para cobrir os gastos da Previdência Social e da saúde, por causa do envelhecimento da população. Fala ainda da dívida das empresas, da emissão de bônus por governos estaduais e muncipais, do déficit comercial que exigiria que as exportações fossem 70% do PIB e da dívida doméstica dos lares americanos, onde o consumo supera a poupança.

Phillips denuncia a “financeirização” dos EUA, que teriam passado de uma sociedade industrial para uma economia baseada na movimentação e administração de dinheiro. Ele acusa o ex-presidente do Federal Reserve Board (Fed), o banco central americano, Alan Greenspan de ignorar os riscos causados pela dívida para não furar a bolha especulativa que ajudou a criar.

A rigor, não há novidade em Teocracia na América. Mas Phillips junta elementos que foram um quadro aterrador. O fundamentalismo religioso nasceu nos EUA, na década dos 70 do século 19, como reação à Teoria da Evolução das Espécies de Charles Darwin. Ao refazer a viagem de Aléxis de Tocqueville, autor de Democracia na América em 1835, o filósofo francês Bernard-Henri Lêvy ficou impressionado com a quantidade de intelectuais que defende a teoria do “design inteligente”, pela qual a vida é algo tão maravilhoso que não poderia ter surgido espontaneamente, sem a interferência de um ser superior.

O fundamentalismo cristão é o novo pesadelo americano e as mesmas igrejas evangélicas pentecostalistas que surgiram no Texas, o estado de Bush, em 1901, expandem-se rapidamente pelo mundo, inclusive no Brasil.

sexta-feira, 17 de março de 2006

Flores e Humala empatam nas pesquisas sobre eleição para Presidencia do Peru

O candidato ultranacionalista Ollanta Humala, que tentou um golpe de Estado em 2000 contra o então presidente Alberto Fujimori, está tecnicamente empatado com Lourdes Flores, do Partido Social-Cristão, de centro-direita nas pesquisas sobre a eleição para presidente do Peru, a ser realizada em 9 de abril.

Na última pesquisa, divulgada ontem, Flores caiu dois pontos percentuais, e está com 27% das intenções de voto, contra 26% de Humala, que subiu dois pontos. Outra pesquisa revelou no domingo passado que Flores tinha a preferência de 31% dos eleitores peruanos e Humala de 30%.

Em terceiro na última pesquisa, aparece o ex-presidente Alan García, da Aliança Popular Revolucionária Americana, de centro-esquerda, com 19%, quatro pontos acima do mês passado. Há 22% de indecisos.

Flores, apoiada pelo escritor e ex-candidato a presidente Mario Vargas Llosa, e Humala, apoiado pelos presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, e da Bolívia, Evo Morales, devem disputar a presidência numa votação em segundo turno.

Fatah não participa de governo do Hamas

A Fatah (Luta), partido do presidente palestino, Mahmoud Abbas, e outros grupos ligados à Organização para a Libertação da Palestina (OLP), não formarão governo com o Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), vencedor das eleições parlamentes de 25 de janeiro. Os fundamentalistas não aceitam a exigência de que o novo governo reconheça todos os acordos firmados entre a Autoridade Nacional Palestina e Israel. Alegam que isto equivaleria a reconhecer o Estado de Israel e aceitar a ocupação dos territórios palestinos.

O primeiro-ministro designado pelo Hamas, Ismail Haniya, lamentou a decisão do segundo maior partido palestino.

Sob intensa pressão internacional para se tornar um partido político normal, sem uma facção armada, o Hamas nega-se a abandonar a luta armada e a reconhecer Israel, exigindo em troca a retirada total israelense dos territórios ocupados na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Esta postura radical não abre espaço para o diálogo.

GM omite US$ 2 bilhões de prejuízo

Quando escreveu O Desafio Americano na década de 60, o francês Jean-Jacques Servan Schreiber afirmou que as três maiores potências mundiais eram os Estados Unidos, a União Soviética e a General Motors. A maior fábrica de automóveis do mundo seria mais poderosa do que todos os outros países. Agora a empresa é símbolo do declínio relativo dos EUA no setor industrial.

Hoje a GM admitiu que, “por erro contábil”, escondeu um prejuízo de US$ 2 bilhões no balanço do ano passado. A companhia perdeu US$ 10,6 bilhões em 2005 e não US$ 8,6 bilhões, como anunciara antes. Prometeu ainda revisar seus números desde 2000, quando assumiu o atual presidente da empresa, Richard Wagoner, cuja cabeça está a prêmio. Desde então, as ações da companhia caíram 60%; só hoje, caíram 5%.

