quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

A origem da anarquia no Iraque

Os Estados Unidos nunca tiveram o número necessário de soldados para controlar todo o Iraque e suas fronteiras, e defender sua infra-estrutura de ataques dos rebeldes que lutam contra a invasão americana que derrubou Saddam Hussein em abril de 2003. A confissão é de Lewis Paul Bremer, o procônsul americano que governou o Iraque ocupado durante 14 meses até transferir o poder apressadamente a iraquianos em 28 de junho de 2004, depois de meses de grande violência.

No seu livro de memórias, Meu ano no Iraque, resenhado pelo jornal The New York Times www.nytimes.com, Bremer revela que chegou a pedir mais tropas ao Pentágono para controlar a insurgência no Centro e no Sul do Iraque em maio de 2004. Mas tanto a Casa Branca quanto o Pentágono (Departamento da Defesa) sempre rejeitaram a sugestão de que os EUA precisavam mandar mais soldados para o Iraque.

Bremer quis saber na época do general Ricardo Sanchez, supremo comandante militar americano no Iraque, o que ele faria com mais 40 mil soldados: “Eu controlaria Bagdá”, afirmou o general, indicando que a situação na capital iraquiana estava fora de controle. E se tivesse mais tropas?, insistiu Bremer. Patrulharia as fronteiras e protegeria a infra-estrutura, especialmente a indústria petrolífera, alvo preferencial dos terroristas, que querem minar a grande fonte de riqueza do país para inviabilizar o governo. “O Sr. tem mais soldados à disposição?”, perguntou o general.

Para Dexter Filkins, correspondente do NY Times em Bagdá e autor da resenha, era evidente para qualquer um que os americanos não controlavam nem a estrada de acesso ao Aeroporto Internacional de Bagdá, “cena de ataques suicidas diários”. Mas durante seus 14 meses no Iraque, Bremer e o general Sanchez negaram insistentemente que a situação nas ruas fosse de total anarquia, apesar da onda de atentados suicidas e da ação agressiva de milícias e bandos armados.

Em abril de 2004, Bremer declarou que as novas forças de segurança do Iraque tinham 200 mil homens. Quando explodiram insurgências sunita e xiita, estas forças de segurança se desintegraram. Não só não quiserem lutar contra os rebeldes iraquianos que as tinham como alvo preferencial como em muitos casos aderiram à rebelião.

POUCO BOMBEIRO PARA MUITO FOGO
O livro revela que Bremer não confiava naqueles 200 mil iraquianos. “As forças da coalizão estão espalhadas demais no terreno”, escreveu. “Durante os informes de inteligência que recebia de manhã, às vezes me vinha a imagem de uma equipe de bombeiros em número insuficiente correndo para apagar um incêndio atrás do outro.”

Meu Ano no Iraque acaba sendo mais uma acusação contra o governo George W. Bush, o secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, e a maneira irresponsável como o Pentágono tratou a administração do Iraque ocupado, ignorando um princípio básico da teoria das relações internacionais. Ao destruir a máquina do Estado de Saddam Hussein, inclusive desmobilizando o Exército e a Policia, o que hoje é reconhecido como grave erro, era preciso um grande esforço de reconstrução do Iraque.

Ao guardarem o silêncio imposto por seus chefes em Washington, tanto Bremer quanto Sanchez são co-responsáveis (ou co-irresponsáveis?) pela anarquia que torna a vida no Iraque ainda pior do que sob a ditadura de Saddam Hussein.

Filkins questiona se mais 30 ou 40 mil soldados seriam suficientes para mudar a situação. A um custo de centenas de vidas americanas e milhares iraquianas, os EUA dominaram as rebeliões de 2004. Mas a anarquia que tomara conta das ruas com a onda de saques que se seguiu à invasão, em março e abril de 2003, nunca foi vencida.

Bremer revela as negociações secretas que teve com o grão-aiatolá Ali al-Sistani, a maior autoridade religiosa xiita do Iraque, e outros líderes nas negociações para fazer um anteprojeto de Constituição, organizar eleições livres e devolver o poder aos iraquianos. Este é o legado positivo de sua tumultuada administração no Iraque. Ele deixou uma estrutura de governo e de uma democracia.

A parte negativa é a anarquia generalizada, com atentados que se repetem a cada dia e um clima de guerra civil agravado pelos ataques a mesquitas em 22 de fevereiro.

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