Megaempresa, a GM enfrenta problemas com seu gigantismo, seus enormes custos e sua participação em queda no mercado americano, enquanto a arquirrival Toyota, do Japão, prepara-se para ser a maior fabricante de carros do mundo. Suas ações são considerados “papéis podres” pelas agências de classificação de risco mas o interesse do megainvestidor Kirk Kerkorian elevou a expectativa de que a GM ainda tenha algo a oferecer.

Kerkorian já perdeu uma fortuna com a GM. Suas ações estão em torno de US$ 21,00 mas Ronald Tadross, analista do Bank of América acredita que elas devem cair para US$ 10 porque “os gestores da empresa continuam açucarando o problema”.

A empresa está negociando com os sindicatos da Delphi, um fabricante de autopeças ligada à GM que está à beira da falência, com prejuízos estimados entre US$ 5,5 bilhões e US$ 12 bilhões, e cujos funcionários ameaçam entrar em greve. Isto poderia abalar todo o setor automotivo nos EUA, onde as duas gigantes, a GM e a Ford, lutam com dificuldade, enquanto outras empresas como a Toyota continuam operando com sucesso.

Depois do fechamento da Bolsa de Valores de Nova Iorque, a GM reuniu a diretoria e comentou-se que a empresa estaria perto de um acordo com os sindicatos e a Delphi para que dezenas de milhares de trabalhadores se aposentem ou peçam demissão voluntariamente. Esta é considerada a melhor saída para evitar um pedido de concordata.

Para quem ainda acredita em hegemonia americana, é mais um sinal de que a hegemonia econômica está em evidente declínio.

quinta-feira, 16 de março de 2006

Bush reafirma doutrina de ataques preventivos

Apesar dos problemas no Iraque, na primeira revisão de sua Estratégia de Segurança Nacional desde o início da guerra, o governo dos Estados Unidos reiterou nesta quinta-feira sua determinação de lançar ataques preventivos contra países ou grupos que considere ameaçadores. É a refirmação da chamada Doutrina Bush, lançada um ano depois dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001.

O documento de 49 páginas inova ao colocar a promoção da democracia como um elemento central da política externa dos EUA, criticando vários países, inclusive a China e a Rússia, e especialmente o Irã.

“Não enfrentamos nenhum desafio maior vindo de um pais do que do Irã”, adverte o texto, acusando-o de desenvolver armas atômicas. “O regime iraniano patrocina o terrorismo, ameaça Israel, tenta frustrar a paz no Oriente Médio e boicotar a democracia no Iraque.”

Bush insiste em que a doutrina de ataques preventivos “continua a mesma”, declarando-a necessária para um país em guerra nos “primeiros anos de uma longa luta” que comparou à Guerra Fria, a confrontação estratégica entre os EUA e a União Soviética que marcou a segunda metade do século 20. Numa mudança em relação ao unilateralismo da ESN anunciada em setembro de 2002, agora a diplomacia conta com “nossa forte preferência” para combater a ameaça representada pelas armas de destruição em massa.

O documento enfatiza que os esforços diplomáticos para impedir o Irã de fabricar armas nucleares “precisam ter sucesso para evitar uma confrontação”. Não usa a mesma linguagem em relação à Coréia do Norte, que anunciou já ter a bomba mas deixa uma advertência geral: “O mundo será melhor se os tiranos souberem que estarão em risco se quiserem armas de destruição em massa”, admitindo, em relação ao fracasso em encontrar tais armas no Iraque, que regimes brutais fazem grandes esforços para esconder suas atividades.

“Se necessário, no entanto, com base nos antigos princípios de autodefesa, não descartamos o uso da força antes que ocorram ataques, mesmo se houver incerteza quanto à hora e lugar do ataque inimigo”, ameaça Bush.

Ao divulgar o documento, o assessor de Segurança Nacional dos EUA, Stephen Hadley, reiterou que o alerta vale tanto para a Coréia do Norte quanto para o Irã.

Esta linguagem não ajuda a diplomacia no momento em que os EUA e seus aliados europeus levaram a questão do programa nuclear iraquiano ao Conselho de Segurança das Nações Unidas. Em janeiro, Bush considerou um Irã com armas nucleares “uma grave ameaça à segurança mundial”.

A doutrina de ataques preventidos provocou um grande debate. Desde seu lançamento, é vista pelos defensores do Direito Internacional como incompatível com uma ordem internacional baseada na lei. Serviria como pretexto para qualquer agressão internacional. Como não foram encontradas armas de destruição em massa no Iraque, a alegação usada para justificar a guerra, o jornal The Washington Post observou que fica abalada a premissa básica da estratégia de que informações de serviços secretos sobre a capacidade e as intenções do inimigos bastem para iniciar uma guerra preventiva.

“A prevenção é e será sempre um instrumento potencialmente útil mas não é algo que se deva exibir e jogar na cara dos outros”, disse ao Post Harlan Ullman, assessor do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, de Washington. Mas criar uma estratégia baseada na guerra preventiva é “um enorme erro”. Na sua opinião, é possível deter agressões da maioria dos paises.

DEMOCRACIA
Além do uso da força e da diplomacia, a ESN destaca a necessidade de travar uma guerra ideológica contra o fundamentalismo muçulmano.

O documento torna explícita a decisão de promover a democracia como um pilar da política externa americana, como anunciou Bush no discurso de posse de seu segundo governo, em janeiro de 2005: “É política dos EUA promover e apoiar movimentos e instituições democráticas em toda nação e cultura, com o objetivo final de acabar com a tirania em nosso mundo”, diz o preâmbulo da ESN, repetindo o discurso de posse

Pela estratégia revisada, o governo dos EUA se compromete a denunciar abusos contra os direitos humanos, realizar reuniões de alto nível na Casa Branca com reformistas de nações repressivas, usar a ajuda externa para apoiar eleições e a sociedade civil, e aplicar sanções contra governos opressores. Há menções especiais à intolerância religiosa, à submissão da mulher e o tráfico de seres humanos. Mas é claro que esta política é limitada, na medida em que ditadores aliados dos EUA recebem tratamento diferenciado

Em outro trecho, citando a vitória do Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) nas eleições palestinas de 25 de janeiro, acrescenta que “eleições não bastam”, sendo importante respeitar os direitos fundamentais, construir instituições democráticas e espalhar seus benefícios à toda a população.

Sete países são apontados como exemplos de “sistemas despóticos”: Coréia do Norte, Irã, Síria, Cuba, Bielorrússia, Mianmar e Zimbábue.

A Coréia do Norte é acusada de “duplicidade e má fé nas negociações sobre seu programa nuclear”, de falsificar dólares, traficar drogas e causar a fome de seu próprio povo.

Numa visão mais cética em relação à Rússia, critica o governo Vladimir Putin de “reduzir o compromisso com as liberdades e instituições democráticas”, prometendo “trabalhar para tentar persuadir o governo russo e ir para a frente e não para trás no caminho da liberdade”.

Também adverte a China de que “deve agir como um participante responsável” da comunidade internacional, evitando “velhos métodos de pensar e agir” na competição por recursos energéticos.

Em outro sinal de recuo do unilateralismo, o documento constata que “os novos fluxos de comércio, investimento, informação e tecnologia” estão transformando os desafios para a segurança nacional em todas as áreas, da epidemia de aids à ameaça da gripe das aves à destruição do meio. Mas não menciona o aquecimento global.

Para mostrar que a conversão de Bush ao multilateralismo é apenas parcial, assinala que às vezes “coalizões de voluntários” são mais eficazes para resolver problemas do que instituições internacionais como a ONU e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

Mais de 250 mil protestam contra lei do primeiro emprego na França

Cresce a onda de manifestações convocadas por sindicatos e pelo movimento estudantil contra a nova lei do primeiro emprego aprovada na França, que permite demissão sem justa causa nos dois primeiros anos de contrato de trabalho. Mais de 250 mil pessoas, 500 mil segundo os organizadores, em sua maioria estudantes, marcharam hoje nas ruas de 80 cidades francesas e entraram em choque com a polícia em várias. Segundo a União Nacional dos Estudantes da França, 64 das 84 universidades do país estão em greve. A mobilização deve ser ainda maior no sábado, quando trabalhadores que não puderam participar hoje estarão de folga.

O objetivo do governo conservador é diminuir o desemprego entre jovens, que é de 23%, chegando a 40% entre minorias étnicas, bem acima da média nacional, de 9,7%. Mas estudantes e sindicalistas alegam que ela será usada para substituir assalariados com maior estabilidade por jovens com contratos precários. De acordo com pesquisa divulgada pelo jornal Le Parisien, 68% dos franceses são favoráveis à revogação da lei

O primeiro-ministro Dominique de Villepin apresentou o projeto como resposta aos distúrbios de outubro e novembro, quando jovens de origem estrangeira da periferia incendiaram milhares de automóveis em protesto contra a violência e a arbitrariedade da polícia. Villepin disse estar “aberto ao diálogo, no marco da lei, para melhor o contrato do primeiro emprego”.

Em Paris, houve um confronto violento com a polícia que lembrou a Revolução dos Estudantes de maio de 1968. Cerca de 100 jovens de bicicleta tentaram bloquear ruas ao redor do Museu do Louvre para reclamar contra a redução do número de professores de educação física.

Também houve manifestações importantes em Marselha, Grenoble, Rennes, Toulouse e Bordeaux. A Universidade de Toulouse foi fechada depois de conflito entre estudantes que queriam fechá-la e os que pretendiam mantê-la aberta. Em Rennes, cerca de 100 estudantes ocuparam a Prefeitura Municipal. A Universidade de Rennes está fechada há seis semanas por causa dos protestos.

O presidente Jacques Chirac fez um apelo ao diálogo entre ministros, sindicalistas e estudantes. A oposição socialista prometeu apresentar um projeto alternativo.

Como a lei do primeiro emprego já foi aprovada pela Assembléia Nacional, revogá-la agora seria uma tremenda derrota política para o governo e para as ambições presidenciais do primeiro-ministro nas eleições de 2007. “Villepin, você está queimado. Os estudantes estão nas ruas”, gritavam os manifestantes.

Apesar do baixo crescimento econômico, 39 empresas francesas que compõem o índice CAC40, da Bolsa de Paris, apresentaram lucros recordes de 84 bilhões de euros em 2005, um aumento de 30% em relação a 2004.

BBVA prevê crédito mais barato na América Latina

Depois de um longo período de desaceleração e até de estancamento, a oferta de crédito na América registra forte aceleração desde 2004, aproximando-se dos níveis do final dos anos 90, afirma um relatório do banco espanhol BBVA. Em termos reais, cresceu 27% até março de 2005 em relação ao ano anterior. Com maior estabilidade macroeconômica, inflação em queda e mais concorrência, a tendência é de redução do custo do crédito. Mas o alto grau de informalidade e a falta de garantias para os credores agem em sentido contrário.

À exceção do Chile, o mercado ainda é considerado em relação aos produtos internos brutos. Para José Luis Escrivá, chefe de pesquisas econômicas do BBVA, as sucessivas crises financeiras na região impediram a consolidação do mercado. Como ocorreu no Brasil, no Chile e no México, Escrivá acredita que sejam necessários 10 anos para recuperar os níveis de crédito anteriores à crise.

No Brasil e na Venezuela, a canalização de crédito mais barato para setores estratégicos acaba encarecendo o custo do dinheiro para outros setores, comentou Ignácio Sánchez-Asiaín, diretor do BBVA para a América do Sul.

Inflação para consumidor americano sobe apenas 0,1% em fevereiro

O índice de preços para o consumidor nos Estados Unidos registrou alta de apenas 0,1% no mês passado, depois de subir 0,7% em janeiro, num sinal de que a alta nos preços do petróleo não atingiu outros preços. A Bolsa de Valores de Nova Iorque reagiu positivamente porque isto reduz a necessidade de um aumento da taxa básica de juros, o que costuma atrair mais investimentos para a economia americana, geralmente às custas dos mercados emergentes. A inflação nos últimos 12 meses nos EUA está em 3,6%.

A construção de novas casas caiu 7,9% em fevereiro, depois de crescer 15,8% num mês de janeiro excepcionalmente quente. Mas a expectiva é que o mercado imobiliário retome sua força no primeiro semestre, em parte devido à reconstrução pós-furacões. Há uma preocupação das autoridades econômicas com a possível explosão de uma bolha especulativa no setor. Mas a inflação no preço da casa própria limita-se às grandes cidades dos EUA. Não teria maior impacto no resto do pais.

Os salários reais caíram 0,1% nos últimos 12 meses, revelou o Departamento do Trabalho. Os novos pedidos de seguro desemprego subiram em 5 mil, chegando a 309 mil na semana encerrada em 11 de março, o nível mais alto desde dezembro. São indicações de que os salários não pressionam a alta de preços.

Na minuta da última reunião do Federal Reserve Board (Fed), o banco central dos EUA, o Comitê de Mercado Aberto observou que “possíveis aumentos na utilização de recursos, bem como os elevados preços da energia, têm o potencial de alimentar a pressão inflacionária”. Agora, uma nota do economista Nariman Behravesh, da empresa Capital Insight, comenta que, “emboja não haja espaço para complacência, o Fed pode ficar tranqüilo pelo fato de que a inflação está sob controle, apesar de pressões inflacionárias modestas”.

A expectativa do mercado era de um aumento 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros na reunião do Fed de 28 deste mês, para 4,75%, e para 5% em 10 de maio. Os analistas entendem que o próximo aumento é praticamente certo mas estão divididos quanto a novas altas nos juros.

“Ainda esperamos que o Fed aumente a taxa para 5,25% até a metade do ano por causa do forte crescimento, alto nível de utilização de recursos e inflação próxima do limite máximo confortável”, declarou John Ryding, economista-chefe do banco de investimentos Bear Stearns nos EUA.

EUA fazem maior bombardeio aéreo no Iraque desde 2003

Com 50 aviões e helicópteros, 200 veículos e carros de combate e 1,5 mil soldados americanos e iraquianos, os Estados Unidos lançaram, na cidade de Samarra e arredores, uma grande ofensiva com o maior bombardeio aéreo ao Iraque desde 2003, o ano da invasão. O objetivo é atacar a insurgência. Um ataque contra a Mesquita Dourada de Samara, um dos mais sagrados santuários xiitas, atribuído pelos americanos à rede terrorista Al Caeda, em 22 de fevereiro, deflagrou uma onda de violência entre árabes sunitas e árabes xiitas que matou milhares de pessoas e ameaça provocar uma guera civil no Iraque.

A Assembléia Nacional, o parlamento iraquiano, de 275 cadeiras, tomou posse nesta quinta-feira. O diálogo político entre xiitas, sunitas e curdos é a maior esperança para conter a violência. Mas não há acordo para reconduzir ao cargo o primeiro-ministro Ibrahim al Jaafari, reindicado pela Aliança Iraque Unido, xiita, que vendeu as eleições de 15 de dezembro de 2005. Jaafari sofre forte oposição dos sunitas, que culpam o governo por massacres atribuídos a milícias xiitas.

Em Halabja, onde pelo menos 5 mil pessoas morreram num ataque com armas químicas ordenado pelo então ditador Saddam Hussein em março de 1988, uma multidão protestou junto ao monumento em homenagem às vítimas, exigindo mais ajuda governamental.

O caos no Iraque levou os EUA e o Irã a abrirem um diálogo mas só sobre a questão iraquiana, não sobre o programa nuclear iraniano, suspeito de desenvolver armas atômicas, que está sob exame do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Saddam pede união de iraquianos contra invasão americana

Em seu primeiro depoimento como testemunha no julgamento em que é acusado por 143 mortes, o ex-ditador do Iraque Saddam Hussein desafiou mais uma vez a autoridade do tribunal alegando que ainda é o presidente legítimo do Iraque. Ele apelou a sunitas e xiitas para que parecem de brigar entre si e se unam para combater as tropas dos EUA.

O juiz fechou a sessão para a imprensa durante duas horas e marcou nova audiência para 5 de abril.

quarta-feira, 15 de março de 2006

Déficit recorde dos EUA ameaça dólar

O déficit em conta corrente recorde dos Estados Unidos em 2005, de US$ 805 bilhões, 6,4% do formidável produto interno bruto americano, de mais de US$ 12 trilhões, provocou inquietações a respeito do dólar. E o novo presidente do Federal Reserve Board (Fed), o banco central americano, Ben Bernanke, advertiu que o financiamento do déficit público federal pode exigir aumento de impostos.

Há ainda um terceiro déficit da economia americana, o déficit doméstico. Os americanos gastam mais do que ganham, então há uma poupança negativa que exige financiamento. Se o dólar for abalado significativamente, a economia dos EUA pode se tornar menos atraente para os investidores.

A realidade é que “um déficit em conta corrente desta magnitude sem precedentes é insustentável e não há esperança de que possa ser removido sem dor apenas com aumento de exportações”, declarou ao jornal inglês Financial Times o economista Paul Ashworth, analista da Capital Economics.

Hoje as exportações equivalem a 10,5% do PIB dos EUA. Precisariam chegar a 70%. “Claro que isto não vai acontecer”, acrescentou Ashworth. O equilíbrio vai exigir “uma grande desvalorização do dólar e uma demanda muito menor por importados”, com impacto sobre toda a economia mundial. Nos últimos anos, o crescimento mundial tem sido sustentado pelo consumo americano e pela expansão da Ásia, sobretudo da China.

Desde o início do ano, o dólar caiu 3,5%. No ano passado, beneficiou-se das baixas taxas de juros na Europa e no Japão. Em 2006, elas estão subindo.

Nos EUA, a expectativa do mercado é que o Fed aumente a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual na reunião de 27-28 de março, a primeira presidida por Bernanke, e para 5% em 10 de maio. Os economistas do banco central americano esperam forte crescimento da economia no primeiro semestre do ano, em parte por causa da reconstrução pós-furacões e menos no segundo semestre, quando o mercado imobiliário tende a esfriar.

Barriga aumenta risco de ataque cardíado

O tamanho da cintura, especialmente seu aumento, é um indicador importante da quantidade de gordura abdominal precursora da inflamação das artérias e das doenças cardiovasculares, confirmam pesquisas relatadas na 55ª Reunião Anual do Colégio Americano de Cardiologia, realizado em Atlanta, na Geórgia.

“Para cada 14 centímetros de aumento da cintura em homens e mulheres, o risco cardiovascular aumenta de 21% a 40%”, declarou Sydney Smith Jr., presidente do Conselho de Assessores da Federação Mundial do Coração, diretor do Centro de Ciência e Medicina Cardiovascular da Universidade da Carolina do Norte e um dos responsáveis pela pesquisa.

Ele acrescentou: “Precisamos considerar o tamanho da cintura, a idade, a pressão arterial e o nível de colesterol.”

Na América Latina, 10% da população sofrem de doenças do coração, em comparação com 26% na Europa Oriental. Entre 60% e 70% das populações estudadas em diversos países tinham excesso de peso. O Canadá registrou os índices mais altos. Lá, 75% dos homens e 65% das mulheres tem excesso de peso.

Um estudo da Universidade de Groningen, na Holanda, com 7.680 pacientes apontou que “o tamanho da cintura e sua relação com a cadeira são indicadores mais precisos de problemas cardíacos”, como explicou a bióloga Anne Chris Jonkers, chefe de pesquisa do projeto.

A cintura costuma ser maior nas zonas rurais do que na cidade. Entre 45 e 60 anos aumenta a cintura das mulheres por causa da menopausa. Muitos antes, a partir dos 25 anos, o ser humano começa a perder massa muscular, que em muitos casos é substituída por gordura.

Israel ataca prisão palestina e provoca violentos protestos

O Exército de Israel atacou na terça-feira, 14 de março, uma prisão em Jericó, cidade da Cisjordânia sob o controle da Autoridade Nacional Palestina. Diversos presos foram levados pelos israelenses, entre eles um suspeito do assassinato de um ministro de Israel.

A operação militar provocou uma onda de violência contra Israel e seus aliados ocidentais. Monitores internacionais americanos e britânicos deram passagem às tropas israelenses. O presidente palestino, Mahmoud Abbas, condenou o ataque e interrompeu uma viagem à Europa para voltar para casa. Ele falaria hoje no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, na França, seguindo depois para Paris e Bruxelas, na Bélgica, onde fica a sede da União Européia (UE).

Um porta-voz do Ministério do Exterior de Israel afirmou que a operação foi necessária porque diversos presos seriam soltos pelo futuro governo palestino que está sendo articulado pelo Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), principal partido fundamentalista palestino.

Israel, os Estados Unidos e a UE consideram o Hamas um grupo terrorista. Exigem que abandone a luta armada e que reconheça o Estado de Israel. O Hamas diz que só fará isto se Israel se retirar dos territórios ocupados na Guerra dos Seis Dias, em 1967.

Entre os presos seqüestrados por Israel, está Ahmed Sadaat, líder da Frente Popular pela Libertação da Palestina, acusado da morte do ministro do Turismo israelense Rehavam Zevi há cinco anos. A FPLP prometeu retaliar. Todas as facções palestinas convocaram uma greve geral para esta quarta-feira, 15 de março.

Na reação violenta ao ataque, jovens palestinos seqüestraram pelo menos oito estrangeiros e incendiaram a sede do Conselho Britânico na cidade de Gaza.

A UE condenou as ações tanto de Israel quanto dos palestinos e ameaçou cortar a ajuda financeira aos palestinos, de cerca de US$ 340 milhões por ano, se não cessar a violência contra cidadãos e propriedades européias. Esta ajuda já estava ameaçada porque o Hamas é considerado terrorista.

O assalto à prisão de Jericó é uma amostra inquietante do que será o relacionamento de Israel com um governo liderado pelo Hamas, que obteve 74 das 132 cadeiras do Conselho Nacional Palestino. Com sua exigência de retirada total de Israel para as fronteiras anteriores à guerra de 1967, os fundamentalistas mantêm uma posição linha-dura. Não dão o passo inicial rumo ao diálogo.

Como Israel ameaçou matar os líderes do Hamas, inclusive o primeiro-ministro designado Ismail Haniya, visto como um moderado no movimento, há um endurecimento de posições dos dois lados do conflito.

A poucos dias das eleições de 28 de março, é natural que o primeiro-ministro interino Ehud Olmert queira reafirmar suas credenciais como comandante supremo diante das acusações do candidato da direita. O ex-primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, líder do partido Likud, acusa Olmert de abandonar a Cisjordânia porque o governo tem um plano para retirada unilateral até 2010, se não houver um acordo de paz com os palestinos até lá.

Com a radicalização de posições, não se deve esperar um grande avanço rumo ao dialogo depois das eleições do dia 28 de março em Israel. Pelo menos estará definido quem representa cada lado nesta guerra.

terça-feira, 14 de março de 2006

Política econômica de Kirchner produz distorções microeconômicas

O presidente da Argentina, Néstor Kirchner, intervém ativamente na economia na busca de melhorar a competitividade, estimular o crescimento econômico e a geração de empregos. Em 2005, o país cresceu a uma taxa recorde de 9,3% com uma inflação acima de dois dígitos. Ao afastar o ministro da Economia, Roberto Lavagna, que renegociara a dívida argentina com deságio, depois das eleições legislativas de outubro, Kirchner indicou claramente que assumiria o controle total da economia tendo em vista sua reeleição em 2007. Mas seu intervencionismo provoca distorções microeconômicas que prejudicam a eficiente alocação de recursos, observa o economista Miguel Angel Broda.

A política macroeconômica da Argentina no governo Néstor Kirchner se apóia em três pilares fundamentais, constata Broda:
• uma política monetária subordinada a uma política cambial destinada a manter o peso depreciado e a acumular reservas;
• uma política fiscal de forte crescimento do gasto público com objetivos políticos num contexto de alto superávit fiscal com 20% dos impostos provenientes da arrecadação de impostos que distorcem as atividades econômicas; e
• uma forte intervenção estatal na economia que maximiza os objetivos de curto prazo e minimiza os de longo prazo.

O primeiro pilar pressupõe que uma moeda subvalorizada aumenta as exportações, contribui para o crescimento e a geração de empregos. Para sustentar o dólar em torno de 3 pesos, o Estado participa ativamente do mercado de câmbio por meio de uma “flutuação suja”. O Banco Central da República Argentina emite moeda para comprar o excesso de dólares e o Tesouro faz o mesmo com o superávit fiscal.

Esta política de forte compra de divisas pelo setor público visa a manter o dólar alto e estável, manter juros baixos para estimular o investimento e o consumo, e controlar a oferta de dinheiro e a taxa de inflação.

Com o crescente intervencionismo estatal, há preços fixados de maneira discricionária, subsídios para congelar preços e uso da política comercial para combater a inflação, de 12,3% em 2005. Isto gera uma série de distorções microeconômicas invisíveis a princípio mas que produz efeitos negativos sérios sobre a alocação de recursos eficiente.

Para Broda, se houver uma queda da demanda por dinheiro, que está em nível recorde, será difícil manter o peso apreciado junto com uma política monetária que funcione como âncora antiinflacionária. O economista entende que o Banco Central deve melhorar o rendimento dos depósitos em pesos.

Hoje a Argentina mantém uma política monetária expansiva. Mas se a heterodoxia kirchnerista quer manter o peso subvalorizado e estável num contexto de inflação alta, precisa aumentar as taxas de juros, segundo Broda hoje as mais negativas do mundo o que contraria os objetivos de Kirchner na luta pela reeleição em 2007.